Sentada na parada do ônibus, depois da aula de inglês, quase nove da noite e quase nove graus. Entre o frio e a vontade de já estar em casa, é estranho que eu acabe pensando em política. Ou quase isso.
Hoje em dia todo mundo fala de política. Uns anos atrás (nem tanto, cinco?) ninguém falava de política. Tinha gente que reclamava "queria ver brasileiro se importando tanto com política, quanto se importa com futebol". Depois de um sete a um e um talvez-golpe-talvez-impeachment - cá estamos nós, falando incessantemente sobre política e nem lembrando de futebol.
Não acho que isso seja algo ruim, como algumas pessoas parecem achar. O povo se interessar é uma das partes mais importantes da democracia. Se está faltando conteúdo? Talvez. Mas a verdade é que nem Roma, nem o mundo, foram construídos em um dia.
Voltando ao ponto, eu estava na parada e comecei a pensar em algo que ouvi no rádio outro dia. Ouvi que estamos vivendo um momento tão estranho na política brasileira também porque existem dois lados muito fortes - e dois lados que se odeiam, e muito.
Talvez seja estranho pensar em política levando a ódio. Mas talvez não seja tão estranho quando começamos a pensar nesses dois lados em que estamos nos separando. Nesse mundo de "petralhas" e "coxinhas" há mais do que ideologia. E mais do que ódio cego.
Tudo começa em um lugar bem simples (do meu ver, claro): na infância. Eu, por exemplo, nasci pobre. Que coisa estranha de se escrever! Assim, sem mais nem menos, sem grandes voltas ou explicações. Mas é a verdade.
Nasci e ainda sou pobre. Moro e sempre morei na periferia. Vila, se você quiser chamar assim. Favela? Parece meio exagerado, mas minha rua é de chão batido e água potável não tem. Como toda boa pobre, sempre estudei em escola pública. Teve goteira, teve falta de professor, teve falta de material. Também teve professor esforçado, evento da associação de pais para arrecadar dinheiro, movimento para construir um prédio novo para a escola.
Durante minha vida também tive algumas oportunidades que nem todos tiveram. Ganhei uma bolsa de ballet em uma escola do centro, por exemplo, onde tive a chance de conviver com filhos de pessoas que ganhavam mais em um mês, do que o meu pai em um ano.
Na própria Liberato, onde fiz o ensino médio, conheci pessoas de todo jeito. De todo lugar. Muito ricas, muito pobres. Muito espertas e nem tanto assim. Gente, de tudo que é jeito, como gente normalmente é.
No decorrer dos meus quase vinte anos, essas convivências me ensinaram muitas coisas. Em primeiro lugar, me ensinaram o que é inveja. E, principalmente, que o mundo é um lugar injusto.
Meu eu de nove, dez anos, sofreu muito para entender porque algumas pessoas podiam ter tudo que queriam: os livros caros, os cadernos bonitos e com adesivos, o tênis da moda.
O meu eu de quinze, dezesseis anos começou a entender que tem coisas muito piores que a gente perde quando é pobre: as grandes oportunidades todas requerem aquele inglês, que a gente nunca teve a chance de estudar; aquele tempo, que a gente não pode dar porque precisa trabalhar; aquela matéria que a gente nem teve, porque vocês sabem como é o ensino fundamental em uma escola pública?
Eu poderia falar muito tempo aqui de tudo que se perde. Mas nem adiantaria, sabe? É o tipo de coisa que marca muito quem não teve, mas que quem sempre teve - nunca vai entender.
Eu penso muito nisso hoje em dia, enquanto faço aula de inglês. Ganhei uma bolsa ano passado, na Wizard, e foi uma oportunidade tão incrível que até hoje eu acho maravilhoso ter recebido ela. Mas a verdade é que as pessoas de lá me irritam.
Me irritam os jovens de quinze, dezesseis anos que insistem em conversar na aula. Que nunca fazem o tema. Que reclamam de tudo e todos. Eles me irritam porque eles têm essa oportunidade incrível, eles têm todas essas oportunidades incríveis, e eles não dão o mínimo valor.
E eu sei que eles são as mesmas pessoas que estudam nas escolas particulares e que recebem um ensino tão superior. E que para entrar no ensino superior, eles ainda vão ter pai e mãe para pagar um, dois, três anos de unificado. E são os mesmos que vão gritar contra cotas, contra o Prouni, contra todos os programas sociais.
Porque eles se sentem injustiçados, por exemplo, quando vão fazer o vestibular e tem uma partezinha daquela oportunidade voltada a quem nunca teve todas essas oportunidades incríveis. A quem só indo atrás, conseguiu fazer um curso de inglês. A quem estudou em ensino público - com greve, goteira, computador do século passado. A quem nada veio assim, facilmente.
E é aí que nasce o ódio.
O ódio nasce em quem sempre batalhou por tudo, ao ver quem sempre recebeu tudo facilmente - não dar valor a nada. E o ódio nasce dos que sempre tiveram tudo, ao ver uma parte do que eles acreditam ser seu por direito, ser dado a outras pessoas que não eles mesmo.
A nossa crise política, do meu ver, é uma crise no ser humano. Na nossa falta de capacidade de compreender o próximo. De sentir empatia. E talvez, até, na nossa mania de só dar valor ao que conseguimos a duras penas.
Mas eu confesso que é difícil. E é nisso que eu penso, esperando na parada.
É difícil não sentir raiva, as nove horas da noite, aos nove graus, é difícil não sentir raiva dessas pessoas que tem todas as oportunidades do mundo e de mãos beijadas - enquanto a gente precisa correr atrás de tudo e, mesmo assim, às vezes não conseguir nada.
É difícil aceitar de bom grado que o mundo é injusto e que tem gente que defende a perpetuação de toda essa injustiça, se escondendo atrás de uma ideologia política ou outra.
Vocês que não viveram, podem não entender. Mas é, definitivamente, algo que da raiva. Porque vai além de política. Porque é sobre humanidade.
Ou a falta dela.