A verdade é que nossa maior companheira é a solidão. Do momento em que nascemos até o dia da nossa morte, vivemos sós. Não importa quantos amigos venhamos a ter, ou namorados, maridos, filhos... São pequenas as áreas de intersecção que formamos com nossos iguais, se comparadas ao infinito espaço entre nossas orelhas. O que de forma alguma diminui a importância dessas pessoas, tanto pelo contrário. É exatamente essa solidão que faz de cada momento compartilhado, um momento especial.
Quanto mais conheço outras pessoas, mais vejo o quanto tentamos negar a verdade. Passamos boa parte do tempo tentando, e algumas vezes conseguindo, acreditar que essa solidão não existe. Prendemos-nos a mentiras bobas e a ilusões criadas por nós mesmos, repetimos como num mantra que existem pessoas que nos conhecem inteiramente, pessoas que conhecem cada detalhe a nosso respeito e cada pequena inclinação do nosso espírito. Ou, então, ficamos esperando, rezando para que ela apareça o quanto antes. Mas essa pessoa, com ou sem cavalo branco, jamais aparecerá.
Não é possível que um ser humano conheça totalmente outro ser humano. Não é possível que alguém saiba realmente quem outra pessoa é, porque a única maneira de saber realmente como uma pessoa se sente é estando na mente dela, é sendo ela. Porque a única maneira de realmente entender porque uma pessoa é exatamente como ela é, é tendo vivido tudo que ela viveu. É sentir todas as emoções que ela sentiu, é ter dado o primeiro passo que ela deu, o primeiro beijo, o primeiro dia de aula. É ter visto o que ela viu, ter ouvido, ter falado, ter experimentado. E isso, caros senhores, cada um só sabe de si.
Ao passo que nossas experiências com outras pessoas são limitadas, carregamos dentro de nós mesmos infinitos particulares. E esses infinitos particulares nos abrem infinitas possibilidades. Nesse estranho lugar entre nossas orelhas podemos ser qualquer um, podemos ser todos eles. Conhecemos quem ou o que quisermos, podemos ignorar a gravidade e todos os outros princípios físicos. Ali podemos nos consagrar como heróis das nossas próprias sagas, podemos ressurgir das cinzas, podemos viajar até Alfa do Centauro, se quisermos. Podemos ir e voltar, e ir outra vez. Podemos ser, não ser, continuar, permanecer. Ali somos o que somos, o que quisermos ser.
Mas, estranhamente, muitos preferem simplesmente ignorar todas essas possibilidades. Assim como fazem aqui, no dito mundo real, passam boa parte de suas vidas construindo muros, cada vez mais altos, que fazem seus infinitos se reduzirem a pequenos porões. Talvez estes sejam mais confortáveis, aconchegantes e seguros. Mas será que tem a mesma graça? Não sei. Só sei que quando nos asseguramos tanto que NADA vai nos acontecer... bem, NADA nos acontece.
Talvez fechar-se assim seja simplesmente um modo de fugir um pouco dessa solidão. Talvez essa percepção de tudo que temos dentro de nós mesmos apenas realce o quão longe estamos das outras pessoas, e elas de nós. Mas, penso eu, criar muros é a abordagem errada. Querendo ou não, esses muros se refletirão no mundo real. E, longe de aproximar quem quer que seja, repelirão as pessoas.
Assim, penso eu, a solução para a fuga dessa solidão, e até de nós mesmos, não se encontra em muros. Penso que toda a disposição e esforço que são usadas para isso poderiam ser revertidos para uma solução um tanto mais adequada. Nada assim, tão complexo ou complicado. A solução, na verdade, é bem simples. Em vez de nos preocuparmos tanto com os muros, poderíamos, facilmente, construir pontes.
Espero, realmente, que tenham entendido.
Abraços e bom fim de semana!
Bibiana.
