Ontem almocei na casa dos meus avós. Entre algumas abobrinhas e alguns goles de refrigerante de guaraná quente eu já nem lembrava mais do pesadelo que tinha me feito acordar na madrugada de quinta-feira com o coração na boca e suor nas mãos. O dia estava bem quente e por isso as janelas estavam todas abertas, de modo que algumas faixas de luz solar conseguiram se esgueirar para dentro do cômodo e essas iluminaram uma série de partículas rodopiantes de poeira. Iluminaram, também, o olhar do meu avô. Meu avô tem olhos azuis, realmente azuis, muito azuis. Mais azuis do que o céu estava ontem. E, por um segundo, antes que ele desviasse o olhar da luz, eles brilharam como eu nunca tinha visto.
Meu avô tem essa coisa no olhar, talvez seja a forma como ele olha, mas parece que ele realmente vê as coisas como elas são. Ele tem olhos de quem sabe que nada do que fazemos, sentimos ou falamos tem toda essa importância que às vezes a gente imagina, olhos de quem entende que o universo se estende muito além dessas nossas vidinhas pacatas, que há muito no mundo pra ser visto e que dificilmente alguém conseguirá realmente ver tudo, o que dirá entender. Ele tem esses olhos de quem sabe que um dia deixará de existir, que um dia todos nós deixaremos. Mas, além de compreender tudo isso, ele também tem essa outra coisa. Não é que ele não se importe com tudo isso, é mais como se estivesse tudo bem pra ele que as coisas sejam assim. Tudo bem que a vida um dia acabe, tudo bem que a gente talvez nunca entenda realmente porque estamos aqui e tudo bem, até mesmo, que nem exista um verdadeiro sentido pra tudo.
Eu queria ser mais como meu avô. Queria estar mais conformada com o nosso destino e com o mundo como ele é. Queria me alegrar com tudo de bom que existe, queria me entorpecer com toda a beleza do mundo. Queria, definitivamente, não ligar para certas coisas tão pequenas e idiotas. Queria aceitar melhor que certas coisas simplesmente fogem do nosso controle. Queria tanto, mas queria mesmo, apenas me prender as coisas boas. Me prender ao olhar azul do meu avô, e como ele ficou tão bonito e brilhante quando o sol iluminou ele ontem. Me prender as partículas de poeira ignoradas pela gravidade, que giram em infinitas piruetas pelos raios de sol. Me prender as bolhas do copo de guaraná quente e como o sabor combina perfeitamente com essa quinta-feira preguiçosa e abafada.
Mas eu não consigo. Talvez eu só não consiga realmente ser feliz, talvez seja isso. Talvez eu seja uma dessas pessoas que acabam sabotando a própria felicidade, que vivem constantemente infelizes por escolha própria. Talvez seja como no meu pesadelo de quinta de madrugada, onde eu sei que não importa o quanto eu corra no final não será o suficiente. Talvez da mesma forma eu saiba que não importa o quanto eu seja feliz, chegará o momento que a infelicidade me encontrará. No meu pesadelo, eu acordei antes de ter que escolher entre correr ou simplesmente aceitar meu final trágico. Algo me diz, entretanto, que na vida real eu tenho escolher. Escolher entre buscar a felicidade, mesmo que um dia ela acabe ou simplesmente me conformar com minha própria infelicidade.
Não sei como vou pensar daqui a cinco, dez, vinte anos. Mas, no momento, eu escolho correr.