domingo, 19 de fevereiro de 2012

Oliver Twist

Confesso, meio envergonhada, que há meses Oliver Twist estava na minha estante, criando poeira. Tinha começado a lê-lo ainda em outubro do ano passado, mas acabaram aparecendo outros livros e uma coisa leva a outra... Acabei emprestando Oliver e só agora o recuperei. Tão logo o tive em mãos, devorei-o em apenas uma tarde. E só guardo um remorso: não ter lido antes. Charles Dickens, afinal, não se encontra entre os grandes nomes da literatura inglesa ao acaso. Os ingleses, desconfio, tem algo especial em seu material genético, ou talvez seja alguma coisa do ar de lá. Terra de gênios literários como Shakespeare, Tolkien, Agatha Christie, George Orwell, Aldous Huxley, Jane Austen, Douglas Adams e tenho certeza muitos e muitos outros que me fazem suspirar e acreditar, afinal, que a humanidade ainda tem jeito.
Independente do motivo (e deixando minhas teorias mirabolantes de lado), é preciso dizer e confirmar que Oliver Twist é incrível. A história é intercalada entre momentos trágicos e passagens irreverentes. Você está rindo, vira a página e encontra um motivo para entrar na mais profundas das depressões. E é isso, junto com o talento do escritor de te prender a história, que faz do livro tão bom. É uma narrativa equilibrada, leve, fácil e ao mesmo tempo envolvente. Sem mais demoras, então, uma pequena introdução a história.

Um menino órfão sem ninguém para interceder por ele. Apenas mais uma criança faminta em mais um abrigo da Inglaterra de mais de cento e cinquenta anos atrás. A situação é desoladora. Já na primeira página, contudo, Dickens já deixa clado que Oliver Twist não é feito de um material tão frágil assim.
"Do lugar em que Oliver Twist nasceu e das circunstâncias que ocorreram nessa ocasião.
Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.
Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.
Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas paginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.
Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.
A razão é certa. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro. 
O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz."
 O pequeno órfão, de olhos tremendamente expressivos, que me simpatizou imediatamente e que emprestou seu nome ao título do livro, não deixa a desejar em nenhum momento. A cada infortúnio um peso tomava meu peito e eu temia que enfim seria demais para Oliver. Mas a cada novo obstáculo ele se mostrava com aquele mesmo espírito delicado e cativante das primeiras páginas. Até mesmo o pequeno diálogo com Dick se torna extremamente tocante. E como não seria? Duas crianças ligadas pelo o infortúnio e mesmo assim ainda nobres em sua essência. Outra personagem marcante é Nanci. Aquela a quem o destino mostrou-se ainda mais cruel do que a Oliver. Uma menina que se mostra, apesar de tudo, sensível aos problemas alheios. Uma menina, no entanto, condenada a um amor autodestrutivo. 
De muitas outras histórias acredito que Oliver Twist é uma das que apresenta os monstros mais terríveis, talvez por serem mais reais: a fome, a solidão, a indiferença e o destino daqueles a quem não resta mais ninguém. 
Como vocês podem ter notado não coloco muito sobre o enredo do livros nessas minhas supostas resenhas, para o Desafio Literário. O que fazer? Não acredito em sinopses, mesmo as mais inocentes podem acabar com a surpresa deliciosa que é encontrar cada pequena surpresa a cada página virada. Espero, contudo, que apenas essas pinceladas breves que faço sejam o suficiente para despertarem em vocês o interesse por qualquer livro que seja. E desse, que falo hoje em especial, devo recomendar com especial entusiasmo.
Leiam, nem que seja para me contradizerem. Desliguem o computador, leiam um livro. Ou leiam um e-book e mostrem que o subtítulo é totalmente ultrapassado. Enfim, boa semana para vocês. E me desejem sorte, porque alegria de pobre (e de estudante!) dura pouco e as férias já estão acabando. Abraço!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

(interjeição) Dramática

Ah, paradoxos da existência. Oh, vida cruel. Ah, interjeições dramáticas.

Nesses dias do mais puro ócio minha mente resolveu se prender a esses animais indomesticáveis e causas de dores de cabeça realmente trágicas conhecidos como paradoxos. Talvez o uso do plural seja dispensável, mas deixemo-nos ser levados pelo exagero e que cada um tire suas conclusões após a leitura de acordo com seu próprio bom senso.

Mas, se neste instante, o bom senso esteja lhes dizendo que este texto é totalmente dispensável, o exilem de sua mente e deixem a reconciliação para mais tarde. Afinal, o que senão a perspectiva de que outra pessoa venha a ler, faz alguém queimar suas células cinzentas construindo uma série de frases que, espera-se, sejam coerentes e no mínimo digam algo?

Vamos deixar de lado esses discursos repletos de falsa modéstia e considerações do gênero “escrevo apenas pra mim”. Se viesse a ser esse o caso eu não escreveria num blog ou o deixaria aberto ao público. Não que não exista prazer em escrever, mas, ao publicá-lo, o mínimo que se espera é que alguém venha a ler.

Publicar um texto e dizer depois que não é sua intenção que alguém leia é como um comerciante que abre uma loja e não espera vender seus produtos. É irracional e, convenhamos, é estúpido. Sendo assim, ao publicar um texto aqui espero realmente que alguém venha a ler, e quando isso realmente acontece vocês nem imaginam como me deixa feliz.

O que estou querendo dizer é que melhor do que escrever um texto e gostar do resultado final é descobrir que outras pessoas concordam. O que eu realmente estou querendo dizer é obrigado, a todos vocês que vem aqui. (Como complicar as coisas, aulas comigo, entrem em contato pela zona de comentários cujo link se encontra ao fim desse post).

Dita minha cota de pieguices (essa palavra sempre me lembra pinguim, que me lembra marcha dos pinguins, que me lembra que o mundo é cruel, que me lembra que minha vida é cruel, que me lembra a edição linda de Os Miseráveis que é praticamente um roubo, que me lembra Os Miseráveis, que me lembra que o mundo é cruel, que me prende num círculo viciado - tadinho! - que me prende até eu ficar com fome e esquecer o que estava pensando... que estranho, não?) está na hora de mergulhar de vez na excentricidade - ou seria "esquizofrenicidade"? - e apresentar para vocês o último paradoxo que eu encontrei.

Existem muitas histórias sobre pessoas que ao tentarem compreender algum paradoxo comprometeram sua sanidade mental, e tantas outras que a simples menção da palavra com "p" já se sentem intimidadas (e você achando que era complexo...). Mas não entrem em pânico, o paradoxo do qual quero falar é de um dos ramos mais inofensivos da família, nada comparável ao realmente maldoso: "A seguinte afirmação é falsa. A afirmação anterior é verdadeira". O paradoxo com quem me deparei é talvez assustador de outra forma, talvez um pouco mais triste.

Quantas vezes em nossas vidas não encontramos pessoas que julgamos não apenas fabulosas e incríveis, mas também que consideramos infinitamente superiores a nós. O último ponto é extremamente mais comum se você também compartilha um complexo de inferioridade só comparável ao de Franz Kafka.

Seja como for, me parece quase impossível que alguém passe a vida toda sem nunca ter encontrado alguém que o supere em alguma coisa. E aqui eu paro de generalizar tanto e falo mais sobre eu mesma, que sempre que me vejo nessa situação vejo apenas duas saídas: a primeira é me aprimorar o suficiente para estar no mesmo nível que a pessoa, a segunda é o homicídio.

Sim, talvez existisse uma terceira saída, talvez até uma quarta. Se resignar com a própria ignorância/incapacidade; ignorar a pessoa; amnésia; suicídio. Mas essas são atitudes muito drásticas, até pra mim. E estou falando de casos em que você realmente se importa com a pessoa dita superior e realmente quer que a pessoa tenha uma boa opinião sobre você mesmo. A parte triste da história (não, não é quando acaba em homicídio) é perceber que às vezes você se esforça tanto e luta tanto para melhorar, para se fazer merecedor da admiração do(s) outro(s), que quando enfim consegue já não importa.

É como se ao se tornar a pessoa certa para o outro, ele já não é o certo para você.

Não sei se isso é realmente um paradoxo, mas realmente aumenta minha crença de que o mundo é cruel. Acho que é o momento para mais interjeições dramáticas, suspiros desolados, e até mesmo para um ponto final.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”

William Shakespeare, por ser Shakespeare, já é alguma coisa. Confesso que  quando me vi de frente a um livro dele tão conhecido e prestigiado como Hamlet já comecei a suar frio. Foram horas na folha de rosto criando coragem para começar a ler, afinal, não é um livro qualquer! É uma obra de mais de quatrocentos anos e que durante todo esse tempo é tida como uma grande obra. Em um certo momento quase me senti indigna de ler esse livro, quero dizer, não seria necessário anos a fio antes de se ter um intelecto capaz de compreender Shakespeare?
E então comecei a ler e entendi porque afinal Shakespeare é Shakespeare. Não foi com uma trama complicada e complexa que o Bardo de Avon se imortalizou. A complexidade é deixada toda aos personagens. Eles transitariam pelo mundo real sem problema algum, ou melhor, com todos os problemas com que o resto da humanidade também convive.  No fim Hamlet não deixa de ser um retrato do ser humano, com suas dúvidas, tristezas, angústias e até mesmo loucuras, como nós mesmos somos. 
Hamlet acredita que seu tio e atual rei, Claudio, assassinou seu pai e antigo rei para obter o trono. Claudio, irmão do antigo rei, se casou com a mãe de Hamlet antes mesmo que se completassem dois meses da morte do rei Hamlet. Contudo quem denunciou o atual rei da Dinamarca a Hamlet foi um suposto fantasma do antigo rei. Seria realmente uma aparição ou apenas um delírio da mente perturbada de Hamlet? Esse é um ponto importante da trama, Hamlet está ou não louco? Seja como for, se é verdade o que o fantasma denunciou a ele esse crime deve ser vingado. Será Hamlet capaz disso? 
Capaz ou não, são dele os créditos de algumas das passagens mais marcantes (e conhecidas) do livro. Sua língua afiada não falha em ambiguidades e até mesmo certo veneno ao tratar aqueles que julga culpado. Seus diálogos com a mãe são sempre cheios de controvérsias, afinal, ele a ama e ao mesmo tempo a considera culpada. Mas será ela inocente, ou culpada? Ele está louco, ou finge? O pai foi assassinado, ou não? Afinal, ser ou não ser?
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre

Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação. "

Essa passagem, por si, já valeria o livro, mas no fim se perde em meio a esse oceano de reflexões, monólogos e diálogos que  nos é oferecido por meio de Hamlet. Um livro para ser lido e, mais do que qualquer outro, para se pensar sobre o que se leu. Um livro para ler, reler e ler mais uma vez para ter certeza do que se está sendo dito. Para absorver cada palavra, cada reflexão. 
O livro em si me deixou meio perturbada. A tragédia, a traição em si, a loucura na qual o personagem se encontra (acredito sim que ele estava louco, em parte), a maneira com que Ofélia acaba é tão... horripilante. Me pergunto como Shakespeare conseguiu entender o ser humano até esse ponto. Mas afinal, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia... 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dose dupla Jane Austen e outras considerações sobre janeiro

Talvez os mais observadores de vocês tenham notado que eu não fiz um post “de verdade” por aqui há tempos. Janeiro passou em branco. Os ainda mais observadores (comparáveis ao mestre Artemis Fowl) podem ter visto que o Asteroide foi redecorado. Bem de guriazinha agora, podem dizer, mas aquele azul me dava saudade do inverno. Sim, a menina que esperou ansiosamente os dias de sol brilhante não aguenta mais viver nessa panela de pressão. Se bem que, nesses dias de férias, a vida parece estar em banho-maria. Mais coisas vão mudar, só esperem. MUHAHAHAHA. 
Sem pânico, o calor ainda não afetou minha sanidade mental. Eu acho. Enfim. Foi o primeiro, só faltam onze! Janeiro. Oh, janeiro. 
O ano começou bem. Muito bem, na verdade. Fiz questão de passar ele todo, todinho, trancafiada nesse sofá (no qual redigo esse texto, por coincidência).  A posição é estratégica. Uma distância segura da cozinha, agradavelmente próxima ao ventilador e com uma janela pra quando eu sentir falta do mundo lá fora. Uma espiadinha de vez em quando, vocês sabem, pra ver se a terceira guerra mundial não acabou explodindo por acaso. Só na última semana do mês que eu fiquei uma semana fora para me desintoxicar dessa internet (o fato de eu estar aqui mostra como foi totalmente eficiente). Cheguei a escrever num bloco, enquanto estava por lá (lembrem que eu estava em crise de abstinência antes de julgarem): 

“Passam-se as horas, os dias, as semanas. E de repente janeiro já está acabando e eu não fiz nada de realmente relevante. No momento estou longe de casa e aqui os dias parecem se estender infinitamente, são todos iguais, mas de maneiras diferentes... Comendo melancia, sentada na escada, andando de pés descalços. Sinto que a roda do tempo corre ao contrário por aqui. É um lugar perdido do resto do mundo, é um hiato...”.

Segue-se um verdadeiro devaneio sobre a previsão de chuva para o dia seguinte e as dificuldades de se limpar as paredes de uma casa pelo lado de fora. Uma parte realmente maçante sobre a técnica mais adequada para se limpar forros, e os problemas de se ter uma família hipocondríaca. Mas essa parte que eu citei acima, existe algo nela que me lembra Sylvia Plath, um poema dela que é mais ou menos assim:

“Estrelas se abrem entre lírios.
 Essas sereias sem expressão não deixam você cega? 
Esse é o silêncio das almas atormentadas”

(Isso é o que eu me lembro de memória, possivelmente é escrito diferente. Mas essa é a essência).
Esses versos me veem a mente, o significado deles sempre em metamorfose. Depende de mim. Ao menos é o que parece, o significado depende de mim. Coisa mais estranha que as linhas de uma poetisa suicida venham a minha mente assim. Mas eu gosto da Sylvia, ela me toca. Há algo nela que parece escapar ao resto do mundo. 
Pois então, entre desafios literários, desafios com a balança e desafios contra os desequilíbrios mentais janeiro passou. Mas não foi só isso. Ao longo do ano passado eu fui juntando uma pilha de livros para ler quando eu tivesse tempo, o problema é que o tal do tempo deu uma de espertinho, passou a perna em mim e não apareceu. Agora tá ele aqui, dando sopa. O jeito é aproveitar e colocar a leitura em dia. 

Como os últimos devem ser os primeiros, comecei lendo os que eu ganhei de natal. Uma sessão dupla de Jane Austen: “Mansfield Park” e “A Abadia de Northanger”. 



Masfield foi a decepção do século, ao que parece até mesmo Austen teve seus dias ruins. Fanny e Edmund, os protagonistas, não convencem. Apáticos à história. Sombras na trama. E só poderiam acabar juntos. A salvação é o dito vilão, Henry Crawford, que ao menos mostra ter um pouco de sangue quente nas veias. Mau caráter, talvez, mas me pareceu apenas ser muito influenciável. Atirado, impaciente e às vezes inconveniente. Mas ao menos mostra que se importa, corre atrás, dá uma atenção a Fanny que ninguém mais teria dado. Enquanto o senhor dito bonzinho a troca por “uma qualquer” que mal conhece. Dizem que o livro trás personagens mais realísticos, mas duvido muito. Fanny Price tem um caráter reto demais, e isso só é possível na ficção. Seres humanos no mundo real são oblíquos.  Mansfield Park pode até retratar melhor a realidade do que os outros livros de Austen, mas eu não quero realidade. Se a realidade é entediante que ao menos o livro seja empolgante.


        

Já sem aquela animação comecei a ler a Abadia de Northanger. Contudo o desânimo foi precipitado, desde a primeira página aquele mostra que é um livro diferente. O primeiro de Jane Austen, mesmo que tenha sido publicado postumamente, mostra uma principiante com atitude e uma língua afiada. Uma narradora que toma conta do livro mais de uma vez, uma crítica a romances góticos e uma crítica maior ainda a quem critica a leitura de romances. Henry Tilney rouba a cena com seu sarcasmo pungente que contrasta com sua simpatia. Ele me encantou assim que apareceu. 

“O Sr. Tilney foi educado o suficiente para parecer interessado no que a Sra. Allen dizia. E ela continuou a falar sobre musselina até que as danças recomeçaram. Enquanto ouvia a conversa, Catherine passou a temer que o Sr. Tiley se divertisse um pouco demais com as tolices dos outros.
-No que a senhorita está pensando, assim tão absorta? – perguntou ele enquanto retornava ao salão. –Não em seu parceiro, espero, pois pelo movimento que fez com a cabeça eu diria que suas meditações não são positivas.
Catherine enrubesceu e disse:
-Não pensava em nada.
-Uma resposta astuta e profunda, sem dúvida. Mas prefiro que diga logo que não quer me contar.
-Muito bem, não quero.
-Muito obrigado. Agora nós logo seremos amigos, pois eu estou autorizado a atormentá-la com esse assunto sempre que nos encontrarmos, e nada faz avançar tanto a amizade.”.

A história em si não é grande coisa, uma vez que tudo que acontece é previsível. O que faz o livro ser tão bom é a maneira que é escrito. Principalmente quando você se dá conta que foi escrito a mais de duzentos anos e mesmo assim ter partes que se encaixam tão bem aos dias de hoje. Ao que parece o ser humano não evoluiu tanto assim. Um trecho me chamou muita atenção:

"Catherine ficou muito envergonhada de sua ignorância, mas se enganava ao sentir-se assim. Quando se quer conquistar alguém, deve-se sempre ser ignorante. Ter uma mente bem informada demais é não possuir habilidade em administrar a vaidade dos outros, algo que uma pessoa sensata deve sempre evitar. Uma mulher, em especial, se por acaso tiver o infortúnio de saber qualquer coisa, deve escondê-lo o melhor que puder. As vantagens da tolice natural em uma moça bonita já foram descritas pela excelente de uma outra autora-irmã - ao tratamento dela ao assunto, eu apenas acrescentarei, para fazer justiça aos homens, que, embora para a maior e mais leviana parte desse sexo, a imbecilidade nas mulheres aumente muito seu charme, existem alguns deles que são mais razoáveis e desejam que elas sejam apenas ignorantes, não estúpidas." 

Uma palavra: genial.  

Pra quem não conhece Jane Austen e talvez se interessou abaixo está  uma reportagem que saiu num jornal lá de Recife, no meio do ano passado. Existe também o Jane Austen Brasil, um site com bastante coisa legal a respeito da autora e suas obras.



E por enquanto é isso ai pessoal. Vamos desligar o computador e ler um livro, depois de escrever tudo isso eu fiquei morrendo de vontade de ler alguma coisa da Tia Jane. E vocês, o que acham dela? Conhecem? Odeiam? Nunca tinham ouvido falar? Se quiserem dar alguma sugestão de leitura também aceito, depois eu coloco aqui o que achei.
Bem, boa semana e boa leitura para vocês. Abraço!