quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Um Dia ou Dois

Talvez um dia a gente se olhe e a gente se diga que valeu a pena. E quem sabe um dia seja verdade. Talvez um dia os sorrisos deixem de ser falsos e a amizade volte a ser rotina e deixe de ser pura força de vontade. Talvez um dia a gente se esqueça de como foi um dia. E talvez um dia a gente esteja finalmente pronto pra voltar a ser, sem se importar com o que realmente estamos sendo. Talvez um dia a gente volte a encontrar a perfeita simetria que só é encontrada quando não está sendo procurada. Talvez um dia. E talvez não.

Talvez um dia eu tropece na rua e bata minha cabeça no chão. E talvez nesse dia, minha memória se perca. Minha personalidade inverta. E tudo que era certo, se torne não. Talvez um dia eu te veja na rua e não lembre de ti. E quem sabe em outro dia eu te veja e finja que não vi. E talvez um dia eu tropeça de surpresa ao te ver. E ao lembrar. Lembrar de tudo que eu nunca fui, nunca serei, e nunca vou querer ser capaz de esquecer. E talvez, em segredo, agora já não tão secreto assim, talvez eu ainda sorrie um pouco, de vez em quando, de quando em vez, quem sabe eu ainda sorrie assim, pensando em você. Mas talvez não.

Talvez um dia, sem querer ou procurar ou quase desistindo de tentar, eu encontre alguém. E outro alguém você também a de encontrar. E talvez um dia, nessas idas e nessas vindas de tudo que foi. De tudo que não foi. De tudo que será. E de tudo que nunca poderia ter sido. Talvez em meio a essa loucura desse universo em movimento, talvez a gente simplesmente se perca de si mesmo. Se deixe pra trás. Talvez a gente passe a ser só lembrança antiga e embaralhada no meio das teias de aranha das memórias quase esquecidas na mente do outro.

E talvez até esse dia a gente tenha aprendido mais sobre a vida. E mais sobre o mundo. E mais sobre tudo. E talvez nesse dia nós finalmente tenhamos nos tornado mais sábios. E menos barulhentos. E mais calmos. E mais felizes. Eu espero que ainda mais felizes.

E quem sabe, então, nesse dia - a gente se olhe e a gente se diga que valeu a pena.

E que então a gente perceba que é verdade. E que a gente sorria em paz e deixe que o futuro que não tivemos também descanse em paz, nesse infinito cemitério de sonhos perdidos.

Talvez um dia.
Talvez dois.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Todas as crianças crescem, menos uma

As vinte horas e quarenta e sete minutos, meus olhos desviam da TV e acabam nos números brilhantes e laranjas da GVT, que mostram as horas incessantemente. Eu me perco, por um minuto ou dois, pensando nisso. Pensando no constante correr das horas, dos segundos se tornando minutos, se tornando horas, criando dias inteiros que correm rapidamente e se transformam em semanas. Em meses. Em anos. 

Parte da minha vida chegou ao fim.

Este é sempre o sentimento que corre nas minhas veias depois de visitar a Liberato. Depois de quatro anos de longas reclamações, agora que finalmente consegui sair de lá, não consigo deixar de sentir que perdi algo no caminho e que este algo nunca mais vai voltar. Eu fui feliz lá, muito mais feliz que já tinha sido na minha vida. E muito infeliz também, em tantos dias que foram difíceis de viver. A Liberato foi minha vida, meu mundo e meu universo e agora eu estou oficialmente a deixando para trás.

É assustador.

Assustador pensar que no final do mês meu estágio chega ao fim e que eu decidi, simplesmente, ir embora. Assustador pensar que em dezembro recebo meu certificado de Técnico de Eletrônica, quando eu nem lembro muito bem como funciona um indutor. Assustador pensar que o Ensino Médio chegou ao fim, que de uma forma ou de outra eu tenho que escolher um curso na faculdade e um emprego e que de uma hora pra outra, talvez tenha chegado o momento em que eu tenho que começar a pensar em mim mesma como uma adulta.

Como se eu ao menos soubesse como isso funciona.

Eu olho para o futuro e tudo que eu sinto é medo de falhar. Medo de acabar sozinha e infeliz, em uma casa com três bilhões de livros e nenhum sorriso. Tenho medo de um futuro medíocre. De nunca ser mais do que a média. De viver uma vida sem momentos inesquecíveis. De nunca ser inesquecível para ninguém. Medo de morrer sem ter vivido. Medo de nunca, realmente, descobrir como é viver e de chegar no fim só pensando em tudo que gostaria de ter feito e nunca fiz. Medo de nunca ter coragem de dizer o que precisa ser dito. Medo de nunca ter coragem de lidar com as consequências. Medo de estragar tudo, mais uma vez, e descobrir que já não existem chances pra tentar de novo. Tenho medo de tudo e do amanhã, que pode vir com sol - mas que provavelmente virá com chuva.

Guardo toda a bagunça embaixo de uma cama imaginária dentro de minha mente.

O relógio da GVT me diz que são oito e cinquenta e dois e Plantão Médico voltou a passar na Warner. Me recosto nas almofadas no sofá e perco os próximos minutos pensando em como o George Clooney é bonito.

Quem sabe o dia em que terei que começar a agir como uma adulta esteja chegando. Quem sabe eu já não seja a pessoa que imagino ser. Quem sabe esteja chegando o dia em que preciso crescer.

Mas por hoje, por esta noite, eu prefiro ainda ser essa menina boba, estranha e meio perdida.

Afinal, todo mundo sabe que todas as crianças crescem, menos uma. Mas ninguém nunca me disse que a infância tinha data de validade. E, até o momento, eu não sinto nenhuma vontade de abandonar a Terra do Nunca.