sábado, 16 de agosto de 2014

O Segredo de Dorothy

Era um velho senhor, que vivia em uma velha casa, com suas roupas velhas e histórias mais velhas ainda. E eu, como toda a boa criança deve ser, vivia com uma curiosidade que me transbordava, enchia a garganta e escapava pelos lábios nas horas mais impróprias. E por horas impróprias, entenda metade dos momentos em que eu deveria estar nas aulas de ballet que minha mãe insistia que eu participasse. Porém, como poderia quando os olhos dele brilhavam a cada história contada, seu rosto rejuvenescia anos sem fim e eu via por minutos, por horas, brilhando como novas aquelas histórias que haviam sido soterradas pelo tempo, mas que eram cordialmente desenterradas para mim?

Era um velho senhor e como todo velho senhor era cheio de suas manias. O chá sem açúcar, o mesmo par de sapatos surrados, as constantes reclamações em relação a mim - e a todas essas crianças que parecem não ter mais o que fazer do que incomodar os outros. Não o entendam mal, era apenas ranzinza. Ranzinza como é pressuposto que um velho senhor seja. Contudo, até isso me fascinava, como se aquela mistura de raiva com a amistosidade de seus olhos fosse o grande mistério do mundo. Talvez só não quisesse mostrar o quanto gostava das minhas visitas. Esses velhos senhores têm disso, negam sua solidão tanto quanto as sentem, ao ponto de prenderem-se a elas com o mesmo afinco que as odeiam. 

Tenho certeza de que gostava de me contar histórias tanto quanto eu gostava de ouvi-las. Me comprava biscoitos de chocolate, que deixava como quem não quer nada sobre o balcão - não haviam convites, não haviam ofertas, mas haviam os biscoitos dispostos em um prato de porcelana descascado e os olhos brilhando a cada nova história. Os meus e os dele. Os olhos eram o que o traiam. As feições podiam ser fechadas, a voz transparecia raiva, os gestos mostravam irritação. Porém os olhos não deixavam dúvida, eram portas para seu coração.

Sinceramente, contudo, eu também não era nenhum exemplo de doçura ou qualquer uma dessas qualidades que minha mãe classificaria como extremamente importantes e necessárias em uma boa menina. Por isso, acreditava que éramos um bom time. Dois solitários, dois estranhos ao mundo e suas convenções, compartilhando pedacinhos de um passado distante. Sentada perto da janela, em uma cadeira empoeirada, eu o ouvia contar sobre tempos distante. Tempos em que o leite era entregue a domicílio, as pessoas levavam listas prontas para a mercearia e ninguém assistia televisão.

Para meu horror, ele sempre afirmava: nem ao menos existiam televisões! Contava sobre meninas de outras épocas, com seus vestidos e meias de seda - tão diferentes de minhas calças jeans já totalmente destruídas pelo uso indiscriminado. Falava sobre a dificuldade em tirar fotos e como as pessoas realmente escreviam cartas. Essas eram as histórias curtas, as pequenas pinceladas que ele aos poucos revelava, criando uma realidade que me fascinava e surpreendia. 

Existiam dias, porém, em que seus olhos brilhavam mais e em suas palavras  me contava pequenas aventuras de um menino que ele certa vez conhecera, um menino que jamais deixara de ir a uma aventura. Aventuras que podiam ser decidir fugir de casa ou entrar em ônibus desconhecidos, pronto para desbravar o grande mundo que se estendia a sua frente. Um menino com travessuras que eu gostaria de ter presenciado. Um menino que eu considerava um amigo. Meu melhor amigo.

Naquele pequeno verão que compartilhamos, lembro-me de uma vez criar coragem e perguntar o que ele desejaria, se pudesse ter o que quisesse. Como se pego de guarda-baixa, ele se permitiu um sorriso enquanto me avaliava de alto a baixo. E me contou, da maneira que conta-se um segredo: "Um arco-íris" disse ele, "um grande arco-íris que jamais desapareça. Para que todos nós possamos ir até o seu fim e lá encontrarmos nosso tesouro".

Naquele momento eu reconheci o meu amigo das histórias em baixo de todas as rugas e marcas do tempo e quando ele devolveu minha pergunta, eu não exitei em responder: "Gostaria que o você fosse meu amigo." Seus olhos encheram-se com o tipo de emoção difícil de descrever e, mais surpreendente, como um inverno rigoroso que chega ao fim, foi como se todas as suas feições se descongelassem. Então,  com algo muito perto de carinho, ele me respondeu:

-Não lhe parece injusto que seu pedido seja realizado e o meu não? - E o abraço que lhe dei não teve nada de gelado. Neste instante, em uma explosão de energia, ele pegou um lápis em uma gaveta e rabiscou um desenho na parede da própria casa. Assustada, me aproximei e o que vi preencheu meu coração da mais pura alegria. -Pronto, ele disse, acabei de encontrar o tesouro mais valioso do mundo.

E, enquanto eu olhava o pequeno arco-íris torto rabiscado na parede, não pude deixar de concordar com ele, aquele velho senhor, com suas velhas histórias e velhas manias. 

Do ser, ou não ser?

Ser.
Às vezes é tão difícil.
Tão fácil se perder...

Ser,
Mário Quintana já diria,
É do tamanho do céu!

Ser,
Eu responderia,
É maior que eu.

Ser,
Hamlet me perguntaria,
Ou não ser?

Ser,
Eu escolheria.
Apenas para poder:

Rir,
Chorar,
Amar.

Ser.
Pois apenas sendo poderia
(Realmente) viver.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Duas horas da manhã do dia errado

Tudo começa as duas da manhã do dia errado. Mas espera, essa não é uma música? É difícil dizer, as duas da manhã, o que são ideias originais e o que são apenas recortes desiguais espalhados pela minha memória bagunçada. Tudo começa as duas da manhã, mas podiam ser três. Ou cinco. Tudo poderia ter começado a meia noite se eu não estivesse tão ocupada fazendo outra coisa. Outra coisa que eu nem me lembro o que é. As duas da manhã do dia errado, acordo e finalmente entendo tudo.

São duas horas da manhã, não três, nem cinco. A meia noite já foi faz tempo. O ar é gelado, mas os cobertores estão quentes. O mundo é escuro, mas a luz branca e fria do quarto permanece ligada. O tipo de descuido que não será esquecido por meu pai, quando a conta finalmente chegar. Engraçado pensar nesse tipo de coisa, as duas da manhã de um dia totalmente errado. Mas como eu já disse, seria errado esperar mais de meu cérebro naturalmente bagunçado - ainda mais quando pego de surpresa.

Abro meus olhos, naquele dia errado, e encaro as luzes vermelhas do relógio que marcam duas horas. A luz do quarto machucando meus olhos que ainda sonham metade do sonho interrompido ao meio. O gato também levanta a cabeça, como se meus pensamentos estivessem tão altos que também interromperam seu sono ininterrupto. Me encara com olhos de quem sabe, sabe que eu finalmente entendi. O  encaro, finalmente percebendo que talvez um gato não tenha como saber.

Mas é difícil dizer, principalmente quando são duas da manhã. E é o dia errado. E eu adormeci de jeans. E as luzes seguem acesas. E o mundo gira sobre uma nova perspectiva. A perspectiva da realidade, tão diferente do manto irreal que gostamos de acreditar todos os dias. E tudo brilha de forma diferente e todas as respostas dadas até ali parecem erradas. E o sentindo da vida me escapa, por entre os dedos, como grãos de areia que o vento e a gravidade levam pra longe. 

E em algum ponto um carro passa, tocando o tipo de som que deveria ter sido banido do mundo assim que inventado, em um volume que seria considerado no mínimo indecente em um planeta melhor que o nosso. E tudo se perde com a mesma facilidade com que se ganha. O mundo se inclina levemente, e as ideias são levadas pelo vento, prontas para interromper o sonho de outro alguém, alguém para quem não serão duas horas. E o dia não será o errado.

E eu? Me deito novamente, escondo a luz com as pálpebras e deixo meus olhos voltarem ao sonho metade interrompido. O gato volta ao seu sono interrupto. As horas no relógio mudam. As luzes  seguem acesas. E o mundo segue girando, pronto para mais um dia errado, como todos os outros que vieram antes. E como todos os outros que virão depois, enquanto as vidas se esvaírem assim. 

Como sonhos na madrugada.