sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Dos Privilégios Nossos de Cada Dia


São sete e meia da noite na Dinamarca, mas sei que no Brasil ainda é início de tarde de uma sexta-feira. Imagino as pessoas sentadas na ponta de suas cadeiras no trabalho, já sonhando com o final de semana, com as festas, com os encontros, com os descansos. São sete e meia da noite e porque estou na Dinamarca, já faz uma hora e meia desde minha janta. O que é no mínimo inusitado. Inusitado como muitas coisas por aqui são: os trens sem catracas, as pessoas sempre com bicicletas e aquele ar bem cuidado de um país-de-primeiro-mundo.

Os dinamarqueses têm privilégios que a maioria dos brasileiros não têm: eles andam nas suas ruas coloridas sem preocupação com a segurança. Eles têm direito a um salário, se decidirem estudar. Educação que, por uma acaso, é toda pública e gratuita. Os dinamarqueses, contudo, do alto de seu reino de privilégios, olham com olhos raivosos para o céu e reclamam todos os dias, a plenos pulmões: o clima deste país é o pior do mundo! Não existe ódio maior do que o dos dinamarqueses frente às nuvens de chuva.

Confesso que acho difícil aceitar as reclamações deste lado do mundo. Trocaria de bom grado nossos dias de sol, por dias de igualdade. Então escuto com ouvidos cínicos as reclamações. Também observo com cautela japoneses e sul coreanos denunciando que existe corrupção em seus países. Quase começo a rir quando algum europeu fala mal de seus políticos. Porque sou brasileira e na minha mente já esta configurado que não existe nem deverá existir lugar com falhas maiores que as do Brasil.

O que por si só é uma bobagem bem grande. 

Porém, entre meu dar de ombros frente aos nossos dias de sol ou a naturalidade dos dinamarqueses em relação ao seu sistema de ensino, fica claro que, mais do que tudo, somos cegos aos nossos incríveis privilégios de todos os dias. Somos máquinas de reclamar: do sistema, da política, da economia, da sociedade e, se nada mais der errado, da própria natureza do mundo. Precisamos afirmar e reafirmar que não existe paraíso na Terra. O que talvez fosse um pouco mais construtivo seria por um ou dois segundos olhar para o próprio umbigo e entender que nossos privilégios estão entre nós tanto quanto todas as outras falhas.

Tenho vinte e um anos. Acabei de começar um intercâmbio na Dinamarca. Não tive educação em escolas privadas, meu pai é carteiro e minha mãe faz artesanato. Entre pegar o Trensurb todos os dias para ir pra faculdade e trabalhar para pagar minhas contas, ralei como às vezes alguns de nós precisam ralar para conseguir o que querem. Meu esforço não anula meu privilégio de estar aqui. Quantas pessoas trabalham uma vida inteira e não conseguem usufruir nada?

Sou privilegiada pela educação que tive em casa. Pela educação que tive na Fundação Liberato. Pela educação que estou tendo na UFRGS. Sou privilegiada por ter tido uma família que sempre se importou. Por conseguir ir bem nos testes certos. Por me encaixar no que a sociedade espera. Por ter recebido as chances que a muitos foram negadas.

Ser privilegiado não faz de você um babaca.
Babaca é quem acredita que todos não merecem esses mesmos privilégios.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O Sorriso de Ana


Ana anda pela noite quieta e eu não canso de cismar com seu sorriso. 
Ana anda pela noite e estrelas caem pelos seus olhos vivos. 
Eles parecem tão mortos hoje, Ana, o que andaram fazendo contigo? 
Tem alguém do teu lado, Ana, mas ele parece ser a sombra no teu sorriso. 
Por que, Ana, você não aprende a andar sozinha? 
Amor, Ana, não é uma caminhada noturna com companhia. 
Por que, Ana, você não aprende a amar sozinha? 
Amor, Ana, não é essa noite escura de inverno, fria. 
Ana anda pela noite quieta e eu não consigo parar de cismar com seu sorriso. 
Não é incrível, Ana, como você ainda está sorrindo?