segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Amor Nos Anos Dez

Prólogo: 

Joana aceitou seu pedido de amizade. 


O primeiro ato:

Joana curtiu sua foto de perfil.

Tiago está digitando.

Mensagem visualizada. 

Tiago comentou sua publicação. 

Joana está digitando.


Segundo ato:

Joana está se sentindo ansiosa. 

Tiago está se sentindo feliz. 

Joana fez check-in em Porto Alegre.

Tiago publicou uma nova foto com você.

Joana curtiu sua foto.


Terceiro ato:  

Joana está assistindo “As Idas e Vindas do Amor”.

Tiago está assistindo “500 dias com Ela”.

Joana está se sentindo sozinha. 

Tiago comentou sua publicação. 

Joana está digitando.


Quarto ato:

- Eu preciso de provas.

- Provas do que, Joana?

- Provas sobre a gente. Que é sério. Que você não está brincando comigo. 

- Eu não estou brincando contigo, Joana.

- Então prova, oras.

- Quer que eu prove, Joana? Quer mesmo?


Tiago enviou sua senha do Netflix.


Último ato:

Joana e Tiago estão em um relacionamento sério. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Começo do Meu Fim Com Amélia


Amélia.

Todas as manhãs a mesma paciência velada na hora de arrumar-se. O longo banho. O cabelo. Seca. Penteia. Prende. Solta. Prende de novo. A maquiagem. A maquiagem sempre demora muito. O batom muda de cor todo dia. Ela anda com pressa pelo quarto e xinga os móveis que estão há anos nos mesmos lugares, mas que ela segue tropeçando religiosamente em todas as manhãs. Eu rio.

Amélia.

Que me olha vagamente incomodada, como se lembrando de minha existência - e não, necessariamente, gostando tanto assim dessa lembrança. Eu me levanto quando ela sai do quarto e em menos de dez minutos a encontro na cozinha, pois nem todo mundo tem o cuidado de Amélia ao se arrumar. Mas eu gosto. Ela já se parece com uma boneca antes mesmo de eu tomar meu café. 

Amélia.

Nosso beijo de despedida é quase inexistente. Mas eu insisto, ela não. Amélia agora tem pressa. Caminha para seu dia com uma confiança desconfortante. E eu fico. Eu arrumo o que não foi bagunçado. Perco algumas horas me distraindo com o que não deveria me distrair. Até, finalmente, sentar na frente de meu computador para, teoricamente, começar a trabalhar. Mas escrever nem sempre é fácil. Até que ela volta.

Amélia. 

Vejo pela janela ela descer do ônibus, desanimada. Ela sempre volta cabisbaixa. Como se toda sua força dependesse do sol, e agora que ele se foi, ela está pronta para ir também. Ir para onde? Eu nunca sei. Ela entra pela porta e me lança um olhar fraco e uma saudação que se parece mais com um adeus. De dois desconhecidos. 

Amélia.

Me olhando com o canto dos olhos no jantar. Fugindo de meus braços depois dele. Alegando uma dor de cabeça antes mesmo que eu tente começar a conversar. Se trancando em seu mundo, em sua mente, em seus próprios pensamentos - dos quais eu já não mereço compartilhar.

Amélia.

Deita ao meu lado na cama. Diz um boa noite com ares de obrigação. Vira as costas para mim. E não pela primeira vez eu entendo. Entendo como a cada dia eu gosto um pouco menos dela. A cada olhar desinteressado, a cada pergunta que ela não me faz, a cada pergunta da qual ela foge. Sinto o que tínhamos escapando entre os meus dedos sem que eu possa fazer nada para parar. Para parar o fim que se aproxima.

Amélia.

Dorme ao meu lado, finalmente tranquila. E eu me pergunto se ela sente o que eu sinto. Mas a verdade me perturba. Ela já teve seu fim muito antes que eu. O que a prende a mim não é mais o amor. Ela está comigo por hábito.

Amélia,

Que saudades que eu sinto de quando sua rotina envolvia me amar e que saudades que eu sinto dela ser minha vida.

Amélia.

Ela vai ir embora. E eu não vou pedir a ela que fique.