sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Um a Um


Existem dias que eu acordo com certezas absolutas sobre todos os próximos dias que ainda virão em minha vida. Existem planos e passos e regras e ideias e objetivos e a luz no fim do túnel. Mas então eu lembro que preciso levantar do sofá cama e tomar um banho, arrumar os cobertores e ir trabalhar. E em algum momento entre o levantar e o almoço, todas as minhas estratégias para dominar o mundo parecem descer pelo ralo do chuveiro junto com os resquícios do sono das manhãs de quarta-feira.

A vida me cansa a coluna e as articulações e meu siso gosta de incomodar. Me percebo questionando se a partir daqui será sempre assim: dói. Não de uma maneira metafórica ou poética, não. Meu joelho dói quando eu me deito e penso em dormir. A insônia não deixa. A dor incomoda. Me surpreendo: envelheci. 

Não sou velha, mas a cada sol sou menos jovem. É óbvio, mas não é. Demorei muito para perceber como o tempo é faminto. É só eu piscar para que meses passem desapercebidos. Algumas horas de distração, e o tempo levou anos inteiros. Até o dia de adormecer, e uma vida inteira ter ido. Escorrendo pelos dedos com a mesma instabilidade de um punhado de areia. 

Gostaria de escrever todos os dias e de escrever melhor. Gostaria de ter mais palavras - não só nos textos, mas no dia a dia. Gostaria de ser mais fogo. Um furação inteiro, uma noite de ventania. De ser feita de um material mais forte, de um material melhor.

Mas preciso me contentar com a carne e os ossos e a preguiça e as dores e o tempo e a própria inevitabilidade de tudo. Preciso me contentar com a falta das certezas e as constantes dúvidas. Preciso me contentar com as tentativas: tentar escrever mais, tentar saber mais, tentar ser mais.

Até o dia de ser conquistada pelo tempo. Como acontecerá com todos nós. Um a um. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Insônia na República

São duas da manhã na Rua da República.

O silêncio é quebrado apenas por um andar trôpego no
andar de cima, anunciando que alguém chegou tarde nesta segunda-feira. Ou já será terça? Os segundos se estendem pela madrugada, o barulho do relógio da cozinha revelando os mistérios do tempo. Ou apenas os ressaltando. 

São duas da manhã.

E em um outro mundo, em uma outra era, em uma outra vida, eu andaria pelas ruas calmas nessa madrugada quente de novembro. Mas não são outros tempos. Então me prendo atrás de paredes e chaves e sonos e sonho com a brisa suave correndo do Guaíba, passando solta pela perimetral, e descubro dentro de mim inveja do vento.

Do vento que vê, todos os dias, a noite. 

Enquanto isso, tudo que me sobra são retalhos de imaginação. 
Mas sigo imaginando. 

Imagino a lua refletida no lago e as árvores da Redenção dançando ao som da madrugada. Imagino a João Pessoa por uma vez vazia. Imagino uma Porto Alegre fantasma. Imagino a cidade só para mim. Imagino descobrir cada via. Imagino descobrir a cor da noite. E descobrir onde o mundo se esconde, quando todos se escondem do mundo.

Tenho vontade de colocar um tênis surrado e um olhar vivo. E viver essa madrugada em Porto Alegre.

Mas são duas da manhã. E nesses dias, nessa época, e nesse mundo: não posso. Estou presa a segurança do dia a dia, estou presa a ilusão de controle, estou presa ao medo, ao bom senso, a realidade, a surrealidade desses tempos. Onde nos prendemos por vontade. E para sobreviver, abdicamos de parte de nossas vidas.

              
A insônia me mantém acordada. A noite segue tranquila na República. É a hora mais escura.

Preciso ir.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Quando As Crianças Mimadas Crescem

Sete da noite de uma quinta-feira.

O barulho começa.

Primeiro são as risadas que flutuam pela área. Depois os gritos. E por fim a música. É uma festa, afinal percebo, não um filme de terror.

De início, não estou surpresa.

A ilustríssima residente do 109 é uma aspirante a cantora de ópera que treina seu fôlego com músicas da Rihanna. Música, na verdade.

Todo santo dia, a mesma música.

Se nada mais, é de se admirar sua constância. Ou como nenhum outro morador cometeu um crime. Ainda.

Essa menina do cento e nove ainda tem amigos que gostam tanto quanto ela se divertirem subindo a média de decibéis do prédio. Um, principalmente, que adora rir para ser ouvido pelos alienígenas da nave mãe. Nada contra risadas, mas será que os coelhinhos escondidos na lua também precisam ouvir? Tenho minhas dúvidas.

Passa das oito da noite quando minha irmã sugere que a gente ligue para o porteiro pedindo para o pessoal da festa se controlar. Quer dizer, ninguém aqui é tão obtuso que não aceita um pouco de barulho. Mas uma hora depois o show das hienas já perdeu a graça.

E não só para nós.

O porteiro esclarece que já telefonou duas vezes. Agora só lhe resta colocar a famosa moça do cento e nove no Livro.

Não chego a perguntar, mas ele faz parecer que estar no livro é uma falta grave. Do tipo você não ganha a estrelinha no final da aula. E o porteiro não te dá mais bom dia. E todo mundo no prédio te odeia com uma fúria inimaginável.

Pena que todo o ódio do Livro dos Porteiros não impede a propagação das ondas de som.
Ligo para a moça. Ela atende irritada.

“Já passou das dez? Eu tenho todo o direito de fazer barulho, os incomodados que se retirem, whatever”.

Quando desligo, logo em seguida o telefone dela toca de novo. Mais uma reclamação. Ninguém consegue ouvir seus pensamentos, só gritos. Só o cento e nove tem direitos nessa noite de quinta-feira.

E é engraçado, para não dizer que é horrível e triste, quando finalmente compreendo: as crianças mimadas não mudam - elas apenas envelhecem e passam a se chamar de adultos.

E agora passa das vinte e duas horas.
E pela área ainda flutuam os sons do puro e completo egoísmo.

domingo, 11 de setembro de 2016

Das Coisas Quebradas

Não, eu te digo. Não, e é spoiler mesmo. Não e não. Simplesmente não.

Nada nunca será como foi. Nada nunca voltará intacto e intocado pelo tempo. Nada do que foi perdido, será reencontrado em perfeito estado. O que o passado quebrou, não há presente ou futuro que remende. Eis a verdade: a vida segue. As coisas mudam. Algumas voltam melhores, com o tempo. Outras nunca voltam. Algumas voltam em tons desbotados que só causam tristeza e desilusão se comparadas ao seu estado original. Mas elas nunca voltam iguais. 

E, às vezes, você vai acabar querendo que elas não voltem nunca mais.
Mesmo as coisas boas.

Por melhor que algumas coisas tenham sido, acontece que passa. Tudo, tudo, tudo passa. E nem tudo é vinho que melhora com o tempo. E algumas coisas são leite, e azedam. E outras apodrecem. E de outras a gente simplesmente enjoa. E quando vemos as primeiras rachaduras, já não nos incomodamos. E quando tudo se transforma em pó em nossas mãos, nem nos surpreendemos. E quando o vento leva até mesmo os resquícios do que um dia foi, para longe, finalmente respiramos em paz. Um peso a menos.

A verdade é que vivemos muito, mesmo em pouco tempo. A verdade é que muitas vezes temos dias longos e semanas seculares. Existem horas que nos envelhecem milênios. Existem dias em que nascemos e morremos em minutos. Existem segundos, longos e intransponíveis segundos, que se prolongam pelo próprio infinito.

A verdade é que a vida vai mudar quem nós somos. Os tempos vão ditar nossos cortes de cabelo. E as cores de nossas roupas. E o conteúdo dos nossos gostos. E a razão dos nossos desgostos.

E em meio a esse jogo de mudar e crescer. E em meio a manhãs de inverno, tardes de primavera e noites de verão. E em meio aos meios e aos fins e aos começos. E em meio a tudo vamos descobrir que não há presente maior que este, ou maldição maior que esta:

O passado está para sempre preso no labirinto do tempo.
Só nos resta recomeçar.

sábado, 10 de setembro de 2016

O caderninho de desafios de Dash & Lily - Ou como o fascínio por Moleskines é Infinito, Inexplicável e Insuperável

Já é fato conhecido e estabelecido neste lado da Galáxia que eu ainda não aprendi a fazer resenhas supimpas, do tipo que arranca risadas da platéia carrancuda e faz as livrarias do mundo inteiro se encherem de filas quilométricas, enquanto seus estoques se reduzem em tempo recorde e jamais visto na História. Mas, por outro lado, também é fato que minha falta de talento ou prática nunca me impediu antes, então, senhoras e senhores, lhes apresento minha última leitura:

"O Caderninho de Desafios de Dash & Lily" ,
de David Levithan e Rachel Cohn 


Vejo as expressões de escárnio do respeitável público imaginário, que diz com seu silêncio zombeteiro: "Sério, Bibiana, quando você vai deixar esses livrinhos de young adult fiction de lado e ir ler algo de verdade?". A resposta provavelmente seria "Nunca", mesmo que "Nunca" seja o tipo de sentença forte e definitiva demais para ser utilizado em qualquer situação, hipotética ou não. Mas a verdade é que sempre que eu vejo alguém menosprezando esse tipo de livro, me parece muito mais preconceito do que qualquer coisa remotamente construtiva. 

Para os amigos leitores que gostam de se auto promover citando autores russos ou aqueles clássicos-que-ninguém-nunca-entendeu: ler Tolstoi ou Dostoievski não te faz melhor do que ninguém. Não importa se você lê Jane Austen, George Orwell, James Joyce ou Bronte. O valor das pessoas não está no repertório de livros lidos, até porque existe esse precipício gigantesco entre ler e compreender uma história. Claro que Oscar Wilde é incrível. Sim, ninguém se compara a Tolkien. E óbvio, os caras da Rússia escrevem coisas que entram na mente da gente e sacodem nossa alma. Mas, vejam só: o mérito destes autores não faz com que todos os outros livros do mundo sejam perda de tempo. Perda de tempo é criticar livros por preconceito bobo. Isso sim. 


Dito isso, que seja esclarecido: é um livro bobo. "Dash e Lily" é uma história boba. É praticamente um conto de fadas do século XXI, como até está dito na contracapa. Mas, como eu já disse outras vezes, como é bom ler uma história boba às vezes! Nada como chegar em casa sexta-feira à noite, deitar no sofá de pijama e pantufas, e mergulhar em um mundo distante e iluminado, onde as meninas usam meia-calça colorida e os garotos são profundos-sarcásticos-inteligentes-de-morrer e, claro, convenientemente lindos. Quem não quer viver em um universo assim, nem que seja por algumas horas?

Eu quero, sem dúvida alguma.
E, dentro dessas expectativas, "O caderninho de desafios de Dash & Lily" é um ótimo livro. 


Eu, pessoalmente, não acredito muito em sinopses. Mas como não faço as regras, apenas as sigo (quando é de meu interesse, fique claro), segue uma tentativa de resumo - ênfase para o "tentativa": 

Você conhece a história: é Nova York, é dezembro, a cidade se veste com o clima natalino - lá está a neve, presentes e músicas comemorativas. Por motivos diversos, nossos protagonistas, Dash e Lily, se veem sozinhos nesta época do ano: para ela, é uma época mágica e estar longe de sua família é um martírio; para ele, o martírio é a época do ano e a magia é estar sozinho.

São duas pessoas claramente opostas, você deve estar reconhecendo a história a essa altura. Então, não é com tanta surpresa assim que logo descobrimos que o Moleskine plantado por Lily em uma livraria - em meio a seus livros preferidos - é encontrado por Dash, que - acreditem ou não - também está visitando seus livros de cabeceira. 

O caderno contem desafios e, a medida que a história se desenrola, suas páginas também passam a ser manchadas com grandes reflexões e confissões do nosso casal mais querido de protagonistas. O mais importante: durante essa troca de desafios feita por meio do Moleskine, Dash e Lily mantem uma relação puramente indireta. Eles se conhecem por meio de suas palavras e nada mais. Com isso, logo os dois estão cheios de expectativas e a um passo da decepção. 

É um livro justamente sobre isso: sobre a nossa necessidade de ver as nossas maiores expectativas se tornarem realidade - sem entender que elas nunca se tornarão. Que o futuro nunca seguirá nossa imaginação. Que ninguém nunca será perfeito e que, no topo dessa lista, nós nunca seremos perfeitos. É uma história sobre aceitar as imperfeições e perfeições da vida real. 

E, em um mundo em que cada vez mais nos afogamos em utopias em relações a praticamente tudo, é interessante perceber uma história que prega justamente o oposto. Mesmo sendo uma leitura boba, quando você para para pensar - você percebe que não é tanto assim. "Dash e Lily" é um livro sobre ir além das expectativas, é sobre ver além das decepções, é sobre entender que somos todos humanos: seres sujeitos a erros, acertos, seres assustadoramente interessantes de quem podemos gostar muito - ou não.

P.S.: Este marcador de página do Grumpy Cat é a coisa mais magnífica já realizada pela humanidade. Ponto final.

P.S.2: Para explicar o título: é incrível como um Moleskine é o caderno mais não-prático já criado na história e, ainda assim, o mais celebrado. Não existe um caderno que passe mais a mensagem de mágico-incrível-culto-tudo-de-bom e, ainda assim, é só você realmente tentar escrever em páginas pequeninas e sem pautas para entender o que é o verdadeiro Inferno na Terra. Ainda assim são um sucesso sem fim. Humanos, quem vai os entender?

P.S.3: Melhor citação do livro:

"Sempre torci para que, depois que o príncipe encontrasse Cinderela e eles partissem em uma carruagem magnifica, ela se virasse para ele depois de alguns quilômetros e dissesse: ‘Pode me deixar na estrada, por favor? Agora que finalmente fugi de minha horrível vida de exploração, gostaria de ver um pouco do mundo, sabe? Talvez fazer um mochilão pela Europa ou Ásia. Procuro por você depois, Príncipe, depois de ter encontrado meu caminho. Mas obrigada por me achar! Foi uma gracinha de sua parte. E pode ficar com os sapatinhos. Vão acabar me dando bolhas se continuar os usando.’"

domingo, 4 de setembro de 2016

Meio Dia em Porto Alegre


É meio dia em Porto Alegre.

Faz sol em um dia que prometia ser nublado. A Rua da República está cheia de gente pelas calçadas, os restaurantes todos servem almoço, os estudantes estão indo e voltando de suas aulas, os gatos na Sirius estão buscando alguém que os faça carinho e é uma terça-feira extraordinariamente normal.

É meio dia em Porto Alegre e estou voltando da minha aula da manhã.

Admito: meu dia já não estava dos melhores. Entre acordar atrasada, sair correndo com a bicicleta, descobrir a cidade inteira molhada e cair de cara na calçada na frente da UFRGS (e, obviamente, na frente de colegas - porque nunca podem ser apenas um bando de desconhecidos testemunhando o fim da nossa dignidade) meu dia já estava indo de mal a pior. Então lá estava eu, voltando para casa - a roupa virada em lama após o incidente da manhã, o lado esquerdo do corpo dolorido por funcionar como amortecedor para a bicicleta e a dignidade provavelmente esquecida em algum canto da calçada maldita. Não é uma boa terça-feira, de forma alguma.

Passo pelo apartamento que fica na República apenas para trocar de roupa, já estou mais do que atrasada para ir trabalhar. Entro em um pé, saio no outro - e já estou caminhando pela calçada mais uma vez. É meio dia em Porto Alegre. Faz sol. A rua está cheia de pessoas. Caminho com pressa e com a distração usual que estar em uma pequena multidão nos traz. É meio dia na Rua da República. Todo mundo está na rua, almoçando, indo e voltando. É só mais um dia normal.

Alguém puxa minha mochila e eu me viro pronta para ver um rosto amigo.

Eu sou distraída o suficiente para não ser uma primeira vez. Eu não vejo amigos na rua até que eles pulam na minha frente, puxam meu braço e gritam "BIBIAAAAAAAAANA" em uma voz audível até na China. Eu sou distraída o suficiente para estar acostumada com pessoas chamando minha atenção na rua. Alguém puxa minha mochila. Eu me viro curiosa. Quem será que também está perdido pela República a essa hora?

O homem que segura minha mochila definitivamente não é um conhecido. O homem que pede meu celular definitivamente não é um amigo. Eu olho para ele sem entender. É meio dia em Porto Alegre e eu estou no meio na Rua da República, é terça-feira e a rua está cheia. Tem pessoas passando ao meu redor, tem pessoas almoçando ao meu redor, tem os gatos da Sirius logo ali esperando para receber um carinho. A cena, simplesmente, não está correta.

Quando eu me mudei para Porto Alegre eu logo percebi que ser assaltada não era uma questão de "se", era uma questão de "quando". Eu já tinha me preparado psicologicamente para esse evento. Eu sabia que era uma questão de tempo. Mas eu não estava preparada para isso. Eu estava preparada para descer do ônibus um dia de noite e algo de ruim acontecer. Estava preparada para voltar para casa mais tarde e descobrir as ruas vazias demais. Estava preparada para tomar cuidado no longo caminho a pé que faço todos os dias até a Fabico.

Mas eu não estava preparada para a segunda quadra depois do apartamento, ao meio dia de um dia de semana, na rua mais movimentada do mundo.

E minha confusão foi o bastante para eu esquecer todo o meu mantra ensaiado. Toda aquela história de só entregar ao assaltante o que ele pediu e seguir meu caminho em paz. O homem pede meu celular mais uma vez e eu sou só confusão. E, então, coisas mais estranhas acontecem.

Ele ri. Ri e diz te assustei, não foi, guria? Tô só brincando contigo.

E minha confusão se transforma em raiva mais rápido do que deveria. E minhas ações acontecem bem mais rápido do que qualquer pensamento. Porque quando você pensa a respeito, eu tomei a atitude mais estúpida da minha vida. Eu olho para a cara do homem que ainda segura minha mochila e digo mas que brincadeira babaca essa, né cara?

Que grande momento para decidir discutir as babaquices dos malucos da rua. Quando ele começa a me xingar e ameaçar eu começo a gritar para alguém me ajudar. E é então que a coisa mais triste do mundo acontece. As pessoas passam sem ver, sem escutar, sem dar a mínima bola.

São quatro meninas que param para perguntar o que está acontecendo. O homem finalmente vai embora, ainda xingando, ainda ameaçando. As meninas me acompanham até o fim da quadra. Perguntam se estou bem. Entendem que essa cidade virou um antro de malucos sem salvação.

Me despeço das meninas benfeitoras e vou correndo o mais rápido o possível para o trabalho. Não entendo bem o que aconteceu. É madrugada de quinta-feira e ainda não entendo o que aconteceu. Entre loucos e feridos a verdade é que ainda estou aqui, inteira e com o celular, e que teoricamente tudo acabou bem.

Mas quando caminho hoje para aula e depois para o trabalho, me vejo olhando constantemente para trás. Um homem passa pela minha frente enquanto espero a sinaleira da João Pessoa abrir e meu coração dispara - até perceber que ele só está caminhando até seu carro. Deixo meu celular em casa, por via das dúvidas. Venho caminhando pelo outro lado da República.

Eu acho que a gente nunca entende bem o problema da segurança pública até sentir ele no nosso sangue.

Não que a gente não saiba que ser assaltado é horrível. Não que a gente não compreenda e não tenha medo do que pode acontecer. A gente sabe, a gente sempre sabe. Daquele jeito longínquo que a gente sabe que existe fome na África, analfabetos no Brasil e guerra na Síria. A gente sabe.

Até que acontece conosco. E de repente a situação muda. Porque a partir dai a gente não só sabe, a gente sente.

E, eu juro, é um dos piores sentimentos do mundo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Amor Nos Anos Dez

Prólogo: 

Joana aceitou seu pedido de amizade. 


O primeiro ato:

Joana curtiu sua foto de perfil.

Tiago está digitando.

Mensagem visualizada. 

Tiago comentou sua publicação. 

Joana está digitando.


Segundo ato:

Joana está se sentindo ansiosa. 

Tiago está se sentindo feliz. 

Joana fez check-in em Porto Alegre.

Tiago publicou uma nova foto com você.

Joana curtiu sua foto.


Terceiro ato:  

Joana está assistindo “As Idas e Vindas do Amor”.

Tiago está assistindo “500 dias com Ela”.

Joana está se sentindo sozinha. 

Tiago comentou sua publicação. 

Joana está digitando.


Quarto ato:

- Eu preciso de provas.

- Provas do que, Joana?

- Provas sobre a gente. Que é sério. Que você não está brincando comigo. 

- Eu não estou brincando contigo, Joana.

- Então prova, oras.

- Quer que eu prove, Joana? Quer mesmo?


Tiago enviou sua senha do Netflix.


Último ato:

Joana e Tiago estão em um relacionamento sério. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Começo do Meu Fim Com Amélia


Amélia.

Todas as manhãs a mesma paciência velada na hora de arrumar-se. O longo banho. O cabelo. Seca. Penteia. Prende. Solta. Prende de novo. A maquiagem. A maquiagem sempre demora muito. O batom muda de cor todo dia. Ela anda com pressa pelo quarto e xinga os móveis que estão há anos nos mesmos lugares, mas que ela segue tropeçando religiosamente em todas as manhãs. Eu rio.

Amélia.

Que me olha vagamente incomodada, como se lembrando de minha existência - e não, necessariamente, gostando tanto assim dessa lembrança. Eu me levanto quando ela sai do quarto e em menos de dez minutos a encontro na cozinha, pois nem todo mundo tem o cuidado de Amélia ao se arrumar. Mas eu gosto. Ela já se parece com uma boneca antes mesmo de eu tomar meu café. 

Amélia.

Nosso beijo de despedida é quase inexistente. Mas eu insisto, ela não. Amélia agora tem pressa. Caminha para seu dia com uma confiança desconfortante. E eu fico. Eu arrumo o que não foi bagunçado. Perco algumas horas me distraindo com o que não deveria me distrair. Até, finalmente, sentar na frente de meu computador para, teoricamente, começar a trabalhar. Mas escrever nem sempre é fácil. Até que ela volta.

Amélia. 

Vejo pela janela ela descer do ônibus, desanimada. Ela sempre volta cabisbaixa. Como se toda sua força dependesse do sol, e agora que ele se foi, ela está pronta para ir também. Ir para onde? Eu nunca sei. Ela entra pela porta e me lança um olhar fraco e uma saudação que se parece mais com um adeus. De dois desconhecidos. 

Amélia.

Me olhando com o canto dos olhos no jantar. Fugindo de meus braços depois dele. Alegando uma dor de cabeça antes mesmo que eu tente começar a conversar. Se trancando em seu mundo, em sua mente, em seus próprios pensamentos - dos quais eu já não mereço compartilhar.

Amélia.

Deita ao meu lado na cama. Diz um boa noite com ares de obrigação. Vira as costas para mim. E não pela primeira vez eu entendo. Entendo como a cada dia eu gosto um pouco menos dela. A cada olhar desinteressado, a cada pergunta que ela não me faz, a cada pergunta da qual ela foge. Sinto o que tínhamos escapando entre os meus dedos sem que eu possa fazer nada para parar. Para parar o fim que se aproxima.

Amélia.

Dorme ao meu lado, finalmente tranquila. E eu me pergunto se ela sente o que eu sinto. Mas a verdade me perturba. Ela já teve seu fim muito antes que eu. O que a prende a mim não é mais o amor. Ela está comigo por hábito.

Amélia,

Que saudades que eu sinto de quando sua rotina envolvia me amar e que saudades que eu sinto dela ser minha vida.

Amélia.

Ela vai ir embora. E eu não vou pedir a ela que fique. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quando Nasce o Ódio


Sentada na parada do ônibus, depois da aula de inglês, quase nove da noite e quase nove graus. Entre o frio e a vontade de já estar em casa, é estranho que eu acabe pensando em política. Ou quase isso.

Hoje em dia todo mundo fala de política. Uns anos atrás (nem tanto, cinco?) ninguém falava de política. Tinha gente que reclamava "queria ver brasileiro se importando tanto com política, quanto se importa com futebol". Depois de um sete a um e um talvez-golpe-talvez-impeachment - cá estamos nós, falando incessantemente sobre política e nem lembrando de futebol.

Não acho que isso seja algo ruim, como algumas pessoas parecem achar. O povo se interessar é uma das partes mais importantes da democracia. Se está faltando conteúdo? Talvez. Mas a verdade é que nem Roma, nem o mundo, foram construídos em um dia.

Voltando ao ponto, eu estava na parada e comecei a pensar em algo que ouvi no rádio outro dia. Ouvi que estamos vivendo um momento tão estranho na política brasileira também porque existem dois lados muito fortes - e dois lados que se odeiam, e muito.

Talvez seja estranho pensar em política levando a ódio. Mas talvez não seja tão estranho quando começamos a pensar nesses dois lados em que estamos nos separando. Nesse mundo de "petralhas" e "coxinhas" há mais do que ideologia. E mais do que ódio cego.

Tudo começa em um lugar bem simples (do meu ver, claro): na infância. Eu, por exemplo, nasci pobre. Que coisa estranha de se escrever! Assim, sem mais nem menos, sem grandes voltas ou explicações. Mas é a verdade.

Nasci e ainda sou pobre. Moro e sempre morei na periferia. Vila, se você quiser chamar assim. Favela? Parece meio exagerado, mas minha rua é de chão batido e água potável não tem. Como toda boa pobre, sempre estudei em escola pública. Teve goteira, teve falta de professor, teve falta de material. Também teve professor esforçado, evento da associação de pais para arrecadar dinheiro, movimento para construir um prédio novo para a escola.

Durante minha vida também tive algumas oportunidades que nem todos tiveram. Ganhei uma bolsa de ballet em uma escola do centro, por exemplo, onde tive a chance de conviver com filhos de pessoas que ganhavam mais em um mês, do que o meu pai em um ano.

Na própria Liberato, onde fiz o ensino médio, conheci pessoas de todo jeito. De todo lugar. Muito ricas, muito pobres. Muito espertas e nem tanto assim. Gente, de tudo que é jeito, como gente normalmente é.

No decorrer dos meus quase vinte anos, essas convivências me ensinaram muitas coisas. Em primeiro lugar, me ensinaram o que é inveja. E, principalmente, que o mundo é um lugar injusto.
Meu eu de nove, dez anos, sofreu muito para entender porque algumas pessoas podiam ter tudo que queriam: os livros caros, os cadernos bonitos e com adesivos, o tênis da moda.

O meu eu de quinze, dezesseis anos começou a entender que tem coisas muito piores que a gente perde quando é pobre: as grandes oportunidades todas requerem aquele inglês, que a gente nunca teve a chance de estudar; aquele tempo, que a gente não pode dar porque precisa trabalhar; aquela matéria que a gente nem teve, porque vocês sabem como é o ensino fundamental em uma escola pública?

Eu poderia falar muito tempo aqui de tudo que se perde. Mas nem adiantaria, sabe? É o tipo de coisa que marca muito quem não teve, mas que quem sempre teve - nunca vai entender.

Eu penso muito nisso hoje em dia, enquanto faço aula de inglês. Ganhei uma bolsa ano passado, na Wizard, e foi uma oportunidade tão incrível que até hoje eu acho maravilhoso ter recebido ela. Mas a verdade é que as pessoas de lá me irritam.

Me irritam os jovens de quinze, dezesseis anos que insistem em conversar na aula. Que nunca fazem o tema. Que reclamam de tudo e todos. Eles me irritam porque eles têm essa oportunidade incrível, eles têm todas essas oportunidades incríveis, e eles não dão o mínimo valor.

E eu sei que eles são as mesmas pessoas que estudam nas escolas particulares e que recebem um ensino tão superior. E que para entrar no ensino superior, eles ainda vão ter pai e mãe para pagar um, dois, três anos de unificado. E são os mesmos que vão gritar contra cotas, contra o Prouni, contra todos os programas sociais.

Porque eles se sentem injustiçados, por exemplo, quando vão fazer o vestibular e tem uma partezinha daquela oportunidade voltada a quem nunca teve todas essas oportunidades incríveis. A quem só indo atrás, conseguiu fazer um curso de inglês. A quem estudou em ensino público - com greve, goteira, computador do século passado. A quem nada veio assim, facilmente.

E é aí que nasce o ódio.

O ódio nasce em quem sempre batalhou por tudo, ao ver quem sempre recebeu tudo facilmente - não dar valor a nada. E o ódio nasce dos que sempre tiveram tudo, ao ver uma parte do que eles acreditam ser seu por direito, ser dado a outras pessoas que não eles mesmo.

A nossa crise política, do meu ver, é uma crise no ser humano. Na nossa falta de capacidade de compreender o próximo. De sentir empatia. E talvez, até, na nossa mania de só dar valor ao que conseguimos a duras penas.

Mas eu confesso que é difícil. E é nisso que eu penso, esperando na parada.

É difícil não sentir raiva, as nove horas da noite, aos nove graus, é difícil não sentir raiva dessas pessoas que tem todas as oportunidades do mundo e de mãos beijadas - enquanto a gente precisa correr atrás de tudo e, mesmo assim, às vezes não conseguir nada.

É difícil aceitar de bom grado que o mundo é injusto e que tem gente que defende a perpetuação de toda essa injustiça, se escondendo atrás de uma ideologia política ou outra.

Vocês que não viveram, podem não entender. Mas é, definitivamente, algo que da raiva. Porque vai além de política. Porque é sobre humanidade.

Ou a falta dela.

domingo, 15 de maio de 2016

Um mágico, um enganador e o enganado

Eu não entendo muito de mágicos, então corro o risco de já começar falando besteira, mas eu acredito que a principal necessidade de um mágico de sucesso seja uma platéia que queira se deixar enganar. Uma plateia que já chegue pronta para ver coisas incríveis e inacreditáveis, distraída demais com os fogos de artifício para perceber a verdade por trás de todos os truques.

Enganar alguém, na verdade, depende muito da pessoa a ser enganada. Porque, às vezes, a gente faz tudo para os outros nos enganarem. A gente confia em pessoas que quebraram nossa confiança todas as vezes possíveis. A gente aceita a palavra de quem é acostumado a mentir. A gente se deixa levar pelos futuros do pretérito que as pessoas tão belamente descrevem para nós.

Como poderia ser. O que elas teriam feito. Como elas seriam.

E como é fácil se deixar enganar por discursos assim. Como é fácil se deixar enganar por quem só fala de hipóteses que já não podem, nem nunca poderão, se tornar realidade. E como deve ser fácil enganar os outros desta forma. Fazer essas promessas lindas sobre esses futuros maravilhosos que nunca poderemos conhecer. Quem engana sabe exatamente o que dizer. Porque se pudesse voltar no tempo, ele sempre mudaria tudo. Se ele soubesse do que agora ele sabe, todo o passado teria sido diferente e agora o presente seria perfeito e o futuro melhor ainda. Uma pena, de fato, que as coisas não foram assim.

O problema de quem engana, neste caso, é como podemos facilmente desmascará-los. Tão fácil quanto passar manteiga em pão quente. E, às vezes, sem nem realmente querer. Nós os desmascaramos tentando alcançar os sonhos que eles colocaram em nossas mentes. Tentando trazer de volta o que o passado tornou impossível alcançar. Nós os desmascaramos ao lhes dar a chance de fazer no presente o que eles prometiam que teriam feito no passado.

E é então que o castelo de cartas cai. E as tempestades começam. E nada é tão simples assim. E existem tantos e tantos motivos a serem levados em consideração. E quem engana perde seu discurso e quem quer ser enganado perde seu chão. Porque o truque é revelado.

E um mágico que revela seus truques, perde seu encanto maior. Não existe mais magia em seu mundo. Apenas um grande enganador. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sobra A Vida Ser Uma Versão Mais Estúpida dos Escritos de Douglas Adams

Eu queria tanto ser tantas coisas que eu nunca vou ser. Eu queria ter a habilitada para me metamorfosear em alguém totalmente diferente, só para não precisar ser eu mesma. Porque, no fundo, eu sinto que a vida é que nem uma série do Douglas Adams. Nunca faz muito sentido, mas na mesma medida que o início é ótimo e empolgante - o restante é apenas confuso. E eu ando meio cansada de estar confusa.

Eu sinto que perdi o controle de boa parte da minha vida. E a pessoa que acorda todos os dias de manhã me lembra apenas vagamente a pessoa que eu costumava ser. E eu vejo poucos vestígios da pessoa que eu gostaria de ser. E isso me incomoda de maneiras que me fazem pensar que talvez eu não tenha mudado tanto assim.

Talvez eu seja apenas muito neurótica e um pouco maníaca por controle. E ver a vida simplesmente tomando seus próprios rumos me assusta bem mais do que eu gostaria de admitir. E me ver fazendo escolhas que eu nunca imaginei fazer. E me ver abrindo mão de coisas que eu nunca imaginei ser capaz de desistir. E me ver como eu sou.

Isso assusta.

Assusta perceber que eu nunca me conheci. Perceber que eu ainda não me conheço. Perceber que isso é ainda mais confuso que um livro do Douglas Adams. E sem as tiradinhas engraçadas, para quebrar a completa loucura. E sem uma resposta mágica para a vida, o universo e tudo mais. E, bem, até mesmo sem uma toalha.

A vida é só um nó infinito que parece ser impossível desenrolar. 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Not Another Happy Ending - Ou Como Ver a Amy Pond Como Escritora Me Faz Muito Feliz


Já faz um tempo (mas bastante tempo mesmo) que eu descobri um filme com a Karen Gillan, a.k.a. Amy Pond do melhor seriado de todos, a.k.a. Doctor Who, e resolvi fazer download dele para um momento sombrio e solitário que pedisse por um bom filme. Eis que uns dias atrás faltou luz na minha casa e o derradeiro momento chegou.

Sem-tantos-spoilers-assim: o filme, "Not Another Happy Ending", conta a história de uma escritora chamada Jane Lockhart (interpretada pela Karen Gillan) que finalmente, depois de muitas recusas (e um quadro da dor!) consegue uma editora para publicar seu primeiro romance.

O editor que acredita no livro dela, passa a ajudá-la a revisar toda e história e até aí
é tudo muito bom e bonitinho com música de fundo animada e tal. Mas ele comete o pecado mortal de mudar o título do livro dela e Jane decide odiá-lo por toda a eternidade. E a partir daí: tã-dã! As coisas começam a acontecer.

Porque o livro de Jane é um sucesso. Ela começa a namorar um roteirista famoso. Volta a se relacionar com seu pai. Jane está feliz! Mas quando Jane está feliz ela não consegue escrever. Assim, o editor dela decide fazer a vida dela voltar a ser miserável - única maneira para ela terminar de escrever seu segundo romance.

Tanto as tentativas de Jane para terminar com seu bloqueio e voltar a escrever - quanto as tentativas de seu editor de fazerem sua vida voltar a ser triste, são hilárias. Vale desde estragar a plantinha dela até conversar no banheiro com o protagonista fictício do próximo livro de Jane. Ainda sobra espaço para humor negro. Para um francês furioso xingando em francês - como se fosse possível dizer algo ruim, em uma língua tão bonita! E para um final bem clichê, mas fofinho.

Enfim. Eu adorei o filme, ainda mais para um momento de desespero do tipo "estou-sem-luz-ventilador-e-internet-em-casa". É bem engraçado, a trilha sonora também é bonitinha e as roupas da personagem principal são super engraçadas. Mas, confesso que voltar a ver a Amy Pond (mesmo sabendo que não era a Amy Pond!) e, mais do que isso, ver ela em um papel legal como o de uma escritora foi muito, muito divertido. Metade dos pontos do filme por isso!

Assim como Stuck in Love (do qual eu escrevi no outro dia a respeito), é um filme engraçadinho e legal de assistir em uma tarde nas férias - mas é ainda mais legal (tipo triplamente melhor) se você também quer ser um escritor - ou tem um gosto especial por comédias românticas bonitinhas e um tanto inusitadas. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Aos Verdadeiros Egoístas: Minha Inveja

Um dos momentos mais marcantes da minha infância aconteceu dentro de um ônibus, indo para a casa da minha avó. Eu estava lá, sentada bem feliz, perto da parada do 25 de Julho, quando uma mulher entrou e eu pensei:

Ela também está viva. Ela também tem uma casa. Uma família. Talvez um cachorro. Ela também viveu ontem. E antes de ontem. E antes do antes de antes. Ela viveu até mesmo antes de mim.

Isso arrasou com toda a concepção do mundo que eu tinha até aquele momento. Até então tudo tinha girado em torno do Mundo Mágico de Bibiana. Mas ali, naquele instante, reconhecendo que aquela pessoa totalmente desconhecida também estava viva, que ela também tinha todas essas coisas dentro de si, que ela também tinha seus pensamentos e seu mundo e que era eu nada mais do que uma figurante desapercebida no plano de fundo de sua vida. Naquele momento eu me perdi para sempre de quem eu era ou poderia vir a ser.

Eu tenho uma inveja relutante das pessoas que são capazes de viver suas vidas sem nunca se darem conta do universo que as cerca. Eu tenho uma inveja das maiores do mundo dessas pessoas que andam na rua sem olhar para os lados, como se soubessem exatamente onde estão, o que querem e como vão pegar isso. E não sobra uma vírgula para qualquer outro ser. Elas vão, fazem o que querem e saem andando de volta as suas vidas, sem se preocuparem com os danos colaterais. Como eu tenho inveja dos verdadeiras egoístas!

Porque um verdadeiro egoísta consegue excluir todas as incógnitas de sua equação. Não existe espaço para culpa na mente de um verdadeiro egoísta, pois ele sempre estará preocupado demais com sua vida, com suas possibilidades, com seu bem estar, para sequer lembrar da existência das outras pessoas do universo. E um egoísta não faz nada por maldade. Ele simplesmente responde apenas ao seu próprio bem.

Eu tenho inveja dos verdadeiros egoístas, sim. Mas eu já não tento imitá-los. Eu perdi essa chance ainda na infância, quando sem querer me dei conta do mundo a minha volta. Notei o resto do Universo e perdi para sempre minha chance de verdadeira paz nessa vida. Olhei para os lados em um mundo onde eu deveria apenas olhar para frente. E desde então o que eu sinto não se traduz em letras, não se conta em palavras.

Porque cada uma das vezes que eu fui egoísta. Cada maldade minha. Cada pequeno e grande ato de algo ruim que eu fiz aos outros, me persegue. Meus pecados me perseguem noite e dia. E eu fecho os olhos e sinto que deveria estar sendo punida. E eu abro os olhos e não vejo uma pessoa boa no espelho do banheiro. E isso me perturba. E isso me persegue. E a minha inveja apenas cresce.

Como eu tenho inveja do sono fácil dos verdadeiros egoístas!

Meu Dragão Reinaldo

Uma vez eu tive um dragão chamado Reinaldo. E como eu gostava de Reinaldo!

Ele apareceu no meu jardim em uma quinta-feira pela manhã, sem nenhum aviso prévio, mãe ou endereço de devolução. Só aquela criaturinha, ainda tão pequena e frágil, na porta da minha casa, estragando a grama do jardim. Fiz o que precisava fazer e a partir daquele dia comecei a cuidar de Reinaldo.

Tinha olhos grandes, meu dragão (pois o tomei logo, possessivamente, como meu). Era inverno e ele se enrolava em meus pés para dormir. Gostava que eu enchesse a banheira, onde ele mais brincava do que se banhava. Reinaldo me seguia onde eu fosse. Reinaldo olhava filmes comigo. Reinaldo sentava ao meu lado a cada refeição, sua cabeça em meu colo, seus grandes olhos fechados e todo seu ser emanando satisfação.

Como eu gostava de Reinaldo!

Reinaldo cresceu rápido. Seu quarto logo já era assunto de discussão e precisamos invertê-lo com o meu. Reinaldo já não dormia comigo, mas tinha tomado minha cama de casal apenas para si. Reinaldo escolhia seus próprios filmes e eu fui relegado a pequena e antiga TV do menor dos quartos. Reinaldo passou a sair todas as noites e meus jantares eram solitários e escuros.

Mas como eu ainda gostava de Reinaldo!

E o pior ainda estava por vir.

Pois Reinaldo agora entendia o afeto que eu lhe tinha. Reinaldo sabia que eu nunca o machucaria. Reinaldo sabia o quanto eu o amava. Mas Reinaldo era mau. Reinaldo entendeu seu poder e passou a abusar dele. Reinaldo queimava meus pertences. Mordia meus sapatos. Destruia meu sofá. Reinaldo quebrava as cadeiras. Reclamava do espaço. Reinaldo reclamava de mim.

E apesar de tudo, como eu gostava de Reinaldo!

Não sei porquê. E tampouco creio que ele soubesse. Talvez naquele primeiro olhar que lancei a criatura nova em meu jardim, eu já tenha lhe entregado meu afeto. Talvez seus olhos grandes tenham me conquistado naqueles primeiros meses bons. Talvez eu simplesmente gostasse tanto de Reinaldo. Gostasse dele. Independente de sua maldade e do mau que ele me afligia. Eu gostava de Reinaldo. O conjunto inteiro do dragão que um dia deitara sua cabeça em meu colo e em outro arranhou minhas pernas e braços até me fazer chorar. Eu gostava dele.

Mas mesmo sabendo que eu nunca lhe negaria nada e que meu amor nunca chegaria ao fim, Reinaldo logo se entendiou de nossa vida em minha pequena casa com um jardim. Reinaldo fez suas malas e se foi, sem aviso prévio, sem endereço para cartas, sem um obrigada por tudo que eu lhe tinha feito. E me disseram que eu finalmente deveria ser feliz, pois me livrara do maior mal de minha vida.

Pouco sabiam eles: nada que Reinaldo fez me afligiu tanto como a angústia de sua partida. Porque mesmo ao fim de tudo, como eu ainda gostava dele!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Magnus Chase - Ou como o Tio Rick é Demais!



Eu ainda me lembro do dia que comprei "O Ladrão de Raios" na livraria do shopping, meio curiosa, meio animada, não sabendo muito da história além de que falava de mitologia grega nos dias atuais. Desde lá, mais de cinco anos se passaram. "Percy Jackson e os Olimpianos" chegou ao fim, com o final mais épico do século XXI. Os romanos apareceram com o Jason Grace, em "Heróis do Olimpo". No meio disso tudo, apareceram uns egípcios também. Mais um monte de livros extras. E, finalmente, agora o glorioso Tio Rick visitou a mitologia nórdica.

E a verdade é essa: são livros bobinhos. São livros muito bobinhos. São cheio das piadas mais infames, dos personagens mais sem noção, dos enredos mais sem pé nem cabeça. Mas a verdade? Eu adoro que seja assim. Eu adoro pensar em um Poseidon com uma camiseta havaina. Eu amo um Hermes Hi-Tech. Eu morro de rir com o Octavian sacrificando ursinhos de pelúcia para ler o futuro. Que seja bobo, bobo de verdade mesmo! Às vezes eu tenho a forte impressão que a gente se leva a sério demais mesmo. 


Dito isso, fique claro que "Magnus Chase" é incrível. O início dos "Heróis do Olimpo" não me animou tanto. Esse novo livro, "A Espada do Verão" me lembrou muito do primeiro - do "Ladrão de Raios". É bom ter um personagem central e conseguir acompanhar ele (nada tão contra múltiplos pontos de vista, o ruim é que alguns personagens às vezes vão sumindo, nesses casos). E o próprio Magnus é demais; ele assiste Doctor Who, se parece com o Kurt Cobain e lida extraordinariamente bem eventos de vida ou morte (principalmente morte!). 

A história já começa extremamente bem, com o Magnus morrendo. E nem é spoiler de verdade, porque ele conta isso na primeira página! A partir dai, as coisas ficam cada vez mais interessantes. Elfos e anões se revelam. Valquírias aparecem. Os segredos da família do Magnus vão sendo decifrados, E, o mais legal: a ação nunca para. Os capítulos se passam de uma luta mortal para uma batalha mortal para uma fuga impossível para mais uma reviravolta para mais uma luta e assim vai até você nem conseguir mais respirar direito, de tanto prender o fôlego. Ufa! 

Mas a ação é daquele jeito a la Rick Riordan mesmo: lutas com brinquedos de plástico, patos de ouro sem utilidade nenhuma, meleca de gigante melecando os personagens. Às vezes eu acho que ele escreve com o seguinte princípio: nunca, jamais e sobre hipótese nenhuma perca a chance de fazer uma piada. 

Por outro lado, assim como era forte em "O Ladrão de Raios" a relação entre o Magnus Chase e a mãe dele é muito importante na história. Durante todos os livros do Tio Rick, na verdade, a importância da família é um assunto recorrente. E por trás de todo o humor e alegria e aventura, o livro vai fazendo grandes críticas a nossa sociedade atual, desde uma comparação com o mundo dos Elfos, onde atualmente ninguém mais faz magia ou qualquer coisa de bom - só assistem televisão - até pequenas alfinetadas sobre a vida dos sem teto. Dessa forma, a história continua sendo leve e divertida, mas também dá uns tantos para se pensar depois de terminar a leitura.

O melhor de "Magnus Chase" ainda fica para o final. Depois de uma história magnífica e divertida, você está pronto para fechar o livro e ir pesquisar sobre quando o próximo será lançado. Mas então: taaa-dãã! E a reviravolta final é feita. E agora você precisa reler todo o livro de novo, para entender mesmo a história. Mas a parte boa? Vale muito a pena, ler tudo quantas vezes for - e mais uma vez, só para rir ainda mais das piadas.


P.S.: Não é preciso ter lido as séries anteriores para entender a história, mas tem alguns easter eggs que são um verdadeiro presente para os fãs de carteirinha. 


P.S. 2.: Se você, como eu, não conhecia muito da mitologia nórdica, um bom complemento é a leitura de "As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica e o Anel de Nibelungos". 


É um livro mais-ou-menos rápido de ler, com vários contos da mitologia nórdica - que explicam desde a criação do mundo até os últimos dias do mesmo. As histórias são todas muito engraçadas também e as inspirações do Tio Rick se tornam claras em algumas das histórias. E o Thor e o Loki são hilários!

Além disso, a metade final do livro é uma versão romantizada de "O Anel de Nibelungos". A história em si é interessante e divertida, mas, principalmente, é possível perceber em tantos e tantos momentos de onde o Tolkien buscou suas ideias para "O Senhor dos Anéis" - basicamente, a bíblia dos livros de literatura fantástica.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mariana

Ainda me lembro da primeira vez que eu a vi.

O pai trazia-lhe pela mão e me apresentou à ela, apesar de não ter imaginado ser preciso também apresentá-la à mim. Mas a isto eu estava habituado. Também estava acostumado ao que viria a seguir. O olhar temeroso e fascinado ou talvez o descaso calculado, daqueles que nunca querem se deixar impressionar. Talvez medo. Talvez curiosidade. Tantas pessoas, tantas reações, mas dificilmente alguma novidade.

A verdade, entretanto, era que ela era muito nova e eu muito velho. O que significava que eu achava que muito sabia, mas que ela sabia melhor. E foi o que aconteceu, pois eu não estava preparado para aquele olhar. Um olhar que me perseguiu por anos, pois eu ainda me lembro de todas as vezes que a vi.

Me lembro de sua meninice, de observá-la brincar e correr à minha frente, algumas vezes até me incluindo em suas brincadeiras. Mas eu era forte e temperamental, então seus pais sempre vinham junto, a protegê-la. Me recordo de seus primeiros passos como uma moça, seu andar mais equilibrado, seus cabelos mais longos, seus sorrisos mais difíceis de serem conquistados. E me lembro de quando ela veio acompanhada.

A dor. A raiva. A vontade de arrancá-la daqueles braços mais cálidos dos que os meus. A verdade é que eu já a amava. A amava desde a primeira vez que vi seus olhos mais escuros que a noite, que não refletiam minha imagem: a absorviam. Como se ela tivesse me pego pelas pontas, dobrado em pequenas partes e escondido dentro do bolso de seu casaco amarelo.

E eu, que era tão orgulhoso da minha própria magnitude, me senti pequeno. E eu, tão conhecido por nunca me conter, me senti acanhado. Me senti atrapalhado. Me senti tão pequeno quanto um dos grãos de areia que se estendiam abaixo de mim. O que era insano e inacreditável, mas que era o que acontecia, todas as vezes que ela me olhava. Quando seus olhos de pedaços da noite se lançavam sobre mim. Me intimidavam. Me mudavam.

Tantos vieram na companhia dela e tantas vezes ela veio até mim, sozinha. Mas em todas as vezes, eu me surpreendia. Faltava em seus olhos o assombro, que eu esperava, o medo, o mínimo respeito e temeridade. Ela era, desde tão pequena, tão cheia de vida e de certezas e tão dona de si mesmo, que ela nunca me olhou assim. Como todos os outros me olhavam.

Contudo, ela vinha e me deixava e eu nunca pude acompanhá-la para além do meu lugar. E com o tempo, porque as coisas são assim, vi seu olhar começar a quebrar. Sua coluna vacilar. Eu vi a vida, a dura vida que o mundo impõe a alguns, começar a apagar seu brilho.

Não pude vê-la daquela forma. Então, quando ela veio até mim, seu olhar vacilante, seus cabelos já tingidos pelo tempo, eu me lembrei de seu primeiro olhar e a chamei para mais perto e a puxei para meus braços gélidos. Ela não tentou resistir.

Seus olhos de meia-noite vieram cada vez mais para dentro dos meus confins, as ondas cada vez mais altas, minha vontade de abraçá-la cada vez mais forte, a água salgada lavando a alma da menina que eu nunca esquecerei.

Até que eu a afundei em minhas águas e a afoguei dentro de mim.

Stuck in Love - Sobre Amor, Livros e as Estranhas Relações Entre as Pessoas


A primeira vez que eu me deparei com "Stuck in Love" foi através de uma publicação sobre sua trilha sonora, no Tumblr. O que, na verdade, eu achei um ótimo sinal porque: 1. eu amo o Tumblr e 2. eu adoro filmes com uma boa trilha sonora. Então, basicamente, eu já estava bem esperançosa bem antes de ver o trailer.

Mas então eu assisti ao trailer.

E, poxa, minha vida tinha um novo objetivo: eu precisava ver esse filme. Porque todas as pontas se encaixavam, na minha mente, e ali estava um filme com alguns dos meus atores preferidos (verdade seja dita: eu não resisto ao bonitinho do Logan Lerman), aparentemente engraçado, com aquela pitadinha de drama indispensável, mas, principalmente, um filme sobre escritores.

Foi quase como se tivessem feito um filme especialmente para mim. Nos meus momentos mais egocêntricos, parece uma teoria quase plausível.

Mas, é claro, é fato conhecido que na República dos Trailers muitos milagres são realizados e não seria a primeira vez que um trailer interessante poderia professar duas horas de dor e indigestão para o telespectador. Então tentei manter a calma e fui assistir ao filme.

E já na primeira cena todas as minhas dúvidas foram sanadas. Os primeiros instantes do filme apresentam um por um os personagens do trio principal, que compõem a história: uma família vagamente disfuncional (como todas as famílias, na verdade). 


Tudo começa com o Nat Wolff (que todo mundo está cansado de conhecer, depois das adaptações dos livros do John Green) com a incrível frase: "I remember that it hurt. Looking at her hurt."

No próximo instante, a história muda abruptamente para Lily Collins, com um discurso todo filosófico e cheio de significado, que de repente se transforma numa afirmação direta para o garoto desinteressado à sua frente: "We both want the same thing, to go back to your room, have sex, and never see each other again. Are you with me?". Alguma dúvida da resposta dele?

E, por fim, lá está Greg Kinnear, fechando as apresentações, com sua tentativa patética (mas hilária) de espionar sua ex-esposa.


Depois disso, vem uma cena animada (e com uma trilha sonora incrível!) mostrando como esses três personagens tão diferentes se relacionam. E, a partir dai, você começa a se envolver na história dessa família e entender melhor as coisas que os ligam (como os livros, a vontade de serem escritores, a necessidade de escreverem e, é claro, o amor) e as coisas que os separam (como o medo, os ressentimentos, a raiva). 

E, como a cereja desse bolo gigantesco, o filme ganha mil pontos comigo por falar (e muito!) sobre os livros e sobre o que é ser um escritor. Desde conselhos radicais de um pai escritor para um filho que busca a mesma carreira, até um discurso magnífico já para o final, sobre essa coisa louca e apaixonante que é escrever. Me parece um filme indispensável para quem está também nesse mesmo barco furado, precisando muito escrever, querendo muito — mas nem sempre encontrando o caminho tortuoso rumo a realização.


Mas, também, o filme é incrível por criar tão bem relações tão diferentes entre os personagens. Desde um amor de High School até uma relação longa de um casamento cheio de percalços. A relação entre um pai e seus filhos. Entre irmãos. É um filme sobre amor, sobre todos os tipos de amor. E também é um filme que mostra bem como o amor pode e muda sim a vida das pessoas. E que, por mais que a gente tente, é impossível escapar para sempre dele. Afinal, estamos todos a certo ponto "Stuck in Love".

domingo, 31 de janeiro de 2016

É Fim de Janeiro

É fim de janeiro. 

Eu pretendia escrever mais, mas no final escrevi apenas aquelas coisas que escrevemos apenas a nós mesmos. Aquelas a quem ninguém mais interessam, os retalhos dos pensamentos que nos perseguem durante os dias. Aquelas coisas cheias de raiva. De amor. De surpresa e aflição. Aquelas coisas esperançosas e difíceis de entender. Impossíveis de entender.

É fim de janeiro.

Eu fiz o vestibular. De alguma forma eu passei no vestibular. E eu me pergunto muito até que ponto foi justo eu passar, e até que ponto eu devo mesmo me questionar, e me pergunto porque o mundo sempre complica tudo. Ou porque eu sempre complico tudo que o mundo me dá. 

É fim de janeiro.

E eu estou cumprindo minhas metas do início do ano, o que é uma surpresa e algo sem precedentes. Minha vida, de uma forma geral, está andando exatamente para onde eu escolhi que ela andasse. Mas eu me perturbo tanto! Me perturbo com a ideia, com a semente da ideia, com aquela dúvida fundamental - o quanto eu realmente escolhi esse destino, e o quanto eu deixei que o escolhessem por mim?

É fim de janeiro.

E o início de mais um ano vai chegando ao fim. E me sobram dúvidas e me faltam respostas. E aqui está quente e lá fora chove. E eu queria saber mais sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre como agir em tantas situações que a vida me coloca. E eu não sei.

Eu simplesmente não sei. E essa ignorância não tem nada de santa.