Confesso, meio envergonhada, que há meses Oliver Twist estava na minha estante, criando poeira. Tinha começado a lê-lo ainda em outubro do ano passado, mas acabaram aparecendo outros livros e uma coisa leva a outra... Acabei emprestando Oliver e só agora o recuperei. Tão logo o tive em mãos, devorei-o em apenas uma tarde. E só guardo um remorso: não ter lido antes. Charles Dickens, afinal, não se encontra entre os grandes nomes da literatura inglesa ao acaso. Os ingleses, desconfio, tem algo especial em seu material genético, ou talvez seja alguma coisa do ar de lá. Terra de gênios literários como Shakespeare, Tolkien, Agatha Christie, George Orwell, Aldous Huxley, Jane Austen, Douglas Adams e tenho certeza muitos e muitos outros que me fazem suspirar e acreditar, afinal, que a humanidade ainda tem jeito.
Independente do motivo (e deixando minhas teorias mirabolantes de lado), é preciso dizer e confirmar que Oliver Twist é incrível. A história é intercalada entre momentos trágicos e passagens irreverentes. Você está rindo, vira a página e encontra um motivo para entrar na mais profundas das depressões. E é isso, junto com o talento do escritor de te prender a história, que faz do livro tão bom. É uma narrativa equilibrada, leve, fácil e ao mesmo tempo envolvente. Sem mais demoras, então, uma pequena introdução a história.
Um menino órfão sem ninguém para interceder por ele. Apenas mais uma criança faminta em mais um abrigo da Inglaterra de mais de cento e cinquenta anos atrás. A situação é desoladora. Já na primeira página, contudo, Dickens já deixa clado que Oliver Twist não é feito de um material tão frágil assim.
"Do lugar em que Oliver Twist nasceu e das circunstâncias que ocorreram nessa ocasião.
Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.
Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.
Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas paginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.
Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.
A razão é certa. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.
O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz."
O pequeno órfão, de olhos tremendamente expressivos, que me simpatizou imediatamente e que emprestou seu nome ao título do livro, não deixa a desejar em nenhum momento. A cada infortúnio um peso tomava meu peito e eu temia que enfim seria demais para Oliver. Mas a cada novo obstáculo ele se mostrava com aquele mesmo espírito delicado e cativante das primeiras páginas. Até mesmo o pequeno diálogo com Dick se torna extremamente tocante. E como não seria? Duas crianças ligadas pelo o infortúnio e mesmo assim ainda nobres em sua essência. Outra personagem marcante é Nanci. Aquela a quem o destino mostrou-se ainda mais cruel do que a Oliver. Uma menina que se mostra, apesar de tudo, sensível aos problemas alheios. Uma menina, no entanto, condenada a um amor autodestrutivo.
De muitas outras histórias acredito que Oliver Twist é uma das que apresenta os monstros mais terríveis, talvez por serem mais reais: a fome, a solidão, a indiferença e o destino daqueles a quem não resta mais ninguém.
Como vocês podem ter notado não coloco muito sobre o enredo do livros nessas minhas supostas resenhas, para o Desafio Literário. O que fazer? Não acredito em sinopses, mesmo as mais inocentes podem acabar com a surpresa deliciosa que é encontrar cada pequena surpresa a cada página virada. Espero, contudo, que apenas essas pinceladas breves que faço sejam o suficiente para despertarem em vocês o interesse por qualquer livro que seja. E desse, que falo hoje em especial, devo recomendar com especial entusiasmo.
Leiam, nem que seja para me contradizerem. Desliguem o computador, leiam um livro. Ou leiam um e-book e mostrem que o subtítulo é totalmente ultrapassado. Enfim, boa semana para vocês. E me desejem sorte, porque alegria de pobre (e de estudante!) dura pouco e as férias já estão acabando. Abraço!



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