A primeira vez em que vi Don ele estava flutuando a alguns metros do chão, deixando as borboletas estupefatas. Ao menos foi o que ele me disse delas, enquanto eu mesmo ficava mais estupefato que as próprias borboletas ao seu redor. Don não deu muito bola, nem a mim, nem às borboletas.
Contou de seu nome. Don, apenas Don. Com N e não M, porque perdera uma perninha no caminho. Don, com N, porque não era que nem Dom João. Muito menos Dom Casmurro. Talvez um pouco Dom Quixote, mas sem a perninha da loucura. Era o que ele me dizia, mas sempre me perguntei se não era a perninha da razão que o faltava.
Mas não perguntei naquele momento porque existiam perguntas mais urgentes a serem feitas. Tais como a óbvia-mas-necessária, como você pode estar voando? Don deu seu risinho mais exato, pois me dizia exatamente em letras vermelhas garrafais e brilhantes "Ah, eu pensei que você jamais perguntaria". E, enquanto mandava um beijo para um tal de Douglas Adams, me explicou que a pergunta não tinha nada de complicado.
Você só tem precisa se jogar no chão, ele disse risonho, e errar.
Don sempre soube o jeito certo de errar as coisas. Errava sempre as Leis da Física e por milagre jamais se perdeu em meio a um paradoxo qualquer. Sempre temi que a Polícia da Razão o levasse e que o prendesse no Presídio da Impossibilidade. Porém o menino era impossível e soube escapar de todas as racionalidades.
Mas então veio a escola.
O problema era que Don acreditava na liberdade dos acentos, não via sentido em domesticar vírgulas. E se a mãe do Joãozinho só tinha uma laranja para dividir entre três filhos, a resposta era a de que eles ficariam famintos. Um mais um é igual a quanto? Depende. Se juntar duas maçãs, você acaba com duas. Se juntar duas ideias, você acaba com três. Se juntar dois amigos, você acaba sobrando.
A professora suspirava, mas não desistia. Talvez um pouco de biologia? Qual a cor dos olhos de sua família?
Don sorria ao responder, era uma das suas respostas preferidas. Mamãe tem olhos cor de brabeza você-vá-arrumar-seu-quarto-menino, tingidos de afeto maior que o infinito ao quadrado. Papai tem olhos cor de tudo-vai-dar-certo, quando você acorda do pesadelo no meio da noite, olhos cor de não-fale-nada-durante-a-hora-do-jornal. Tinham olhos cor de céu quando o coelhinho da páscoa faz bagunça pintando os ovos. Olhos da cor da beleza, do amor, do tudo que você pode pensar de bom.
A professora não sabia mais o que fazer. Tentou lhe ensinar astronomia e os planetas Don até que conhecia.
Tem o que eu vou quando fico triste, ele dizia, e lá tem quantos pôr-do-sol eu quiser, mais de um milhão ao dia. Tem o planeta expoente negativo, onde tudo é o inverso. Eu ando pelo céu e voo pela água, ando pela noite e vou dormir só na madrugada. E perto do planeta do inverso, tem o planeta do Verso. Planeta da rima bonita, da guria entristecida, da palavra torcida. Planeta do Poeta, da Poetiza.
Vencida, então, a professora se recolheu. É preciso curá-lo, ela reconheceu. Para o médico Don foi mandado e seu mal logo diagnosticado. Doença rara, o médico contou, há muito tempo que por aqui não aparecia um Sonhador. Para curá-lo não houve erro, uma dose de realidade bastou para fazê-lo.
Mas riam só da amarga ironia. Ao salvarem-lhe a sanidade, condenaram sua vida.
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Um pensamento bonito:
"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."