sexta-feira, 19 de julho de 2013

Rafael

Quando eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, minha mãe se foi. Não o tipo "mamãe-foi-para-uma-viagem-especial" que os adultos falam quando alguém morre. Não o tipo "mamãe foi pro céu". Nada disso, minha mãe fez as suas malas, pegou seus discos, seus livros e se foi. Por algum bom motivo, tenho certeza, apesar de nunca ter me ocorrido nenhum motivo assim tão bom. 

Antes de partir, mamãe costumava dizer que quando eu nascera viera junto comigo um anjo da guarda. Tipo o brinquedo que vem com o McLanche Feliz. Não que eu imagine que ela tenha pensando por algum momento em mim como um McLanche Feliz. Tivesse sido o caso, acredito que ela não teria partido ou, ao menos, teria deixado alguns dos seus livros para trás. 

Nunca dei muita bola para o tal anjo da guarda. Minha mãe não era do tipo confiável. Ela era do tipo que dizia que "Tudo vai ficar bem" e não ficava. Do tipo que dizia que "Essa é a última vez que deixarei ele fazer isso" e não era. Do tipo que dizia "Eu volto logo" e que nunca mais voltava. Mesmo assim, nunca esqueci suas palavras sobre o tal anjo. 

Rafael, ela o chamava. Ele está sempre ao seu lado, ela dizia. Ele te protege, ela afirmava. Ele não deixará que nada de ruim te atinja, ela prometia. E mesmo que você não o veja, ela segredava, ele está sempre olhando por ti. E quando você se sentir sozinha, ela aconselhava, feche os olhos e o sinta lá. Porque ele estará lá. Não importa onde você esteja. Não importa o que tenham feito pra ti. Não importa o quão ruim o mundo esteja. Feche os olhos e sinta. É o Rafael, cuidando de ti. 

Nunca perguntei à minha mãe porque ela não podia ser meu anjo. Minha mãe era o tipo complicado de pessoa de quem você não espera constância. Minha mãe não era do tipo que te abraça quando você chora. Minha mãe era do tipo que manda você levantar o queixo e seguir em frente. Ela era tão errada, mas tão errada. Nada foi tão difícil como vê-la partir. Com os discos. E os livros. E o meu amor. Por ela. Pra ela. 

Mas me deixou o Rafael. Foi o que ela disse, naquela dia há tanto perdido nas marés do tempo. Eu vou, ela disse, mas ele está contigo e sempre estará. 

Eu não a culpei, nem a culpo. Existem coisas que são complicadas mesmo e eu não espero entendê-las. Assim como jamais esperei entender minha mãe. Aquela criatura infeliz, mas orgulhosa. Estranha, mas adorável. Inconstante e fascinante. No fundo do meu coração, tão errado quanto o dela, eu sei que ela me amava. Daquele seu jeito complicado, mas amava. 

Se não amasse, não teria criado o Rafael. Por mais que às vezes eu me pergunte se ela o criou pelo meu bem ou pelo bem dela.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lucas e a Chuva

Era um menino como todos os outros. Brincava, ria, chorava, brigava. Nunca necessariamente nessa ordem. Era um menino como todos os outros, exceto pela parte de que não era. Gostava de passar horas olhando para o céu, perscrutando o teto azul do mundo, sempre em busca de uma nuvem vestida de cinza que estivesse pronta para lhe trazer a chuva.

A chuva e Lucas, Lucas e a chuva.

Tudo começou muitos anos antes dele: era uma quinta-feira qualquer em meio a uma semana esquecida. Uma quinta-feira, não uma esperada sexta, nem uma odiada segunda. Uma quinta, apenas. Sem feriado, sem menção especial. Uma quinta-feira de chuva. 

Uma menina corria pela calçada, fugindo das gotas ao seu redor. Um menino saia da livraria, pensando em como fazer para não molhar os livros de seu pai. Um instante. É só o que foi necessário, um momento de distração. Um pequeno acidente numa esquina escorregadia da vida: um piscar de olhos, uma batida de coração, um sorriso tímido, uma nova paixão. Dizem que não existem inocentes no amor, apenas vítimas. Seria certo, então, dizer que aquele havia sido um acidente fatal.

Alguns anos depois, finalmente chegamos ao Lucas. Fazia sol lá fora, mas os olhos de seus pais eram manchados pela chuva mais bonita que já se viu. Riam-se e sorriam-se, a felicidade que os trasbordava era maior que o próprio universo. Mas não por muito tempo.

A chuva que um dia caiu para unir os pais de Lucas, foi a mesma que veio ao mundo para separá-los. Ruas molhadas, cidade escorregadia. Mais um acidente e dessa vez mais fatal ainda. O pai de Lucas enfrentou a maior tempestade de sua vida, a mãe de Lucas não enfrentou mais nada. 

E o tempo passou e chegou o momento em que o pai de Lucas o explicou que sua mãe apenas no céu existia. E, a partir de então, o coração de Lucas com o seu olhar viajou. E em cada arco-íris encontrou o sorriso dela. E em cada noite de vento forte, ouviu sua voz a lhe cantar. E a cada manhã de inverno se encantou com seu tom de azul mais azul que qualquer outra coisa poderia ser.

Mas nada disso se comparava à chuva. Deitado no jardim ele esperava pelas nuvens cinzentas, pelo cheiro de liberdade, pela atmosfera ansiosa do mundo antes do primeiro pingo cair. E quando ela vinha, como uma fina garoa ou como tempestade de verão, Lucas abria os braços e a deixava alcança-lo. Finalmente estava em paz consigo mesmo. 

Não há nada no mundo como carinho de mãe. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Don Sem Eme

A primeira vez em que vi Don ele estava flutuando a alguns metros do chão, deixando as borboletas estupefatas. Ao menos foi o que ele me disse delas, enquanto eu mesmo ficava mais estupefato que as próprias borboletas ao seu redor. Don não deu muito bola, nem a mim, nem às borboletas. 

Contou de seu nome. Don, apenas Don. Com N e não M, porque perdera uma perninha no caminho. Don, com N, porque não era que nem Dom João. Muito menos Dom Casmurro. Talvez um pouco Dom Quixote, mas sem a perninha da loucura. Era o que ele me dizia, mas sempre me perguntei se não era a perninha da razão que o faltava.

Mas não perguntei naquele momento porque existiam perguntas mais urgentes a serem feitas. Tais como a óbvia-mas-necessária, como você pode estar voando? Don deu seu risinho mais exato, pois me dizia exatamente em letras vermelhas garrafais e brilhantes "Ah, eu pensei que você jamais perguntaria". E, enquanto mandava um beijo para um tal de Douglas Adams, me explicou que a pergunta não tinha nada de complicado.

Você só tem precisa se jogar no chão, ele disse risonho, e errar. 

Don sempre soube o jeito certo de errar as coisas. Errava sempre as Leis da Física e por milagre jamais se perdeu em meio a um paradoxo qualquer. Sempre temi que a Polícia da Razão o levasse e que o prendesse no Presídio da Impossibilidade. Porém o menino era impossível e soube escapar de todas as racionalidades. 

Mas então veio a escola.

O problema era que Don acreditava na liberdade dos acentos, não via sentido em domesticar vírgulas. E se a mãe do Joãozinho só tinha uma laranja para dividir entre três filhos, a resposta era a de que eles ficariam famintos. Um mais um é igual a quanto? Depende. Se juntar duas maçãs, você acaba com duas. Se juntar duas ideias, você acaba com três. Se juntar dois amigos, você acaba sobrando. 

A professora suspirava, mas não desistia. Talvez um pouco de biologia? Qual a cor dos olhos de sua família?

Don sorria ao responder, era uma das suas respostas preferidas. Mamãe tem olhos cor de brabeza você-vá-arrumar-seu-quarto-menino, tingidos de afeto maior que o infinito ao quadrado. Papai tem olhos cor de tudo-vai-dar-certo, quando você acorda do pesadelo no meio da noite, olhos cor de não-fale-nada-durante-a-hora-do-jornal. Tinham olhos cor de céu quando o coelhinho da páscoa faz bagunça pintando os ovos. Olhos da cor da beleza, do amor, do tudo que você pode pensar de bom. 

A professora não sabia mais o que fazer. Tentou lhe ensinar astronomia e os planetas Don até que conhecia. 

Tem o que eu vou quando fico triste, ele dizia, e lá tem quantos pôr-do-sol eu quiser, mais de um milhão ao dia. Tem o planeta expoente negativo, onde tudo é o inverso. Eu ando pelo céu e voo pela água, ando pela noite e vou dormir só na madrugada. E perto do planeta do inverso, tem o planeta do Verso. Planeta da rima bonita, da guria entristecida, da palavra torcida. Planeta do Poeta, da Poetiza. 

Vencida, então, a professora se recolheu. É preciso curá-lo, ela reconheceu. Para o médico Don foi mandado e seu mal logo diagnosticado. Doença rara, o médico contou, há muito tempo que por aqui não aparecia um Sonhador. Para curá-lo não houve erro, uma dose de realidade bastou para fazê-lo.

Mas riam só da amarga ironia. Ao salvarem-lhe a sanidade, condenaram sua vida.