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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Dos Privilégios Nossos de Cada Dia


São sete e meia da noite na Dinamarca, mas sei que no Brasil ainda é início de tarde de uma sexta-feira. Imagino as pessoas sentadas na ponta de suas cadeiras no trabalho, já sonhando com o final de semana, com as festas, com os encontros, com os descansos. São sete e meia da noite e porque estou na Dinamarca, já faz uma hora e meia desde minha janta. O que é no mínimo inusitado. Inusitado como muitas coisas por aqui são: os trens sem catracas, as pessoas sempre com bicicletas e aquele ar bem cuidado de um país-de-primeiro-mundo.

Os dinamarqueses têm privilégios que a maioria dos brasileiros não têm: eles andam nas suas ruas coloridas sem preocupação com a segurança. Eles têm direito a um salário, se decidirem estudar. Educação que, por uma acaso, é toda pública e gratuita. Os dinamarqueses, contudo, do alto de seu reino de privilégios, olham com olhos raivosos para o céu e reclamam todos os dias, a plenos pulmões: o clima deste país é o pior do mundo! Não existe ódio maior do que o dos dinamarqueses frente às nuvens de chuva.

Confesso que acho difícil aceitar as reclamações deste lado do mundo. Trocaria de bom grado nossos dias de sol, por dias de igualdade. Então escuto com ouvidos cínicos as reclamações. Também observo com cautela japoneses e sul coreanos denunciando que existe corrupção em seus países. Quase começo a rir quando algum europeu fala mal de seus políticos. Porque sou brasileira e na minha mente já esta configurado que não existe nem deverá existir lugar com falhas maiores que as do Brasil.

O que por si só é uma bobagem bem grande. 

Porém, entre meu dar de ombros frente aos nossos dias de sol ou a naturalidade dos dinamarqueses em relação ao seu sistema de ensino, fica claro que, mais do que tudo, somos cegos aos nossos incríveis privilégios de todos os dias. Somos máquinas de reclamar: do sistema, da política, da economia, da sociedade e, se nada mais der errado, da própria natureza do mundo. Precisamos afirmar e reafirmar que não existe paraíso na Terra. O que talvez fosse um pouco mais construtivo seria por um ou dois segundos olhar para o próprio umbigo e entender que nossos privilégios estão entre nós tanto quanto todas as outras falhas.

Tenho vinte e um anos. Acabei de começar um intercâmbio na Dinamarca. Não tive educação em escolas privadas, meu pai é carteiro e minha mãe faz artesanato. Entre pegar o Trensurb todos os dias para ir pra faculdade e trabalhar para pagar minhas contas, ralei como às vezes alguns de nós precisam ralar para conseguir o que querem. Meu esforço não anula meu privilégio de estar aqui. Quantas pessoas trabalham uma vida inteira e não conseguem usufruir nada?

Sou privilegiada pela educação que tive em casa. Pela educação que tive na Fundação Liberato. Pela educação que estou tendo na UFRGS. Sou privilegiada por ter tido uma família que sempre se importou. Por conseguir ir bem nos testes certos. Por me encaixar no que a sociedade espera. Por ter recebido as chances que a muitos foram negadas.

Ser privilegiado não faz de você um babaca.
Babaca é quem acredita que todos não merecem esses mesmos privilégios.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Um a Um


Existem dias que eu acordo com certezas absolutas sobre todos os próximos dias que ainda virão em minha vida. Existem planos e passos e regras e ideias e objetivos e a luz no fim do túnel. Mas então eu lembro que preciso levantar do sofá cama e tomar um banho, arrumar os cobertores e ir trabalhar. E em algum momento entre o levantar e o almoço, todas as minhas estratégias para dominar o mundo parecem descer pelo ralo do chuveiro junto com os resquícios do sono das manhãs de quarta-feira.

A vida me cansa a coluna e as articulações e meu siso gosta de incomodar. Me percebo questionando se a partir daqui será sempre assim: dói. Não de uma maneira metafórica ou poética, não. Meu joelho dói quando eu me deito e penso em dormir. A insônia não deixa. A dor incomoda. Me surpreendo: envelheci. 

Não sou velha, mas a cada sol sou menos jovem. É óbvio, mas não é. Demorei muito para perceber como o tempo é faminto. É só eu piscar para que meses passem desapercebidos. Algumas horas de distração, e o tempo levou anos inteiros. Até o dia de adormecer, e uma vida inteira ter ido. Escorrendo pelos dedos com a mesma instabilidade de um punhado de areia. 

Gostaria de escrever todos os dias e de escrever melhor. Gostaria de ter mais palavras - não só nos textos, mas no dia a dia. Gostaria de ser mais fogo. Um furação inteiro, uma noite de ventania. De ser feita de um material mais forte, de um material melhor.

Mas preciso me contentar com a carne e os ossos e a preguiça e as dores e o tempo e a própria inevitabilidade de tudo. Preciso me contentar com a falta das certezas e as constantes dúvidas. Preciso me contentar com as tentativas: tentar escrever mais, tentar saber mais, tentar ser mais.

Até o dia de ser conquistada pelo tempo. Como acontecerá com todos nós. Um a um. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Insônia na República

São duas da manhã na Rua da República.

O silêncio é quebrado apenas por um andar trôpego no
andar de cima, anunciando que alguém chegou tarde nesta segunda-feira. Ou já será terça? Os segundos se estendem pela madrugada, o barulho do relógio da cozinha revelando os mistérios do tempo. Ou apenas os ressaltando. 

São duas da manhã.

E em um outro mundo, em uma outra era, em uma outra vida, eu andaria pelas ruas calmas nessa madrugada quente de novembro. Mas não são outros tempos. Então me prendo atrás de paredes e chaves e sonos e sonho com a brisa suave correndo do Guaíba, passando solta pela perimetral, e descubro dentro de mim inveja do vento.

Do vento que vê, todos os dias, a noite. 

Enquanto isso, tudo que me sobra são retalhos de imaginação. 
Mas sigo imaginando. 

Imagino a lua refletida no lago e as árvores da Redenção dançando ao som da madrugada. Imagino a João Pessoa por uma vez vazia. Imagino uma Porto Alegre fantasma. Imagino a cidade só para mim. Imagino descobrir cada via. Imagino descobrir a cor da noite. E descobrir onde o mundo se esconde, quando todos se escondem do mundo.

Tenho vontade de colocar um tênis surrado e um olhar vivo. E viver essa madrugada em Porto Alegre.

Mas são duas da manhã. E nesses dias, nessa época, e nesse mundo: não posso. Estou presa a segurança do dia a dia, estou presa a ilusão de controle, estou presa ao medo, ao bom senso, a realidade, a surrealidade desses tempos. Onde nos prendemos por vontade. E para sobreviver, abdicamos de parte de nossas vidas.

              
A insônia me mantém acordada. A noite segue tranquila na República. É a hora mais escura.

Preciso ir.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Quando As Crianças Mimadas Crescem

Sete da noite de uma quinta-feira.

O barulho começa.

Primeiro são as risadas que flutuam pela área. Depois os gritos. E por fim a música. É uma festa, afinal percebo, não um filme de terror.

De início, não estou surpresa.

A ilustríssima residente do 109 é uma aspirante a cantora de ópera que treina seu fôlego com músicas da Rihanna. Música, na verdade.

Todo santo dia, a mesma música.

Se nada mais, é de se admirar sua constância. Ou como nenhum outro morador cometeu um crime. Ainda.

Essa menina do cento e nove ainda tem amigos que gostam tanto quanto ela se divertirem subindo a média de decibéis do prédio. Um, principalmente, que adora rir para ser ouvido pelos alienígenas da nave mãe. Nada contra risadas, mas será que os coelhinhos escondidos na lua também precisam ouvir? Tenho minhas dúvidas.

Passa das oito da noite quando minha irmã sugere que a gente ligue para o porteiro pedindo para o pessoal da festa se controlar. Quer dizer, ninguém aqui é tão obtuso que não aceita um pouco de barulho. Mas uma hora depois o show das hienas já perdeu a graça.

E não só para nós.

O porteiro esclarece que já telefonou duas vezes. Agora só lhe resta colocar a famosa moça do cento e nove no Livro.

Não chego a perguntar, mas ele faz parecer que estar no livro é uma falta grave. Do tipo você não ganha a estrelinha no final da aula. E o porteiro não te dá mais bom dia. E todo mundo no prédio te odeia com uma fúria inimaginável.

Pena que todo o ódio do Livro dos Porteiros não impede a propagação das ondas de som.
Ligo para a moça. Ela atende irritada.

“Já passou das dez? Eu tenho todo o direito de fazer barulho, os incomodados que se retirem, whatever”.

Quando desligo, logo em seguida o telefone dela toca de novo. Mais uma reclamação. Ninguém consegue ouvir seus pensamentos, só gritos. Só o cento e nove tem direitos nessa noite de quinta-feira.

E é engraçado, para não dizer que é horrível e triste, quando finalmente compreendo: as crianças mimadas não mudam - elas apenas envelhecem e passam a se chamar de adultos.

E agora passa das vinte e duas horas.
E pela área ainda flutuam os sons do puro e completo egoísmo.

domingo, 11 de setembro de 2016

Das Coisas Quebradas

Não, eu te digo. Não, e é spoiler mesmo. Não e não. Simplesmente não.

Nada nunca será como foi. Nada nunca voltará intacto e intocado pelo tempo. Nada do que foi perdido, será reencontrado em perfeito estado. O que o passado quebrou, não há presente ou futuro que remende. Eis a verdade: a vida segue. As coisas mudam. Algumas voltam melhores, com o tempo. Outras nunca voltam. Algumas voltam em tons desbotados que só causam tristeza e desilusão se comparadas ao seu estado original. Mas elas nunca voltam iguais. 

E, às vezes, você vai acabar querendo que elas não voltem nunca mais.
Mesmo as coisas boas.

Por melhor que algumas coisas tenham sido, acontece que passa. Tudo, tudo, tudo passa. E nem tudo é vinho que melhora com o tempo. E algumas coisas são leite, e azedam. E outras apodrecem. E de outras a gente simplesmente enjoa. E quando vemos as primeiras rachaduras, já não nos incomodamos. E quando tudo se transforma em pó em nossas mãos, nem nos surpreendemos. E quando o vento leva até mesmo os resquícios do que um dia foi, para longe, finalmente respiramos em paz. Um peso a menos.

A verdade é que vivemos muito, mesmo em pouco tempo. A verdade é que muitas vezes temos dias longos e semanas seculares. Existem horas que nos envelhecem milênios. Existem dias em que nascemos e morremos em minutos. Existem segundos, longos e intransponíveis segundos, que se prolongam pelo próprio infinito.

A verdade é que a vida vai mudar quem nós somos. Os tempos vão ditar nossos cortes de cabelo. E as cores de nossas roupas. E o conteúdo dos nossos gostos. E a razão dos nossos desgostos.

E em meio a esse jogo de mudar e crescer. E em meio a manhãs de inverno, tardes de primavera e noites de verão. E em meio aos meios e aos fins e aos começos. E em meio a tudo vamos descobrir que não há presente maior que este, ou maldição maior que esta:

O passado está para sempre preso no labirinto do tempo.
Só nos resta recomeçar.

domingo, 4 de setembro de 2016

Meio Dia em Porto Alegre


É meio dia em Porto Alegre.

Faz sol em um dia que prometia ser nublado. A Rua da República está cheia de gente pelas calçadas, os restaurantes todos servem almoço, os estudantes estão indo e voltando de suas aulas, os gatos na Sirius estão buscando alguém que os faça carinho e é uma terça-feira extraordinariamente normal.

É meio dia em Porto Alegre e estou voltando da minha aula da manhã.

Admito: meu dia já não estava dos melhores. Entre acordar atrasada, sair correndo com a bicicleta, descobrir a cidade inteira molhada e cair de cara na calçada na frente da UFRGS (e, obviamente, na frente de colegas - porque nunca podem ser apenas um bando de desconhecidos testemunhando o fim da nossa dignidade) meu dia já estava indo de mal a pior. Então lá estava eu, voltando para casa - a roupa virada em lama após o incidente da manhã, o lado esquerdo do corpo dolorido por funcionar como amortecedor para a bicicleta e a dignidade provavelmente esquecida em algum canto da calçada maldita. Não é uma boa terça-feira, de forma alguma.

Passo pelo apartamento que fica na República apenas para trocar de roupa, já estou mais do que atrasada para ir trabalhar. Entro em um pé, saio no outro - e já estou caminhando pela calçada mais uma vez. É meio dia em Porto Alegre. Faz sol. A rua está cheia de pessoas. Caminho com pressa e com a distração usual que estar em uma pequena multidão nos traz. É meio dia na Rua da República. Todo mundo está na rua, almoçando, indo e voltando. É só mais um dia normal.

Alguém puxa minha mochila e eu me viro pronta para ver um rosto amigo.

Eu sou distraída o suficiente para não ser uma primeira vez. Eu não vejo amigos na rua até que eles pulam na minha frente, puxam meu braço e gritam "BIBIAAAAAAAAANA" em uma voz audível até na China. Eu sou distraída o suficiente para estar acostumada com pessoas chamando minha atenção na rua. Alguém puxa minha mochila. Eu me viro curiosa. Quem será que também está perdido pela República a essa hora?

O homem que segura minha mochila definitivamente não é um conhecido. O homem que pede meu celular definitivamente não é um amigo. Eu olho para ele sem entender. É meio dia em Porto Alegre e eu estou no meio na Rua da República, é terça-feira e a rua está cheia. Tem pessoas passando ao meu redor, tem pessoas almoçando ao meu redor, tem os gatos da Sirius logo ali esperando para receber um carinho. A cena, simplesmente, não está correta.

Quando eu me mudei para Porto Alegre eu logo percebi que ser assaltada não era uma questão de "se", era uma questão de "quando". Eu já tinha me preparado psicologicamente para esse evento. Eu sabia que era uma questão de tempo. Mas eu não estava preparada para isso. Eu estava preparada para descer do ônibus um dia de noite e algo de ruim acontecer. Estava preparada para voltar para casa mais tarde e descobrir as ruas vazias demais. Estava preparada para tomar cuidado no longo caminho a pé que faço todos os dias até a Fabico.

Mas eu não estava preparada para a segunda quadra depois do apartamento, ao meio dia de um dia de semana, na rua mais movimentada do mundo.

E minha confusão foi o bastante para eu esquecer todo o meu mantra ensaiado. Toda aquela história de só entregar ao assaltante o que ele pediu e seguir meu caminho em paz. O homem pede meu celular mais uma vez e eu sou só confusão. E, então, coisas mais estranhas acontecem.

Ele ri. Ri e diz te assustei, não foi, guria? Tô só brincando contigo.

E minha confusão se transforma em raiva mais rápido do que deveria. E minhas ações acontecem bem mais rápido do que qualquer pensamento. Porque quando você pensa a respeito, eu tomei a atitude mais estúpida da minha vida. Eu olho para a cara do homem que ainda segura minha mochila e digo mas que brincadeira babaca essa, né cara?

Que grande momento para decidir discutir as babaquices dos malucos da rua. Quando ele começa a me xingar e ameaçar eu começo a gritar para alguém me ajudar. E é então que a coisa mais triste do mundo acontece. As pessoas passam sem ver, sem escutar, sem dar a mínima bola.

São quatro meninas que param para perguntar o que está acontecendo. O homem finalmente vai embora, ainda xingando, ainda ameaçando. As meninas me acompanham até o fim da quadra. Perguntam se estou bem. Entendem que essa cidade virou um antro de malucos sem salvação.

Me despeço das meninas benfeitoras e vou correndo o mais rápido o possível para o trabalho. Não entendo bem o que aconteceu. É madrugada de quinta-feira e ainda não entendo o que aconteceu. Entre loucos e feridos a verdade é que ainda estou aqui, inteira e com o celular, e que teoricamente tudo acabou bem.

Mas quando caminho hoje para aula e depois para o trabalho, me vejo olhando constantemente para trás. Um homem passa pela minha frente enquanto espero a sinaleira da João Pessoa abrir e meu coração dispara - até perceber que ele só está caminhando até seu carro. Deixo meu celular em casa, por via das dúvidas. Venho caminhando pelo outro lado da República.

Eu acho que a gente nunca entende bem o problema da segurança pública até sentir ele no nosso sangue.

Não que a gente não saiba que ser assaltado é horrível. Não que a gente não compreenda e não tenha medo do que pode acontecer. A gente sabe, a gente sempre sabe. Daquele jeito longínquo que a gente sabe que existe fome na África, analfabetos no Brasil e guerra na Síria. A gente sabe.

Até que acontece conosco. E de repente a situação muda. Porque a partir dai a gente não só sabe, a gente sente.

E, eu juro, é um dos piores sentimentos do mundo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quando Nasce o Ódio


Sentada na parada do ônibus, depois da aula de inglês, quase nove da noite e quase nove graus. Entre o frio e a vontade de já estar em casa, é estranho que eu acabe pensando em política. Ou quase isso.

Hoje em dia todo mundo fala de política. Uns anos atrás (nem tanto, cinco?) ninguém falava de política. Tinha gente que reclamava "queria ver brasileiro se importando tanto com política, quanto se importa com futebol". Depois de um sete a um e um talvez-golpe-talvez-impeachment - cá estamos nós, falando incessantemente sobre política e nem lembrando de futebol.

Não acho que isso seja algo ruim, como algumas pessoas parecem achar. O povo se interessar é uma das partes mais importantes da democracia. Se está faltando conteúdo? Talvez. Mas a verdade é que nem Roma, nem o mundo, foram construídos em um dia.

Voltando ao ponto, eu estava na parada e comecei a pensar em algo que ouvi no rádio outro dia. Ouvi que estamos vivendo um momento tão estranho na política brasileira também porque existem dois lados muito fortes - e dois lados que se odeiam, e muito.

Talvez seja estranho pensar em política levando a ódio. Mas talvez não seja tão estranho quando começamos a pensar nesses dois lados em que estamos nos separando. Nesse mundo de "petralhas" e "coxinhas" há mais do que ideologia. E mais do que ódio cego.

Tudo começa em um lugar bem simples (do meu ver, claro): na infância. Eu, por exemplo, nasci pobre. Que coisa estranha de se escrever! Assim, sem mais nem menos, sem grandes voltas ou explicações. Mas é a verdade.

Nasci e ainda sou pobre. Moro e sempre morei na periferia. Vila, se você quiser chamar assim. Favela? Parece meio exagerado, mas minha rua é de chão batido e água potável não tem. Como toda boa pobre, sempre estudei em escola pública. Teve goteira, teve falta de professor, teve falta de material. Também teve professor esforçado, evento da associação de pais para arrecadar dinheiro, movimento para construir um prédio novo para a escola.

Durante minha vida também tive algumas oportunidades que nem todos tiveram. Ganhei uma bolsa de ballet em uma escola do centro, por exemplo, onde tive a chance de conviver com filhos de pessoas que ganhavam mais em um mês, do que o meu pai em um ano.

Na própria Liberato, onde fiz o ensino médio, conheci pessoas de todo jeito. De todo lugar. Muito ricas, muito pobres. Muito espertas e nem tanto assim. Gente, de tudo que é jeito, como gente normalmente é.

No decorrer dos meus quase vinte anos, essas convivências me ensinaram muitas coisas. Em primeiro lugar, me ensinaram o que é inveja. E, principalmente, que o mundo é um lugar injusto.
Meu eu de nove, dez anos, sofreu muito para entender porque algumas pessoas podiam ter tudo que queriam: os livros caros, os cadernos bonitos e com adesivos, o tênis da moda.

O meu eu de quinze, dezesseis anos começou a entender que tem coisas muito piores que a gente perde quando é pobre: as grandes oportunidades todas requerem aquele inglês, que a gente nunca teve a chance de estudar; aquele tempo, que a gente não pode dar porque precisa trabalhar; aquela matéria que a gente nem teve, porque vocês sabem como é o ensino fundamental em uma escola pública?

Eu poderia falar muito tempo aqui de tudo que se perde. Mas nem adiantaria, sabe? É o tipo de coisa que marca muito quem não teve, mas que quem sempre teve - nunca vai entender.

Eu penso muito nisso hoje em dia, enquanto faço aula de inglês. Ganhei uma bolsa ano passado, na Wizard, e foi uma oportunidade tão incrível que até hoje eu acho maravilhoso ter recebido ela. Mas a verdade é que as pessoas de lá me irritam.

Me irritam os jovens de quinze, dezesseis anos que insistem em conversar na aula. Que nunca fazem o tema. Que reclamam de tudo e todos. Eles me irritam porque eles têm essa oportunidade incrível, eles têm todas essas oportunidades incríveis, e eles não dão o mínimo valor.

E eu sei que eles são as mesmas pessoas que estudam nas escolas particulares e que recebem um ensino tão superior. E que para entrar no ensino superior, eles ainda vão ter pai e mãe para pagar um, dois, três anos de unificado. E são os mesmos que vão gritar contra cotas, contra o Prouni, contra todos os programas sociais.

Porque eles se sentem injustiçados, por exemplo, quando vão fazer o vestibular e tem uma partezinha daquela oportunidade voltada a quem nunca teve todas essas oportunidades incríveis. A quem só indo atrás, conseguiu fazer um curso de inglês. A quem estudou em ensino público - com greve, goteira, computador do século passado. A quem nada veio assim, facilmente.

E é aí que nasce o ódio.

O ódio nasce em quem sempre batalhou por tudo, ao ver quem sempre recebeu tudo facilmente - não dar valor a nada. E o ódio nasce dos que sempre tiveram tudo, ao ver uma parte do que eles acreditam ser seu por direito, ser dado a outras pessoas que não eles mesmo.

A nossa crise política, do meu ver, é uma crise no ser humano. Na nossa falta de capacidade de compreender o próximo. De sentir empatia. E talvez, até, na nossa mania de só dar valor ao que conseguimos a duras penas.

Mas eu confesso que é difícil. E é nisso que eu penso, esperando na parada.

É difícil não sentir raiva, as nove horas da noite, aos nove graus, é difícil não sentir raiva dessas pessoas que tem todas as oportunidades do mundo e de mãos beijadas - enquanto a gente precisa correr atrás de tudo e, mesmo assim, às vezes não conseguir nada.

É difícil aceitar de bom grado que o mundo é injusto e que tem gente que defende a perpetuação de toda essa injustiça, se escondendo atrás de uma ideologia política ou outra.

Vocês que não viveram, podem não entender. Mas é, definitivamente, algo que da raiva. Porque vai além de política. Porque é sobre humanidade.

Ou a falta dela.

domingo, 15 de maio de 2016

Um mágico, um enganador e o enganado

Eu não entendo muito de mágicos, então corro o risco de já começar falando besteira, mas eu acredito que a principal necessidade de um mágico de sucesso seja uma platéia que queira se deixar enganar. Uma plateia que já chegue pronta para ver coisas incríveis e inacreditáveis, distraída demais com os fogos de artifício para perceber a verdade por trás de todos os truques.

Enganar alguém, na verdade, depende muito da pessoa a ser enganada. Porque, às vezes, a gente faz tudo para os outros nos enganarem. A gente confia em pessoas que quebraram nossa confiança todas as vezes possíveis. A gente aceita a palavra de quem é acostumado a mentir. A gente se deixa levar pelos futuros do pretérito que as pessoas tão belamente descrevem para nós.

Como poderia ser. O que elas teriam feito. Como elas seriam.

E como é fácil se deixar enganar por discursos assim. Como é fácil se deixar enganar por quem só fala de hipóteses que já não podem, nem nunca poderão, se tornar realidade. E como deve ser fácil enganar os outros desta forma. Fazer essas promessas lindas sobre esses futuros maravilhosos que nunca poderemos conhecer. Quem engana sabe exatamente o que dizer. Porque se pudesse voltar no tempo, ele sempre mudaria tudo. Se ele soubesse do que agora ele sabe, todo o passado teria sido diferente e agora o presente seria perfeito e o futuro melhor ainda. Uma pena, de fato, que as coisas não foram assim.

O problema de quem engana, neste caso, é como podemos facilmente desmascará-los. Tão fácil quanto passar manteiga em pão quente. E, às vezes, sem nem realmente querer. Nós os desmascaramos tentando alcançar os sonhos que eles colocaram em nossas mentes. Tentando trazer de volta o que o passado tornou impossível alcançar. Nós os desmascaramos ao lhes dar a chance de fazer no presente o que eles prometiam que teriam feito no passado.

E é então que o castelo de cartas cai. E as tempestades começam. E nada é tão simples assim. E existem tantos e tantos motivos a serem levados em consideração. E quem engana perde seu discurso e quem quer ser enganado perde seu chão. Porque o truque é revelado.

E um mágico que revela seus truques, perde seu encanto maior. Não existe mais magia em seu mundo. Apenas um grande enganador. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sobra A Vida Ser Uma Versão Mais Estúpida dos Escritos de Douglas Adams

Eu queria tanto ser tantas coisas que eu nunca vou ser. Eu queria ter a habilitada para me metamorfosear em alguém totalmente diferente, só para não precisar ser eu mesma. Porque, no fundo, eu sinto que a vida é que nem uma série do Douglas Adams. Nunca faz muito sentido, mas na mesma medida que o início é ótimo e empolgante - o restante é apenas confuso. E eu ando meio cansada de estar confusa.

Eu sinto que perdi o controle de boa parte da minha vida. E a pessoa que acorda todos os dias de manhã me lembra apenas vagamente a pessoa que eu costumava ser. E eu vejo poucos vestígios da pessoa que eu gostaria de ser. E isso me incomoda de maneiras que me fazem pensar que talvez eu não tenha mudado tanto assim.

Talvez eu seja apenas muito neurótica e um pouco maníaca por controle. E ver a vida simplesmente tomando seus próprios rumos me assusta bem mais do que eu gostaria de admitir. E me ver fazendo escolhas que eu nunca imaginei fazer. E me ver abrindo mão de coisas que eu nunca imaginei ser capaz de desistir. E me ver como eu sou.

Isso assusta.

Assusta perceber que eu nunca me conheci. Perceber que eu ainda não me conheço. Perceber que isso é ainda mais confuso que um livro do Douglas Adams. E sem as tiradinhas engraçadas, para quebrar a completa loucura. E sem uma resposta mágica para a vida, o universo e tudo mais. E, bem, até mesmo sem uma toalha.

A vida é só um nó infinito que parece ser impossível desenrolar. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Aos Verdadeiros Egoístas: Minha Inveja

Um dos momentos mais marcantes da minha infância aconteceu dentro de um ônibus, indo para a casa da minha avó. Eu estava lá, sentada bem feliz, perto da parada do 25 de Julho, quando uma mulher entrou e eu pensei:

Ela também está viva. Ela também tem uma casa. Uma família. Talvez um cachorro. Ela também viveu ontem. E antes de ontem. E antes do antes de antes. Ela viveu até mesmo antes de mim.

Isso arrasou com toda a concepção do mundo que eu tinha até aquele momento. Até então tudo tinha girado em torno do Mundo Mágico de Bibiana. Mas ali, naquele instante, reconhecendo que aquela pessoa totalmente desconhecida também estava viva, que ela também tinha todas essas coisas dentro de si, que ela também tinha seus pensamentos e seu mundo e que era eu nada mais do que uma figurante desapercebida no plano de fundo de sua vida. Naquele momento eu me perdi para sempre de quem eu era ou poderia vir a ser.

Eu tenho uma inveja relutante das pessoas que são capazes de viver suas vidas sem nunca se darem conta do universo que as cerca. Eu tenho uma inveja das maiores do mundo dessas pessoas que andam na rua sem olhar para os lados, como se soubessem exatamente onde estão, o que querem e como vão pegar isso. E não sobra uma vírgula para qualquer outro ser. Elas vão, fazem o que querem e saem andando de volta as suas vidas, sem se preocuparem com os danos colaterais. Como eu tenho inveja dos verdadeiras egoístas!

Porque um verdadeiro egoísta consegue excluir todas as incógnitas de sua equação. Não existe espaço para culpa na mente de um verdadeiro egoísta, pois ele sempre estará preocupado demais com sua vida, com suas possibilidades, com seu bem estar, para sequer lembrar da existência das outras pessoas do universo. E um egoísta não faz nada por maldade. Ele simplesmente responde apenas ao seu próprio bem.

Eu tenho inveja dos verdadeiros egoístas, sim. Mas eu já não tento imitá-los. Eu perdi essa chance ainda na infância, quando sem querer me dei conta do mundo a minha volta. Notei o resto do Universo e perdi para sempre minha chance de verdadeira paz nessa vida. Olhei para os lados em um mundo onde eu deveria apenas olhar para frente. E desde então o que eu sinto não se traduz em letras, não se conta em palavras.

Porque cada uma das vezes que eu fui egoísta. Cada maldade minha. Cada pequeno e grande ato de algo ruim que eu fiz aos outros, me persegue. Meus pecados me perseguem noite e dia. E eu fecho os olhos e sinto que deveria estar sendo punida. E eu abro os olhos e não vejo uma pessoa boa no espelho do banheiro. E isso me perturba. E isso me persegue. E a minha inveja apenas cresce.

Como eu tenho inveja do sono fácil dos verdadeiros egoístas!

domingo, 31 de janeiro de 2016

É Fim de Janeiro

É fim de janeiro. 

Eu pretendia escrever mais, mas no final escrevi apenas aquelas coisas que escrevemos apenas a nós mesmos. Aquelas a quem ninguém mais interessam, os retalhos dos pensamentos que nos perseguem durante os dias. Aquelas coisas cheias de raiva. De amor. De surpresa e aflição. Aquelas coisas esperançosas e difíceis de entender. Impossíveis de entender.

É fim de janeiro.

Eu fiz o vestibular. De alguma forma eu passei no vestibular. E eu me pergunto muito até que ponto foi justo eu passar, e até que ponto eu devo mesmo me questionar, e me pergunto porque o mundo sempre complica tudo. Ou porque eu sempre complico tudo que o mundo me dá. 

É fim de janeiro.

E eu estou cumprindo minhas metas do início do ano, o que é uma surpresa e algo sem precedentes. Minha vida, de uma forma geral, está andando exatamente para onde eu escolhi que ela andasse. Mas eu me perturbo tanto! Me perturbo com a ideia, com a semente da ideia, com aquela dúvida fundamental - o quanto eu realmente escolhi esse destino, e o quanto eu deixei que o escolhessem por mim?

É fim de janeiro.

E o início de mais um ano vai chegando ao fim. E me sobram dúvidas e me faltam respostas. E aqui está quente e lá fora chove. E eu queria saber mais sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre como agir em tantas situações que a vida me coloca. E eu não sei.

Eu simplesmente não sei. E essa ignorância não tem nada de santa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A Eterna Incompreensão Humana - ou como ainda não aprendemos a ler

O que talvez Deus não previu em nenhum de seus seis dias, muito menos durante o sétimo dia do descanso, foi a confusão que só os humanos e sua falta de habilidade na compreensão de textos poderiam causar. Se Ele soubesse, é certo que começaria as aulas de literatura ainda no Paraíso. Muito antes prevenir do que remediar.

Não que eu ainda acredite tanto assim no poder dos livros. Claro que eu gosto deles. Mas meu medo é que nem a Agatha Christie possa salvar alguém. A ignorância até pode ter suas curas, mas a estupidez humana chega a níveis inacreditáveis. E talvez, infelizmente, irreversíveis. E irremediáveis.

É quase como se todos vissem a sua frente folhas em branco. E por mais que eu seja uma entusiasta da criatividade. E por mais que eu acredite na importância da imaginação, há de se dizer que existe um ponto em que começar a ver tempestades inteiras em copos de água se torna no mínimo problemático. E, na ponta radical do iceberg, é ai que a gente passa de amai-vos uns aos outros para vamos odiar todos que não se encaixam na nossa ideia de dignos.

Agora o que faz de mim uma autoridade para dizer o que é certo ou o que é errado na hora de interpretar o mundo, vocês me perguntam. Bem, na real mesmo, nada. Até porque se eu posso ser franca, nessa história de ter imaginação demais eu sou culpada.

E a coisa toda fica mais difícil porque a leitura do mundo é cheia de palavras complicadas. De personagens que mudam de lado. De mudanças de cenários. De protagonistas estranhos, mal compreendidos e mal-humorados.

E não é só isso! Talvez o pior de tudo seja a semelhança com Machado de Assis, porque claro que não poderia ser algo doce como Jane Austen. Tem que ser ambíguo e tu nunca vai ter certeza se a Capitu merece tua dor ou tua raiva.

Mas talvez o auge da falta de compreensão sejam os comentários espalhados por toda internet. Se Deus teve a chance de ler alguns destes, é certo que ele soube:

A sua humanidade foi um fracasso.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Um Dia ou Dois

Talvez um dia a gente se olhe e a gente se diga que valeu a pena. E quem sabe um dia seja verdade. Talvez um dia os sorrisos deixem de ser falsos e a amizade volte a ser rotina e deixe de ser pura força de vontade. Talvez um dia a gente se esqueça de como foi um dia. E talvez um dia a gente esteja finalmente pronto pra voltar a ser, sem se importar com o que realmente estamos sendo. Talvez um dia a gente volte a encontrar a perfeita simetria que só é encontrada quando não está sendo procurada. Talvez um dia. E talvez não.

Talvez um dia eu tropece na rua e bata minha cabeça no chão. E talvez nesse dia, minha memória se perca. Minha personalidade inverta. E tudo que era certo, se torne não. Talvez um dia eu te veja na rua e não lembre de ti. E quem sabe em outro dia eu te veja e finja que não vi. E talvez um dia eu tropeça de surpresa ao te ver. E ao lembrar. Lembrar de tudo que eu nunca fui, nunca serei, e nunca vou querer ser capaz de esquecer. E talvez, em segredo, agora já não tão secreto assim, talvez eu ainda sorrie um pouco, de vez em quando, de quando em vez, quem sabe eu ainda sorrie assim, pensando em você. Mas talvez não.

Talvez um dia, sem querer ou procurar ou quase desistindo de tentar, eu encontre alguém. E outro alguém você também a de encontrar. E talvez um dia, nessas idas e nessas vindas de tudo que foi. De tudo que não foi. De tudo que será. E de tudo que nunca poderia ter sido. Talvez em meio a essa loucura desse universo em movimento, talvez a gente simplesmente se perca de si mesmo. Se deixe pra trás. Talvez a gente passe a ser só lembrança antiga e embaralhada no meio das teias de aranha das memórias quase esquecidas na mente do outro.

E talvez até esse dia a gente tenha aprendido mais sobre a vida. E mais sobre o mundo. E mais sobre tudo. E talvez nesse dia nós finalmente tenhamos nos tornado mais sábios. E menos barulhentos. E mais calmos. E mais felizes. Eu espero que ainda mais felizes.

E quem sabe, então, nesse dia - a gente se olhe e a gente se diga que valeu a pena.

E que então a gente perceba que é verdade. E que a gente sorria em paz e deixe que o futuro que não tivemos também descanse em paz, nesse infinito cemitério de sonhos perdidos.

Talvez um dia.
Talvez dois.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Todas as crianças crescem, menos uma

As vinte horas e quarenta e sete minutos, meus olhos desviam da TV e acabam nos números brilhantes e laranjas da GVT, que mostram as horas incessantemente. Eu me perco, por um minuto ou dois, pensando nisso. Pensando no constante correr das horas, dos segundos se tornando minutos, se tornando horas, criando dias inteiros que correm rapidamente e se transformam em semanas. Em meses. Em anos. 

Parte da minha vida chegou ao fim.

Este é sempre o sentimento que corre nas minhas veias depois de visitar a Liberato. Depois de quatro anos de longas reclamações, agora que finalmente consegui sair de lá, não consigo deixar de sentir que perdi algo no caminho e que este algo nunca mais vai voltar. Eu fui feliz lá, muito mais feliz que já tinha sido na minha vida. E muito infeliz também, em tantos dias que foram difíceis de viver. A Liberato foi minha vida, meu mundo e meu universo e agora eu estou oficialmente a deixando para trás.

É assustador.

Assustador pensar que no final do mês meu estágio chega ao fim e que eu decidi, simplesmente, ir embora. Assustador pensar que em dezembro recebo meu certificado de Técnico de Eletrônica, quando eu nem lembro muito bem como funciona um indutor. Assustador pensar que o Ensino Médio chegou ao fim, que de uma forma ou de outra eu tenho que escolher um curso na faculdade e um emprego e que de uma hora pra outra, talvez tenha chegado o momento em que eu tenho que começar a pensar em mim mesma como uma adulta.

Como se eu ao menos soubesse como isso funciona.

Eu olho para o futuro e tudo que eu sinto é medo de falhar. Medo de acabar sozinha e infeliz, em uma casa com três bilhões de livros e nenhum sorriso. Tenho medo de um futuro medíocre. De nunca ser mais do que a média. De viver uma vida sem momentos inesquecíveis. De nunca ser inesquecível para ninguém. Medo de morrer sem ter vivido. Medo de nunca, realmente, descobrir como é viver e de chegar no fim só pensando em tudo que gostaria de ter feito e nunca fiz. Medo de nunca ter coragem de dizer o que precisa ser dito. Medo de nunca ter coragem de lidar com as consequências. Medo de estragar tudo, mais uma vez, e descobrir que já não existem chances pra tentar de novo. Tenho medo de tudo e do amanhã, que pode vir com sol - mas que provavelmente virá com chuva.

Guardo toda a bagunça embaixo de uma cama imaginária dentro de minha mente.

O relógio da GVT me diz que são oito e cinquenta e dois e Plantão Médico voltou a passar na Warner. Me recosto nas almofadas no sofá e perco os próximos minutos pensando em como o George Clooney é bonito.

Quem sabe o dia em que terei que começar a agir como uma adulta esteja chegando. Quem sabe eu já não seja a pessoa que imagino ser. Quem sabe esteja chegando o dia em que preciso crescer.

Mas por hoje, por esta noite, eu prefiro ainda ser essa menina boba, estranha e meio perdida.

Afinal, todo mundo sabe que todas as crianças crescem, menos uma. Mas ninguém nunca me disse que a infância tinha data de validade. E, até o momento, eu não sinto nenhuma vontade de abandonar a Terra do Nunca.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Primeiro Amor e Outras Bobagens

Eu tinha completado 15 anos, o que então me parecia muito - e que hoje eu sei que até poderia ser muito mesmo. Mas não era. Eu tive sorte em muitos aspectos, mesmo que talvez naquele tempo parecesse puro azar. Eu ainda tenho muita, muita sorte - o tipo de sorte que faz eu me sentir culpada, ao lembrar a noite, quão pouco merecedora eu sou do favoritismo do Universo. Mas eu tento não reclamar muito disso: um dia, eu sei, o Universo a cobrar seu preço, então, até lá, eu tenho a inteção de aproveitar bem o passeio.

De toda forma, quando eu completei 15 anos eu me apaixonei perdida e infinitamente por um garoto da minha escola. Não me lembro porquê. Por mais que depois de tudo eu tenha me perguntado tantas e tantas vezes qual foi o momento decisivo e por mais que eu venha perscrutando minha memória há anos, eu nunca soube dizer. O momento derradeiro em que meu coração foi arrancado de dentro do meu peito e colocado em praça pública, pronto para a decapitação (ou seja lá a forma que se mata um coração em praça pública) se perdeu em algum lugar da minha mente. Simplesmente aconteceu, eu imagino, como deveria acontecer.

Hoje eu me lembro de tudo com bem menos precisão do que eu já lembrei um dia. O que também é bom. Os filtros da memória sempre nos ajudam a apagar aqueles momentos que não precisam ser lembrados. Eu me lembro de me sentir agoniada e histérica e de tantas formas irracional, mas é bom que seja tudo uma memória turva. Quando algo foi difícil de viver, não gosto nem de imaginar como seria ruim não esquecer nem uma partezinha. Mas eu estou me precipitando, e muito, na história.

Porque até o momento eu estava completando quinze anos. E achava os olhos dele bonitos. E o sorriso. E a maneira como quando ele chegava todas as conversas se voltavam para ele, mas mesmo assim, não eram sobre ele. Nunca vi nada de tão atraente assim em pessoas que só sabem falar de si mesmas. Ele falava do Universo e fazia perguntas complicadas sobre física. E eu sorria de volta, tentando parecer mais esperta do que era, querendo ser mais inteligente do que era, tentando parecer madura e, dessa forma, só mostrando bem a criança que eu ainda era.

Claro que eu agi como a idiota que eu ainda sou. Claro que eu, despreocupadamente (ou nem tanto), dei um jeito de aos poucos descobrir sua agenda. E seus gostos e desgostos. Não me olhem torto: o Facebook, o Twitter e o Orkut (que ainda funcionava bem, naquela época) me ajudaram na minha empreitada. Mas claro que existiram momentos de pura loucura também, como quando li todo o blog que ele mantinha há anos, de cabo a rabo.

Eu já senti vergonha de tudo isso, mas hoje eu acho engraçado. Acho engraçado lembrar como tentei e tentei começar uma conversa com ele pelo MSN. Pedindo um livro emprestado. Falando qualquer coisa de Game of Thrones. Eventualmente deu certo. Eventualmente conversamos num finzinho de tarde de uma sexta-feira na escola. E, quase sem querer, a conversa se estendeu pelo MSN a noite. E, de alguma forma, no dia seguinte conversamos novamente.


Eu lembro de não entender. De não fazer ideia nenhuma, nenhuma, nenhuma, do que estava acontecendo. Eu me lembro de pensar "isso é mesmo a vida real?" e era. E aquilo me fez contente de uma forma difícil de conter e difícil de não acabar. Não era só felicidade, era literalmente maluquice.

E, então, pelos próximos meses eu entrei em uma montanha russa de sentimentos que seguia um rítmo bem regular: se a gente conversava era um bom dia, se ele falava com outra pessoa na minha frente e não falava comigo era um funeral, mas se a gente fazia algo de diferente do que eu poderia esperar, então era noite de Natal adiantada.

Eu matei aula pela primeira vez pra almoçar no Subway com ele e perambular pela livraria depois. Eu comecei esse blog por causa dele, na vã e desesperada esperança de que um dia ele o lesse. Eu li livros, artigos de revistas complicadas, assisti filmes e séries, eu fiz tudo e cada uma das coisas na esperança de mostrar que eu era boa o suficiente.

Mas eu não era.

Talvez "boa o suficiente" não seja a melhor expressão pra se usar. Talvez eu fosse só uma menina cheia e sonhos e com pouca realidade, venerando alguém que ela nem conhecia direito. Talvez a ideia de conseguir fazer alguém que era, sem dúvida alguma, mais inteligente e interessante do que eu, ter algum interesse por mim me afetasse e no final nem fosse nada como amor. Ou quem sabe ele simplesmente tivesse esses olhos bonitos eu estivesse apaixonada, mas o sentimento não era recíproco.

Às vezes é simples assim: ele não gostava de mim. E eu gostava demais dele.

E é ai que a verdadeira história começa.

Se gostar dele me fez agir como a maior maluca do Universo, uma stalker viciada em migalhas de atenção, saber que ele não gostava de mim, apesar de todos os meus esforços, mudou tudo.

A ideia pegou meu mundo e o virou de cabeça pro chão e pernas para o ar. 

Eu estava acostumada demais a ganhar. Eu estava cheia de mais de mim mesma. Eu me tinha neste pedestal de ouro no topo do Universo. E ele veio, roubou minha coroa e me jogou do topo direto para o limbo.

Eu eu caí. 
Céus, como eu caí.

O céu fechou. A tempestade desabou. Os anjos da morte vieram anunciar o Fim do Mundo. 

E o Mundo acabou.

Mas, de alguma forma, no dia seguinte eu ainda acordei. E no seguinte ao seguinte também. E o céu ainda estava azul em cima da minha cabeça e a grama ainda estava verde embaixo dos meus pés. E os livros ainda tinham folhas amareladas e a fragrância do paraíso. 

E a vida continuou. Mais lentamente. Com menos presunção. Com mais livros. Comigo diferente do que tinha estado no início. Comigo mais forte e menos arrogante. Nem tão deslumbrada. Nem tão fácil de deslumbrar. Com raízes mais fundas, com ideias mais claras. Com certezas mais exatas. Comigo sabendo que não deixaria mais ninguém me moldar dessa forma.

Ele eu deixei porque foi o primeiro. O primeiro a fazer meu coração bater, literalmente, mais forte só ao vê-lo. Logo eu, que sempre achei que isso era pura invenção de autores extravagantes e pouco criativos. O primeiro a me fazer ver que eu não tanto assim a Rainha do Universo, como às vezes eu fingia ser. O primeiro a me mostrar que nem sempre querer é poder.

Por ele eu mudei como eu não mudaria por mais nada nesse mundo. Porque foi com ele que eu descobri o que era esse tal de amor. E com ele que eu descobrir que sempre é bom amar, mesmo quando o amor não passa de uma ideia dentro da gente.

Uma ideia que, mesmo que às vezes seja dolorosa, a gente gosta de cultivar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Nem sempre é fácil

Mais ou pelos pelas seis da manhã o despertador começa seu árduo trabalho de me fazer acordar.

Nem sempre é fácil.

Se até as seis e meia eu não apresentar claros sinais de consciência, minha mãe ou minha irmã começam a gritar por mim no andar de baixo.

Nem sempre é fácil.

Quase todo dia eu me pergunto que raio de vida é essa. Qual o sentido de ter que se torturar todos os dias pela manhã. Se arrastar lentamente para o trabalho. Perder praticamente todos os sinais da luz solar e do céu azul mais lindo do universo perdida em uma sala com janelas fechadas e aquelas luzes brancas terríveis.

E mesmo sabendo que não é fácil, eu não deixo de me perguntar.

Porque a gente faz isso consigo mesmo. Porque entrar para esse jogo de malucos. Perder a maior parte de nossa vida trabalhando pra outras pessoas, perder a maior parte de nossas vidas apenas atrás de dinheiro que vai pra quem já tem muito dinheiro e que vão continuar ganhando mais e mais dinheiro. 

O diheiro que eu poderia guardar no banco não vale mais do que uma tarde na grama, com sol no rosto e um vento quente em pleno agosto. O dinheiro que eu poderia guardar no bolso, não vale uma conversa alegre, não vale uma caminhada sem destino, não vale o olhar de um bom amigo. O dinheiro que eu poderia ganhar nunca substituiria tudo que eu poderia ter.

Mas eu continuo acordando todos os dias mais ou menos as seis horas, com o toque estridente do despertador. E perdendo meus dias em uma sala com janelas fechadas. E uma luz branca de filme de terror. 

Pelo futuro, eu me digo. Pelo futuro, eu me prometo.

E a minha parte mais descrente não deixa de se perguntar:

Num mundo como o nosso, que futuro será esse?

domingo, 15 de março de 2015

Eu me lembro da Maria Antonieta

Nesses tempos de tantas movimentações, manifestações e de todo mundo sentindo vontade de gritar ao mundo todas suas opiniões (políticas ou nem tanto), eu me vejo  pensando na Maria Antonieta. Me vejo pensando nessa menina que nasceu na Áustria há tanto tempo atrás e que um dia veio a ser rainha da França.

Há muito que se diz sobre Maria Antonieta. 

Para alguns ela era apenas uma menina tola e alienada da realeza, que nunca, realmente, entendeu o que acontecia a sua volta. Para outros, ela não apenas entendia, como também previu e tentou impedir o futuro que viria para a França e para si mesma. De uma forma ou de outra, a verdade é que a maioria de nós lembra-se dela por uma frase que, na verdade, ela provavelmente nunca proferiu. Reza a lenda que ao saber que os pobres protestavam de fome, porque não tinham pão, Maria Antonieta teria dito "Se o povo não tem pão, que coma brioches!". 

Maria Antonieta literalmente perdeu sua cabeça com a Revolução Francesa. Suas últimas palavras? "Perdão, senhor. Eu não fiz de propósito". Ela tinha pisado no pé do carrasco, no seu caminho a guilhotina. 

Maria Antonieta se foi, mas a Revolução Francesa continuou. Apesar de ter começado com ideais muito bonitos como "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". E embora a ideia de acabar com a grande desigualdade da França, onde antes os nobres não faziam nada, mas tinham tudo e os pobres faziam tudo, mas não tinham nada, fosse uma ideia muito bonita. E embora a gente goste de pensar que é ótimo quando o povo vai as ruas e finalmente vê as coisas acontecendo, o poder mudando de mãos, as mudanças finalmente vindo, eu não consigo parar de pensar na Maria Antonieta. E na Revolução Francesa.

Eu penso em como foi fácil para Napoleão chegar ao poder. E penso em que lugar a França ficou depois disso. Eu penso também na Rússia, eu penso na Revolução deles e penso se eles teriam lutado com tanto afinco se soubessem o que lhes esperava. Se vissem a chegada de Stálin se aproximando.

E eu não consigo deixar de pensar pelo que devemos lutar. Quais mudanças realmente devemos pedir. E que preço estamos dispostos a pagar. 

E, se vocês realmente querem saber minha opinião, eu diria que mais do que tudo, devemos ter calma. Apesar da ânsia por mudança. Apesar de que nos doa na alma ver certas coisas ou o lugar onde nós estamos. Precisamos manter a calma. Aprender com o passado. Realmente pensar em que soluções temos em nossas mãos para melhorar o futuro. 

Nunca direi para alguém não lutar pelo que acredita. Mas, por favor, antes de lutarem, pensem bem, pelo que vocês estão lutando. 

E lembrem-se da Maria Antonieta. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Considerações sobre a vida

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a parecer brincadeira. Uma música do Engenheiros ao fundo, uma tarde de sol num dia de inverno. Um edredom aconchegante e alguém para abraçar. Um bom filme. De preferência uma comédia romântica inglesa, que não requeira tanta atenção assim. Talvez uma manhã na beira do mar, num dia quente de janeiro. Talvez uma roda de amigos com um violão. Talvez só mais uma conversa perdida em uma madrugada vazia. 

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a ser fácil esquecer como ela realmente é. Como ela te da com uma mão, enquanto te tira com a outra. Que às vezes você ganha, mas muitas vezes você perde. E que às vezes não é justo. E que quase nunca é justo.  E na maioria das vezes nem tem com quem reclamar. Falta um SAC no universo, um zero oitocentos para a gente ligar e poder reclamar porque "Ei, não foi para essa vida que eu me inscrevi".

Mas eu nem acho essa a pior parte.

Quando as coisas dão errado, bem, elas deram errado e pronto. Aconteceu. Você junta os pedaços, cola com bonder ou chiclete, respira fundo e segue em frente. Não sobram opções, sabe? É isso que tem que ser feito e é isso que você faz. Não é o que eles dizem? Que a melhor parte de estar no fundo do poço é que só resta um caminho: para cima (a não ser que você decida cavar e acabe parando na China, mas esse é outro assunto). 

O grande problema, a grande maldade da vida não está nos momentos em que ela frustra nossos planos. Não e não. As grandes dores de cabeça, as verdadeiras dores de cabeça e peixinhos no estômago, começam quando a vida nos da escolhas. Quando ela coloca trinta portas na nossa frente e nos faz escolher por qual entrar, mesmo que nós praticamente não saibamos o que nos espera do outro lado.

Me lembra aquele programa que costumava passar no SBT, nos tempos em que eu ainda olhava o SBT. Lá estava um carinha em uma cabine a prova de som e ele podia responder "Sim" ou "Não". E lá fora ficava o Sílvio Santos perguntando "Você quer trocar uma escova de dentes por um milhão de reais?". E a pessoa, sem ouvir nada, berrava na cabine um estrondoso "NÃÃÃO!". E a platéia inteira gritava. E o Sílvio Santos perguntava outra vez "Quem sabe você queira então trocar um avião por uma moeda de cinco centavos?" "SIIIIIIIM!". E todo mundo chora e ri em casa. Ah, a tragédia humana.

Às vezes eu sinto como se a vida fosse tão sádica quanto a platéia do Sílvio Santos. Só esperando você errar em todas as escolhas. Mesmo que na verdade você não tenha  a mínima ideia sobre o que está escolhendo. Só esperando para rir do seu desespero ao descobrir qual o resultado das tuas ações. Ou talvez a vida simplesmente goste de se divertir com nossas expressões de pânico nos segundos que nos restam para escolher. 

Porque tudo sempre é uma questão de segundos. Os segundos que te separam de marcar a opção 'A' ou a 'D'. Os segundos que te separam entre um 'Sim' e um 'Não'. Os segundos, os longos segundos, logo antes de você cair no sono - que sempre são os momentos em que verdadeiramente escolhemos se vamos gritar sim ou não às escolhas que a vida nos dá. São sempre segundos que decidem tudo que virá. O que é uma injustiça sem tamanho. Mas é esse o ponto, não é? A vida não tem justiça no seu vocabulário. 

Talvez seja simplesmente o modo como ela é. Ou talvez seja o modo que ela precise ser. Talvez tenhamos que nos jogar em precipícios, às vezes, sem realmente sem saber o que nos espera lá embaixo. Talvez só devemos saber o que se esconde atrás das portas que temos coragem (e vontade) de atravessar. Talvez a vida nos mostre apenas esboços dos caminhos que podemos seguir, para não desistirmos assim que percebemos a quantos percursos nossas escolhas podem nos levar.

Porque talvez ela saiba que algumas decisões são difíceis por si mesmas, mesmo que só imaginemos o que nos espera. E talvez porque ela saiba que mesmo assim, são escolhas que valem a pena ser feitas. Talvez ela simplesmente não queira que a nossa imagem do futuro nos separe de nossos sonhos. 

Ou talvez ela realmente seja apenas uma velha sádica e ranzinza. 

Quem vai saber. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um céu lotado de aviões (que já se foram)

Alguns dias são longos demais e nos enchem de ideias.

Outros dias são curtos demais para todas as ideias que precisamos por na tela. 

Já outros dias simplesmente passam. Como um avião longe no céu, que um dia causou alvoroço. Mas que hoje é apenas mais uma coisa da vida.

Como todas as coisas. Como todas as vidas.

Que passam e passam. E continuam passando. E que infelizmente nunca param.

Mesmo quando não estamos olhando.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Duas horas da manhã do dia errado

Tudo começa as duas da manhã do dia errado. Mas espera, essa não é uma música? É difícil dizer, as duas da manhã, o que são ideias originais e o que são apenas recortes desiguais espalhados pela minha memória bagunçada. Tudo começa as duas da manhã, mas podiam ser três. Ou cinco. Tudo poderia ter começado a meia noite se eu não estivesse tão ocupada fazendo outra coisa. Outra coisa que eu nem me lembro o que é. As duas da manhã do dia errado, acordo e finalmente entendo tudo.

São duas horas da manhã, não três, nem cinco. A meia noite já foi faz tempo. O ar é gelado, mas os cobertores estão quentes. O mundo é escuro, mas a luz branca e fria do quarto permanece ligada. O tipo de descuido que não será esquecido por meu pai, quando a conta finalmente chegar. Engraçado pensar nesse tipo de coisa, as duas da manhã de um dia totalmente errado. Mas como eu já disse, seria errado esperar mais de meu cérebro naturalmente bagunçado - ainda mais quando pego de surpresa.

Abro meus olhos, naquele dia errado, e encaro as luzes vermelhas do relógio que marcam duas horas. A luz do quarto machucando meus olhos que ainda sonham metade do sonho interrompido ao meio. O gato também levanta a cabeça, como se meus pensamentos estivessem tão altos que também interromperam seu sono ininterrupto. Me encara com olhos de quem sabe, sabe que eu finalmente entendi. O  encaro, finalmente percebendo que talvez um gato não tenha como saber.

Mas é difícil dizer, principalmente quando são duas da manhã. E é o dia errado. E eu adormeci de jeans. E as luzes seguem acesas. E o mundo gira sobre uma nova perspectiva. A perspectiva da realidade, tão diferente do manto irreal que gostamos de acreditar todos os dias. E tudo brilha de forma diferente e todas as respostas dadas até ali parecem erradas. E o sentindo da vida me escapa, por entre os dedos, como grãos de areia que o vento e a gravidade levam pra longe. 

E em algum ponto um carro passa, tocando o tipo de som que deveria ter sido banido do mundo assim que inventado, em um volume que seria considerado no mínimo indecente em um planeta melhor que o nosso. E tudo se perde com a mesma facilidade com que se ganha. O mundo se inclina levemente, e as ideias são levadas pelo vento, prontas para interromper o sonho de outro alguém, alguém para quem não serão duas horas. E o dia não será o errado.

E eu? Me deito novamente, escondo a luz com as pálpebras e deixo meus olhos voltarem ao sonho metade interrompido. O gato volta ao seu sono interrupto. As horas no relógio mudam. As luzes  seguem acesas. E o mundo segue girando, pronto para mais um dia errado, como todos os outros que vieram antes. E como todos os outros que virão depois, enquanto as vidas se esvaírem assim. 

Como sonhos na madrugada.