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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Amor Nos Anos Dez

Prólogo: 

Joana aceitou seu pedido de amizade. 


O primeiro ato:

Joana curtiu sua foto de perfil.

Tiago está digitando.

Mensagem visualizada. 

Tiago comentou sua publicação. 

Joana está digitando.


Segundo ato:

Joana está se sentindo ansiosa. 

Tiago está se sentindo feliz. 

Joana fez check-in em Porto Alegre.

Tiago publicou uma nova foto com você.

Joana curtiu sua foto.


Terceiro ato:  

Joana está assistindo “As Idas e Vindas do Amor”.

Tiago está assistindo “500 dias com Ela”.

Joana está se sentindo sozinha. 

Tiago comentou sua publicação. 

Joana está digitando.


Quarto ato:

- Eu preciso de provas.

- Provas do que, Joana?

- Provas sobre a gente. Que é sério. Que você não está brincando comigo. 

- Eu não estou brincando contigo, Joana.

- Então prova, oras.

- Quer que eu prove, Joana? Quer mesmo?


Tiago enviou sua senha do Netflix.


Último ato:

Joana e Tiago estão em um relacionamento sério. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Começo do Meu Fim Com Amélia


Amélia.

Todas as manhãs a mesma paciência velada na hora de arrumar-se. O longo banho. O cabelo. Seca. Penteia. Prende. Solta. Prende de novo. A maquiagem. A maquiagem sempre demora muito. O batom muda de cor todo dia. Ela anda com pressa pelo quarto e xinga os móveis que estão há anos nos mesmos lugares, mas que ela segue tropeçando religiosamente em todas as manhãs. Eu rio.

Amélia.

Que me olha vagamente incomodada, como se lembrando de minha existência - e não, necessariamente, gostando tanto assim dessa lembrança. Eu me levanto quando ela sai do quarto e em menos de dez minutos a encontro na cozinha, pois nem todo mundo tem o cuidado de Amélia ao se arrumar. Mas eu gosto. Ela já se parece com uma boneca antes mesmo de eu tomar meu café. 

Amélia.

Nosso beijo de despedida é quase inexistente. Mas eu insisto, ela não. Amélia agora tem pressa. Caminha para seu dia com uma confiança desconfortante. E eu fico. Eu arrumo o que não foi bagunçado. Perco algumas horas me distraindo com o que não deveria me distrair. Até, finalmente, sentar na frente de meu computador para, teoricamente, começar a trabalhar. Mas escrever nem sempre é fácil. Até que ela volta.

Amélia. 

Vejo pela janela ela descer do ônibus, desanimada. Ela sempre volta cabisbaixa. Como se toda sua força dependesse do sol, e agora que ele se foi, ela está pronta para ir também. Ir para onde? Eu nunca sei. Ela entra pela porta e me lança um olhar fraco e uma saudação que se parece mais com um adeus. De dois desconhecidos. 

Amélia.

Me olhando com o canto dos olhos no jantar. Fugindo de meus braços depois dele. Alegando uma dor de cabeça antes mesmo que eu tente começar a conversar. Se trancando em seu mundo, em sua mente, em seus próprios pensamentos - dos quais eu já não mereço compartilhar.

Amélia.

Deita ao meu lado na cama. Diz um boa noite com ares de obrigação. Vira as costas para mim. E não pela primeira vez eu entendo. Entendo como a cada dia eu gosto um pouco menos dela. A cada olhar desinteressado, a cada pergunta que ela não me faz, a cada pergunta da qual ela foge. Sinto o que tínhamos escapando entre os meus dedos sem que eu possa fazer nada para parar. Para parar o fim que se aproxima.

Amélia.

Dorme ao meu lado, finalmente tranquila. E eu me pergunto se ela sente o que eu sinto. Mas a verdade me perturba. Ela já teve seu fim muito antes que eu. O que a prende a mim não é mais o amor. Ela está comigo por hábito.

Amélia,

Que saudades que eu sinto de quando sua rotina envolvia me amar e que saudades que eu sinto dela ser minha vida.

Amélia.

Ela vai ir embora. E eu não vou pedir a ela que fique. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Meu Dragão Reinaldo

Uma vez eu tive um dragão chamado Reinaldo. E como eu gostava de Reinaldo!

Ele apareceu no meu jardim em uma quinta-feira pela manhã, sem nenhum aviso prévio, mãe ou endereço de devolução. Só aquela criaturinha, ainda tão pequena e frágil, na porta da minha casa, estragando a grama do jardim. Fiz o que precisava fazer e a partir daquele dia comecei a cuidar de Reinaldo.

Tinha olhos grandes, meu dragão (pois o tomei logo, possessivamente, como meu). Era inverno e ele se enrolava em meus pés para dormir. Gostava que eu enchesse a banheira, onde ele mais brincava do que se banhava. Reinaldo me seguia onde eu fosse. Reinaldo olhava filmes comigo. Reinaldo sentava ao meu lado a cada refeição, sua cabeça em meu colo, seus grandes olhos fechados e todo seu ser emanando satisfação.

Como eu gostava de Reinaldo!

Reinaldo cresceu rápido. Seu quarto logo já era assunto de discussão e precisamos invertê-lo com o meu. Reinaldo já não dormia comigo, mas tinha tomado minha cama de casal apenas para si. Reinaldo escolhia seus próprios filmes e eu fui relegado a pequena e antiga TV do menor dos quartos. Reinaldo passou a sair todas as noites e meus jantares eram solitários e escuros.

Mas como eu ainda gostava de Reinaldo!

E o pior ainda estava por vir.

Pois Reinaldo agora entendia o afeto que eu lhe tinha. Reinaldo sabia que eu nunca o machucaria. Reinaldo sabia o quanto eu o amava. Mas Reinaldo era mau. Reinaldo entendeu seu poder e passou a abusar dele. Reinaldo queimava meus pertences. Mordia meus sapatos. Destruia meu sofá. Reinaldo quebrava as cadeiras. Reclamava do espaço. Reinaldo reclamava de mim.

E apesar de tudo, como eu gostava de Reinaldo!

Não sei porquê. E tampouco creio que ele soubesse. Talvez naquele primeiro olhar que lancei a criatura nova em meu jardim, eu já tenha lhe entregado meu afeto. Talvez seus olhos grandes tenham me conquistado naqueles primeiros meses bons. Talvez eu simplesmente gostasse tanto de Reinaldo. Gostasse dele. Independente de sua maldade e do mau que ele me afligia. Eu gostava de Reinaldo. O conjunto inteiro do dragão que um dia deitara sua cabeça em meu colo e em outro arranhou minhas pernas e braços até me fazer chorar. Eu gostava dele.

Mas mesmo sabendo que eu nunca lhe negaria nada e que meu amor nunca chegaria ao fim, Reinaldo logo se entendiou de nossa vida em minha pequena casa com um jardim. Reinaldo fez suas malas e se foi, sem aviso prévio, sem endereço para cartas, sem um obrigada por tudo que eu lhe tinha feito. E me disseram que eu finalmente deveria ser feliz, pois me livrara do maior mal de minha vida.

Pouco sabiam eles: nada que Reinaldo fez me afligiu tanto como a angústia de sua partida. Porque mesmo ao fim de tudo, como eu ainda gostava dele!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mariana

Ainda me lembro da primeira vez que eu a vi.

O pai trazia-lhe pela mão e me apresentou à ela, apesar de não ter imaginado ser preciso também apresentá-la à mim. Mas a isto eu estava habituado. Também estava acostumado ao que viria a seguir. O olhar temeroso e fascinado ou talvez o descaso calculado, daqueles que nunca querem se deixar impressionar. Talvez medo. Talvez curiosidade. Tantas pessoas, tantas reações, mas dificilmente alguma novidade.

A verdade, entretanto, era que ela era muito nova e eu muito velho. O que significava que eu achava que muito sabia, mas que ela sabia melhor. E foi o que aconteceu, pois eu não estava preparado para aquele olhar. Um olhar que me perseguiu por anos, pois eu ainda me lembro de todas as vezes que a vi.

Me lembro de sua meninice, de observá-la brincar e correr à minha frente, algumas vezes até me incluindo em suas brincadeiras. Mas eu era forte e temperamental, então seus pais sempre vinham junto, a protegê-la. Me recordo de seus primeiros passos como uma moça, seu andar mais equilibrado, seus cabelos mais longos, seus sorrisos mais difíceis de serem conquistados. E me lembro de quando ela veio acompanhada.

A dor. A raiva. A vontade de arrancá-la daqueles braços mais cálidos dos que os meus. A verdade é que eu já a amava. A amava desde a primeira vez que vi seus olhos mais escuros que a noite, que não refletiam minha imagem: a absorviam. Como se ela tivesse me pego pelas pontas, dobrado em pequenas partes e escondido dentro do bolso de seu casaco amarelo.

E eu, que era tão orgulhoso da minha própria magnitude, me senti pequeno. E eu, tão conhecido por nunca me conter, me senti acanhado. Me senti atrapalhado. Me senti tão pequeno quanto um dos grãos de areia que se estendiam abaixo de mim. O que era insano e inacreditável, mas que era o que acontecia, todas as vezes que ela me olhava. Quando seus olhos de pedaços da noite se lançavam sobre mim. Me intimidavam. Me mudavam.

Tantos vieram na companhia dela e tantas vezes ela veio até mim, sozinha. Mas em todas as vezes, eu me surpreendia. Faltava em seus olhos o assombro, que eu esperava, o medo, o mínimo respeito e temeridade. Ela era, desde tão pequena, tão cheia de vida e de certezas e tão dona de si mesmo, que ela nunca me olhou assim. Como todos os outros me olhavam.

Contudo, ela vinha e me deixava e eu nunca pude acompanhá-la para além do meu lugar. E com o tempo, porque as coisas são assim, vi seu olhar começar a quebrar. Sua coluna vacilar. Eu vi a vida, a dura vida que o mundo impõe a alguns, começar a apagar seu brilho.

Não pude vê-la daquela forma. Então, quando ela veio até mim, seu olhar vacilante, seus cabelos já tingidos pelo tempo, eu me lembrei de seu primeiro olhar e a chamei para mais perto e a puxei para meus braços gélidos. Ela não tentou resistir.

Seus olhos de meia-noite vieram cada vez mais para dentro dos meus confins, as ondas cada vez mais altas, minha vontade de abraçá-la cada vez mais forte, a água salgada lavando a alma da menina que eu nunca esquecerei.

Até que eu a afundei em minhas águas e a afoguei dentro de mim.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Brutus e Bernardo

Brutus conheceu Bernardo assim que abriu seus enormes olhos cor de ameixa. Naqueles dias, as mãos do menino não eram nem um pouco grandes, mas mesmo assim Brutus conseguia se esconder no meio delas.

Os dois cresceram juntos. Correram juntos. Se esconderam juntos. Criaram confusões pela vizinhança, estragaram o jardim da mãe de Bernardo, ouviram broncas, fugiram de banhos, surrupiaram doces, deitaram no gramado verde do quintal e observaram os verões passarem em dias quentes de sol amarelo.

Até o impossível acontecer.

Bernardo desceu a rua correndo. Um riso solto em seus lábios, a mochila pendurada em um só braço. Os meninos do bairro passaram correndo quando ele parou ofegante na frente de casa. Gritaram um adeus mal-educado. Voltariam a se ver na aula de amanhã.

O menino olhou desconfiado para o portão meio aberto, onde o incansável e incontrolável Brutus não o esperava. Nada de olhos esbugalhados e focinho babado, nada de língua para fora e rabo com vida própria. Não. Só a mãe.

Olhos chorosos. Vontade de estar em outro lugar. Ela lhe ofereceu um pedaço de chocolate e uma explicação. Brutus já não morava mais ali. Depois de roubar um pacote de balas. E de comê-las todas. Depois de se encher da maior alegria e fugir do quintal. E descuidar para o trânsito, para os carros, para as rodas. E, principalmente, para o fato de que não devia ir para baixo delas. Depois de tudo isso, Brutus tinha ido embora.

Estava agora contente no Céu dos Cachorros, onde poderia desfrutar de todos os doces do mundo e passar o dia em brincadeiras de pique-cola

Bernardo ficou inconsolável. Foi para seu quarto e não quis mais sair de lá. Não entendia nada. Como Brutus podia fazer algo assim com ele? Eram amigos inseparáveis desde o primeiro olhar que trocaram. Não existia Brutus sem Bernardo e não existia Bernardo sem Brutus. Não deveria existir.

Como podia o seu amigo lhe trocar por um céu qualquer?

Mas então Bernardo começou a pensar sobre o que a mãe tinha lhe contado. Sobre a promessa de doces sem fim. Sobre um lugar de brincadeiras infinitas. Um lugar melhor. Bernardo olhou pelas nuvens lá fora, emolduradas pela janela, e soube. Se Brutus tinha tido coragem, ele também iria ter.

Quando a mãe foi visitar a avó na casa ao lado, Bernardo colocou seu plano em ação. Escalou a laranjeira do jardim. Foi até o galho mais alto. Por um instante se assustou com a altura, com o vento, com seu próprio medo. Mas deixou isso tudo de lado: tinha um plano a seguir.

Tomou um impulso e se lançou ao céu.


Bernardo, é claro, só não contava com a força da gravidade.

No caminho para o hospital, com um braço possivelmente quebrado e uma mãe certamente zangada, o garoto só tinha um ressentimento: Brutus tinha o abandonado e o danado nem tinha se dado ao trabalho de primeiro lhe contar onde tinha aprendido a voar.

Ou ao menos indicado o caminho certo para o céu.

sábado, 16 de agosto de 2014

O Segredo de Dorothy

Era um velho senhor, que vivia em uma velha casa, com suas roupas velhas e histórias mais velhas ainda. E eu, como toda a boa criança deve ser, vivia com uma curiosidade que me transbordava, enchia a garganta e escapava pelos lábios nas horas mais impróprias. E por horas impróprias, entenda metade dos momentos em que eu deveria estar nas aulas de ballet que minha mãe insistia que eu participasse. Porém, como poderia quando os olhos dele brilhavam a cada história contada, seu rosto rejuvenescia anos sem fim e eu via por minutos, por horas, brilhando como novas aquelas histórias que haviam sido soterradas pelo tempo, mas que eram cordialmente desenterradas para mim?

Era um velho senhor e como todo velho senhor era cheio de suas manias. O chá sem açúcar, o mesmo par de sapatos surrados, as constantes reclamações em relação a mim - e a todas essas crianças que parecem não ter mais o que fazer do que incomodar os outros. Não o entendam mal, era apenas ranzinza. Ranzinza como é pressuposto que um velho senhor seja. Contudo, até isso me fascinava, como se aquela mistura de raiva com a amistosidade de seus olhos fosse o grande mistério do mundo. Talvez só não quisesse mostrar o quanto gostava das minhas visitas. Esses velhos senhores têm disso, negam sua solidão tanto quanto as sentem, ao ponto de prenderem-se a elas com o mesmo afinco que as odeiam. 

Tenho certeza de que gostava de me contar histórias tanto quanto eu gostava de ouvi-las. Me comprava biscoitos de chocolate, que deixava como quem não quer nada sobre o balcão - não haviam convites, não haviam ofertas, mas haviam os biscoitos dispostos em um prato de porcelana descascado e os olhos brilhando a cada nova história. Os meus e os dele. Os olhos eram o que o traiam. As feições podiam ser fechadas, a voz transparecia raiva, os gestos mostravam irritação. Porém os olhos não deixavam dúvida, eram portas para seu coração.

Sinceramente, contudo, eu também não era nenhum exemplo de doçura ou qualquer uma dessas qualidades que minha mãe classificaria como extremamente importantes e necessárias em uma boa menina. Por isso, acreditava que éramos um bom time. Dois solitários, dois estranhos ao mundo e suas convenções, compartilhando pedacinhos de um passado distante. Sentada perto da janela, em uma cadeira empoeirada, eu o ouvia contar sobre tempos distante. Tempos em que o leite era entregue a domicílio, as pessoas levavam listas prontas para a mercearia e ninguém assistia televisão.

Para meu horror, ele sempre afirmava: nem ao menos existiam televisões! Contava sobre meninas de outras épocas, com seus vestidos e meias de seda - tão diferentes de minhas calças jeans já totalmente destruídas pelo uso indiscriminado. Falava sobre a dificuldade em tirar fotos e como as pessoas realmente escreviam cartas. Essas eram as histórias curtas, as pequenas pinceladas que ele aos poucos revelava, criando uma realidade que me fascinava e surpreendia. 

Existiam dias, porém, em que seus olhos brilhavam mais e em suas palavras  me contava pequenas aventuras de um menino que ele certa vez conhecera, um menino que jamais deixara de ir a uma aventura. Aventuras que podiam ser decidir fugir de casa ou entrar em ônibus desconhecidos, pronto para desbravar o grande mundo que se estendia a sua frente. Um menino com travessuras que eu gostaria de ter presenciado. Um menino que eu considerava um amigo. Meu melhor amigo.

Naquele pequeno verão que compartilhamos, lembro-me de uma vez criar coragem e perguntar o que ele desejaria, se pudesse ter o que quisesse. Como se pego de guarda-baixa, ele se permitiu um sorriso enquanto me avaliava de alto a baixo. E me contou, da maneira que conta-se um segredo: "Um arco-íris" disse ele, "um grande arco-íris que jamais desapareça. Para que todos nós possamos ir até o seu fim e lá encontrarmos nosso tesouro".

Naquele momento eu reconheci o meu amigo das histórias em baixo de todas as rugas e marcas do tempo e quando ele devolveu minha pergunta, eu não exitei em responder: "Gostaria que o você fosse meu amigo." Seus olhos encheram-se com o tipo de emoção difícil de descrever e, mais surpreendente, como um inverno rigoroso que chega ao fim, foi como se todas as suas feições se descongelassem. Então,  com algo muito perto de carinho, ele me respondeu:

-Não lhe parece injusto que seu pedido seja realizado e o meu não? - E o abraço que lhe dei não teve nada de gelado. Neste instante, em uma explosão de energia, ele pegou um lápis em uma gaveta e rabiscou um desenho na parede da própria casa. Assustada, me aproximei e o que vi preencheu meu coração da mais pura alegria. -Pronto, ele disse, acabei de encontrar o tesouro mais valioso do mundo.

E, enquanto eu olhava o pequeno arco-íris torto rabiscado na parede, não pude deixar de concordar com ele, aquele velho senhor, com suas velhas histórias e velhas manias. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

B - Side

É um pouco como o Assassinato Terrivelmente Lento Com Arma Extremamente Ineficaz, gostar de alguém que não gosta de ti. É como bater o dedinho na quina da mesa. Ou tomar banho gelado no inverno. Ver alguém que você gosta com outra pessoa, então, é como quando você deixa o pão cair e inevitalmente a parte com a manteiga cai pra baixo. Ou quando você precisa de seis pra ficar na média e acaba com cinco e nove. É como chegar na parada cinco segundos depois do ônibus partir.

Porque, invariavelmente, você só vai perceber o quanto gosta de alguém quando perder ela. Quando ela se mudar para o outro lado do mundo, quando vocês pararem de frequentar o mesmo colégio. Quando ela arranjar um novo amigo, quando ela te trocar por um namorado. Quando ela decidir que você não é bom o suficiente pra ela e sua nova vida requintada. Porque agora ela é requisitada. E não pode mais ser vista com um cara que faz rimas ruins e usa metáforas um tanto inusitadas. 

Inusitadas como você costumava ser. Inusitada como uma manhã de feriado, aquele sentimento depois de acordar, depois dos três segundos de pânico por pensar "puta merda, acordei atrasado", você era o que vinha depois. Tua presença tinha aquele ar de alívio, tua presença me trazia aquela felicidade despreocupada por lembrar que "poxa, hoje não tem aula". Teus sorrisos, então! Eram noite de Natal. E teus abraços eram presente de aniversário. 

Agora é um pouco como lembrar de quando éramos crianças. É um pouco como quando a gente diz "ah, como eu queria ainda ser criança". A gente adora esquecer que a nossa brincadeira preferida era fingir ser adulto. A gente ainda podia fingir e dizer que era brincadeira. Agora a gente finge que é adulto, mas ninguém mais ri. "Agora não é pra levar na brincadeira, cara." Foi isso que você disse, não? "Isso aqui é v-i-d-a. Para de levar na brincadeira". E eu achando que você sentia falta das brincadeiras. Mas nem era, sabe. Era eu sendo verdadeiro e você encontrando motivos pra rir (ou não rir) dos meus sentimentos. Mas eu preciso pensar que é como lembrar de quando éramos crianças. 

Nunca foi tão bom. Você nunca foi tão linda. Exceto pela parte que você era. Ou hoje é. Hoje você é  linda no meu passado. Linda correndo comigo pela rua. Brincando de ser adulta, brincando de ser só você. A menina da casa ao lado. A menina dos olhos esbugalhados. A menina, só. O problema é que nunca existiu outra como você, nem nunca existirá. O problema é que primeiro amor só tem um. E primeira menina que deita comigo no gramado de casa, também, só tem uma. E primeira menina que não me olha nos olhos e me pede por uma definição é e sempre será você e só você. 

É meio como chegar na aula e descobrir que tem prova. E você nunca sabe a matéria direito. Ou quando tua mãe pergunta se você fez o que ela pediu, mas você nunca lembra dela ter pedido algo. É difícil você chegar querendo respostas para uma pergunta que eu nem sabia que você podia fazer. Meus sentimentos? Guardo eles numa caixa e quanto menos eu mexer lá, melhor. Meus sentimentos em relação a ti? Eu nunca diria que teu sorriso é como uma noite de Natal. 

Porque isso é como dizer a tua mãe que você ama ela. Porque ela sabe disso. Deveria saber. E você sabe que ela sabe. E ela sabe que você sabe que ela sabe. Mas você não vai dizer exceto em casos de vida ou morte. Porque é simplesmente estranho. É como quando teu pai vem te explicar que a droga dos bebês não vêm da cegonha e sabe do que mais, talvez um dia você não queira ter um bebê mas possa fazer algo parecido com - EU NÃO QUERO OUVIR O RESTO PAI. É simplesmente estranho demais. Mesmo que faça parte da vida. Mesmo que seja verdade. Não é algo escutável ou dizível. 

Então eu acho que é meio como o Darth Vader chegar e dizer para o Luke "oi, sou seu pai" você simplesmente vir e querer uma resposta. Não é algo que se faça. Não é algo que se deva fazer. É errado. Deve estar num lugar da Bíblia, dos mandamentos ou de Hogwarts, Uma História um verbete que diga isso. Que diga "é totalmente errado e imoral chegar no teu vizinho e perguntar se ele te ama". E é mais errado ainda achar que sabe o que ele quis dizer, só porque não disse nada. 

Porque achar que sabe que entendeu meu silêncio é como ser uma daquelas menininhas que leem Sylvia Plath e só porque ela se matou acham que ela está sendo toda profunda e verdadeira. É como olhar pra um quadro de arte contemporânea e ter arrogância o suficiente pra achar que sacou tudo. Surpresa, surpresa, você não entendeu nada. Nadinha. Mesmo. Nem uma droga de vírgula que deve estar no lugar errado. Porque as vírgulas nos meus textos são como eu na vida. Sempre no lugar errado, na hora errada.

Mas por que perder tanto tempo com um texto quando você está lá, tão feliz com outro alguém? É meio como o epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Não tem nada de substancial. Toda a parte importante da história já foi resolvida. Mas a JK não poderia simplesmente terminar a história assim, sem mais nem menos. Então ela enche cinquenta linhas de coisas interessantes, mas que não mudam nada.

Não que você seja como Harry Potter. Deus sabe que nem eu faria uma comparação tão ruim. Porque a verdade é que eu te amo hoje, mas Harry Potter eu amarei pra sempre. 

E, desta vez, eu até deixo você ficar irritada com minha resposta.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Rafael

Quando eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, minha mãe se foi. Não o tipo "mamãe-foi-para-uma-viagem-especial" que os adultos falam quando alguém morre. Não o tipo "mamãe foi pro céu". Nada disso, minha mãe fez as suas malas, pegou seus discos, seus livros e se foi. Por algum bom motivo, tenho certeza, apesar de nunca ter me ocorrido nenhum motivo assim tão bom. 

Antes de partir, mamãe costumava dizer que quando eu nascera viera junto comigo um anjo da guarda. Tipo o brinquedo que vem com o McLanche Feliz. Não que eu imagine que ela tenha pensando por algum momento em mim como um McLanche Feliz. Tivesse sido o caso, acredito que ela não teria partido ou, ao menos, teria deixado alguns dos seus livros para trás. 

Nunca dei muita bola para o tal anjo da guarda. Minha mãe não era do tipo confiável. Ela era do tipo que dizia que "Tudo vai ficar bem" e não ficava. Do tipo que dizia que "Essa é a última vez que deixarei ele fazer isso" e não era. Do tipo que dizia "Eu volto logo" e que nunca mais voltava. Mesmo assim, nunca esqueci suas palavras sobre o tal anjo. 

Rafael, ela o chamava. Ele está sempre ao seu lado, ela dizia. Ele te protege, ela afirmava. Ele não deixará que nada de ruim te atinja, ela prometia. E mesmo que você não o veja, ela segredava, ele está sempre olhando por ti. E quando você se sentir sozinha, ela aconselhava, feche os olhos e o sinta lá. Porque ele estará lá. Não importa onde você esteja. Não importa o que tenham feito pra ti. Não importa o quão ruim o mundo esteja. Feche os olhos e sinta. É o Rafael, cuidando de ti. 

Nunca perguntei à minha mãe porque ela não podia ser meu anjo. Minha mãe era o tipo complicado de pessoa de quem você não espera constância. Minha mãe não era do tipo que te abraça quando você chora. Minha mãe era do tipo que manda você levantar o queixo e seguir em frente. Ela era tão errada, mas tão errada. Nada foi tão difícil como vê-la partir. Com os discos. E os livros. E o meu amor. Por ela. Pra ela. 

Mas me deixou o Rafael. Foi o que ela disse, naquela dia há tanto perdido nas marés do tempo. Eu vou, ela disse, mas ele está contigo e sempre estará. 

Eu não a culpei, nem a culpo. Existem coisas que são complicadas mesmo e eu não espero entendê-las. Assim como jamais esperei entender minha mãe. Aquela criatura infeliz, mas orgulhosa. Estranha, mas adorável. Inconstante e fascinante. No fundo do meu coração, tão errado quanto o dela, eu sei que ela me amava. Daquele seu jeito complicado, mas amava. 

Se não amasse, não teria criado o Rafael. Por mais que às vezes eu me pergunte se ela o criou pelo meu bem ou pelo bem dela.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lucas e a Chuva

Era um menino como todos os outros. Brincava, ria, chorava, brigava. Nunca necessariamente nessa ordem. Era um menino como todos os outros, exceto pela parte de que não era. Gostava de passar horas olhando para o céu, perscrutando o teto azul do mundo, sempre em busca de uma nuvem vestida de cinza que estivesse pronta para lhe trazer a chuva.

A chuva e Lucas, Lucas e a chuva.

Tudo começou muitos anos antes dele: era uma quinta-feira qualquer em meio a uma semana esquecida. Uma quinta-feira, não uma esperada sexta, nem uma odiada segunda. Uma quinta, apenas. Sem feriado, sem menção especial. Uma quinta-feira de chuva. 

Uma menina corria pela calçada, fugindo das gotas ao seu redor. Um menino saia da livraria, pensando em como fazer para não molhar os livros de seu pai. Um instante. É só o que foi necessário, um momento de distração. Um pequeno acidente numa esquina escorregadia da vida: um piscar de olhos, uma batida de coração, um sorriso tímido, uma nova paixão. Dizem que não existem inocentes no amor, apenas vítimas. Seria certo, então, dizer que aquele havia sido um acidente fatal.

Alguns anos depois, finalmente chegamos ao Lucas. Fazia sol lá fora, mas os olhos de seus pais eram manchados pela chuva mais bonita que já se viu. Riam-se e sorriam-se, a felicidade que os trasbordava era maior que o próprio universo. Mas não por muito tempo.

A chuva que um dia caiu para unir os pais de Lucas, foi a mesma que veio ao mundo para separá-los. Ruas molhadas, cidade escorregadia. Mais um acidente e dessa vez mais fatal ainda. O pai de Lucas enfrentou a maior tempestade de sua vida, a mãe de Lucas não enfrentou mais nada. 

E o tempo passou e chegou o momento em que o pai de Lucas o explicou que sua mãe apenas no céu existia. E, a partir de então, o coração de Lucas com o seu olhar viajou. E em cada arco-íris encontrou o sorriso dela. E em cada noite de vento forte, ouviu sua voz a lhe cantar. E a cada manhã de inverno se encantou com seu tom de azul mais azul que qualquer outra coisa poderia ser.

Mas nada disso se comparava à chuva. Deitado no jardim ele esperava pelas nuvens cinzentas, pelo cheiro de liberdade, pela atmosfera ansiosa do mundo antes do primeiro pingo cair. E quando ela vinha, como uma fina garoa ou como tempestade de verão, Lucas abria os braços e a deixava alcança-lo. Finalmente estava em paz consigo mesmo. 

Não há nada no mundo como carinho de mãe. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Don Sem Eme

A primeira vez em que vi Don ele estava flutuando a alguns metros do chão, deixando as borboletas estupefatas. Ao menos foi o que ele me disse delas, enquanto eu mesmo ficava mais estupefato que as próprias borboletas ao seu redor. Don não deu muito bola, nem a mim, nem às borboletas. 

Contou de seu nome. Don, apenas Don. Com N e não M, porque perdera uma perninha no caminho. Don, com N, porque não era que nem Dom João. Muito menos Dom Casmurro. Talvez um pouco Dom Quixote, mas sem a perninha da loucura. Era o que ele me dizia, mas sempre me perguntei se não era a perninha da razão que o faltava.

Mas não perguntei naquele momento porque existiam perguntas mais urgentes a serem feitas. Tais como a óbvia-mas-necessária, como você pode estar voando? Don deu seu risinho mais exato, pois me dizia exatamente em letras vermelhas garrafais e brilhantes "Ah, eu pensei que você jamais perguntaria". E, enquanto mandava um beijo para um tal de Douglas Adams, me explicou que a pergunta não tinha nada de complicado.

Você só tem precisa se jogar no chão, ele disse risonho, e errar. 

Don sempre soube o jeito certo de errar as coisas. Errava sempre as Leis da Física e por milagre jamais se perdeu em meio a um paradoxo qualquer. Sempre temi que a Polícia da Razão o levasse e que o prendesse no Presídio da Impossibilidade. Porém o menino era impossível e soube escapar de todas as racionalidades. 

Mas então veio a escola.

O problema era que Don acreditava na liberdade dos acentos, não via sentido em domesticar vírgulas. E se a mãe do Joãozinho só tinha uma laranja para dividir entre três filhos, a resposta era a de que eles ficariam famintos. Um mais um é igual a quanto? Depende. Se juntar duas maçãs, você acaba com duas. Se juntar duas ideias, você acaba com três. Se juntar dois amigos, você acaba sobrando. 

A professora suspirava, mas não desistia. Talvez um pouco de biologia? Qual a cor dos olhos de sua família?

Don sorria ao responder, era uma das suas respostas preferidas. Mamãe tem olhos cor de brabeza você-vá-arrumar-seu-quarto-menino, tingidos de afeto maior que o infinito ao quadrado. Papai tem olhos cor de tudo-vai-dar-certo, quando você acorda do pesadelo no meio da noite, olhos cor de não-fale-nada-durante-a-hora-do-jornal. Tinham olhos cor de céu quando o coelhinho da páscoa faz bagunça pintando os ovos. Olhos da cor da beleza, do amor, do tudo que você pode pensar de bom. 

A professora não sabia mais o que fazer. Tentou lhe ensinar astronomia e os planetas Don até que conhecia. 

Tem o que eu vou quando fico triste, ele dizia, e lá tem quantos pôr-do-sol eu quiser, mais de um milhão ao dia. Tem o planeta expoente negativo, onde tudo é o inverso. Eu ando pelo céu e voo pela água, ando pela noite e vou dormir só na madrugada. E perto do planeta do inverso, tem o planeta do Verso. Planeta da rima bonita, da guria entristecida, da palavra torcida. Planeta do Poeta, da Poetiza. 

Vencida, então, a professora se recolheu. É preciso curá-lo, ela reconheceu. Para o médico Don foi mandado e seu mal logo diagnosticado. Doença rara, o médico contou, há muito tempo que por aqui não aparecia um Sonhador. Para curá-lo não houve erro, uma dose de realidade bastou para fazê-lo.

Mas riam só da amarga ironia. Ao salvarem-lhe a sanidade, condenaram sua vida.  

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A menina dos cabelos de outono

É verão, o sol está lindo, o céu azul anil. Mundo perfeito. É inverno, as moças tem bochechas vermelhas, o chocolate é quente e o abraço também. Mundo mais que perfeito. É primavera, as flores se abrem em perfumes em tons de rosa. Você sabe como o mundo está. É outono e as folhas viajam ao sabor do vento e... sim, eu sei. O. Mundo. Está. Perfeito.

Não importa. 

Me importa a menina de cabelo cor de folhas de outono. 

É uma menina como tantas outras. Gosta de todas as coisas alternativas que todos gostam. É diferente da mesma forma que todos os outros. E adora assistir desenhos animados com seu gato nos sábados pela manhã. É bela, do tipo que conhece a própria beleza. É uma moça, apenas. E de moças vocês entendem. 

Parada na praça depois de comer seu sanduíche natural totalmente-livre-de-qualquer-coisa-com-gosto e de ter tomado sua água (refrigerante é saboroso demais, digo, unhealthy demais), ela se sente feliz. Seus cabelos viajam com o vento e as folhas de outono. Ela é jovem, divertida, totalmente acima do bem e do mau. Ela é linda. E sabe de tudo isso. 

Ri-se ainda mais ao notar que o menino com olhos cor de inverno está olhando pra ela.

Mas ele continua olhando. É demais pra ela. No auge de sua juventude, no auge da perfeição do mundo, no auge do amor próprio, descobre-se perdida. Perde-se no inverno daqueles olhos que a prendem ao chão. Seu espírito, contudo, flutua pelo mundo. Descobre em si sentimentos que jamais imaginou sentir. Em um milésimo se segundo vai de zero a cem. Da completa ignorância em relação a existência do outro, salta para a necessidade de sua atenção.

Sorri, de lado, convidativa, feliz. Sorri, apenas. Precisaria ela mais do que um sorriso? Não, claro que não. Ele olha pro lado, disfarça. "Oh, e ainda é tímido!" pensa ela. O encoraja. O sorriso maior do que nunca. Vem, diz o sorriso, vem, pensa ela. E assim ele faz. 

A menina sente-se enlouquecer, de uma maneira deliciosamente nova. Sente seu sangue queimar, seu cérebro congela. E lá vem ele, com os olhos de inverno. E lá vem ele, pronto para cumprir as promessas dela. Ou não? Entre o outono de seus cabelos e o inverno dos olhos dele, há uma brisa de verão impossível de ser ignorada.

Mas quem sou eu para especular nas estações da juventude?
Só cabe a Primavera decidir quando o mundo florescerá.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Marcianos

Novamente os marcianos voltaram para o seu planeta decepcionados. Mais uma vez tinham vindo à Terra, mas o resultado tinha sido o mesmo de todas as outras vezes. Nenhum indício de vida inteligente foi encontrado. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Marvin e o Medo

Era uma vez Marvin.

Marvin odiava todas as histórias que começavam com "Era uma vez". Desde a mais tenra idade, ele tinha ouvido seu pai contar histórias e sempre que começavam com "Era uma vez", elas acabavam mal. Seu pai era especialmente cuidadoso e, depois da morte de sua mulher, tudo foi de mal a pior. O pai dele era tão, mas tão cuidadoso, que sempre que contava alguma história ao filho, fazia questão de não incentivar Marvin a cometer as mesmas loucuras que os personagens de contos de fadas estavam fadados a repetir.

Assim, Marvin cresceu ouvindo histórias sobre Feras que devoravam Belas, Brancas de Neve que comiam o que estranhos lhes ofereciam e nunca mais acordavam e menininhas com chapéus vermelhos que nunca mais voltavam pra casa após ignorar os avisos de seus pais.

Marvin cresceu com medo do escuro. Com medo das pessoas. Com medo de se machucar. Com medo de ficar doente. Com medo de errar. Com medo de ser burro. Com medo de ser muito esperto. Com medo de nunca chegar a ter um amigo. Com medo de vozes e também do silêncio. Marvin acreditava que existiam certos monstros embaixo de sua cama, por isso passava noites em claro. Durante o dia, Marvin tinha medo que algum meteoro qualquer caísse na Terra exatamente no lugar onde ele se encontrava. Desta forma, sempre que possível, ele passava o tempo no pequeno armário embaixo na escada da sua casa, o único lugar onde se sentia relativamente seguro. 

Contudo, isso fez de Marvin um adulto esquálido, frágil e pálido. A medida que amadurecera, ele perdeu muito de seus medos infantis, mas também adquiriu uma série de outros. Marvin passou a temer o futuro, temer as escolhas. Temia as garotas, temia morrer sozinho. Marvin tinha medo das contas que nunca paravam de chegar, do desemprego que poderia durar e da falta de oportunidades que parecia reinar. Marvin ainda temia o escuro, temia as ruas vazias e cheias de sombras e todos os ladrões que poderiam aparecer. Marvin temia as vozes e o que elas poderiam dizer, temia os "não", temia os "desculpe", temia os pesadelos e temia quando eles se tornavam realidade.

Marvin tinha medo. E tinha medo de encontrar mais medos. Tinha medo de nunca perder seus medos. Porém, então, ele encontrou Ela, aquela que fez tudo fazer sentido. Aquela que fez o que não fazia sentido parecer lindo. Aquela que iluminou todos os caminhos. A mulher de sua vida, de sua existência, a mulher do agora e a do para sempre. Era ela e ele sabia, desde o momento em que a viu pela primeira vez ele soube. Mas Marvin ainda tinha medo. Medo de estragar tudo, medo de não saber o que dizer, medo de descobrir que estava errado, medo de ser rejeitado, medo de ser machucado.

Marvin ainda era Marvin e, assim sendo, não foi capaz de fazer o que era preciso. E, então, a perdeu.

E cá está Marvin hoje e eu consigo ver nos seus olhos que pra ele chega. Ele está decidido, tudo isso foi mais do que ele poderia suportar. Ele perdeu grande parte de sua vida para o medo e agora vê isso. Ele sabe que muito do que perdeu nunca mais conseguirá de volta, mas ele está disposto a não perder mais nada. Marvin está decidido e não vai mais voltar atrás. A partir deste instante, ele é outro homem, ele é corajoso e destemido. Ele odeia o medo e o repele. O medo já não faz parte de Marvin. A partir de agora, nada mais o deterá.

E é uma pena, de fato, que ele tenha esquecido de avisar isso a todos os carros que trafegam pela rua. É uma pena  que o motorista do ônibus não tenha sido avisado de que não pode deter Marvin. É uma pena que ele não saiba que Marvin não vai olhar para os lados antes de atravessar, que hoje Marvin não vai ter medo de nada e nem se deixará deter por nada. É uma grande pena, mas é como a vida é.

Nos instantes que antecedem o fim, entretanto, Marvin se permite sentir medo. Porque nesse momento ele entende tudo, entende que seus medos são uma parte fundamental de quem ele é. Negá-los é negar a si mesmo. Se ele errou, não foi por ter medo, mas sim por não enfrentá-lo.

Assim sendo, posso garantir que Marvin encara a morte de frente. Ele sabe o que está acontecendo, entende as consequências disso e tem medo. Mas ele vai além. Porque agora ele sabe. Agora ele entende.

Marvin fecha os olhos e finalmente sente-se em paz consigo mesmo.

E, então, não sente mais nada.

É o fim.