Quando eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, minha mãe se foi. Não o tipo "mamãe-foi-para-uma-viagem-especial" que os adultos falam quando alguém morre. Não o tipo "mamãe foi pro céu". Nada disso, minha mãe fez as suas malas, pegou seus discos, seus livros e se foi. Por algum bom motivo, tenho certeza, apesar de nunca ter me ocorrido nenhum motivo assim tão bom.
Antes de partir, mamãe costumava dizer que quando eu nascera viera junto comigo um anjo da guarda. Tipo o brinquedo que vem com o McLanche Feliz. Não que eu imagine que ela tenha pensando por algum momento em mim como um McLanche Feliz. Tivesse sido o caso, acredito que ela não teria partido ou, ao menos, teria deixado alguns dos seus livros para trás.
Nunca dei muita bola para o tal anjo da guarda. Minha mãe não era do tipo confiável. Ela era do tipo que dizia que "Tudo vai ficar bem" e não ficava. Do tipo que dizia que "Essa é a última vez que deixarei ele fazer isso" e não era. Do tipo que dizia "Eu volto logo" e que nunca mais voltava. Mesmo assim, nunca esqueci suas palavras sobre o tal anjo.
Rafael, ela o chamava. Ele está sempre ao seu lado, ela dizia. Ele te protege, ela afirmava. Ele não deixará que nada de ruim te atinja, ela prometia. E mesmo que você não o veja, ela segredava, ele está sempre olhando por ti. E quando você se sentir sozinha, ela aconselhava, feche os olhos e o sinta lá. Porque ele estará lá. Não importa onde você esteja. Não importa o que tenham feito pra ti. Não importa o quão ruim o mundo esteja. Feche os olhos e sinta. É o Rafael, cuidando de ti.
Nunca perguntei à minha mãe porque ela não podia ser meu anjo. Minha mãe era o tipo complicado de pessoa de quem você não espera constância. Minha mãe não era do tipo que te abraça quando você chora. Minha mãe era do tipo que manda você levantar o queixo e seguir em frente. Ela era tão errada, mas tão errada. Nada foi tão difícil como vê-la partir. Com os discos. E os livros. E o meu amor. Por ela. Pra ela.
Mas me deixou o Rafael. Foi o que ela disse, naquela dia há tanto perdido nas marés do tempo. Eu vou, ela disse, mas ele está contigo e sempre estará.
Eu não a culpei, nem a culpo. Existem coisas que são complicadas mesmo e eu não espero entendê-las. Assim como jamais esperei entender minha mãe. Aquela criatura infeliz, mas orgulhosa. Estranha, mas adorável. Inconstante e fascinante. No fundo do meu coração, tão errado quanto o dela, eu sei que ela me amava. Daquele seu jeito complicado, mas amava.
Se não amasse, não teria criado o Rafael. Por mais que às vezes eu me pergunte se ela o criou pelo meu bem ou pelo bem dela.