Já é fato conhecido e estabelecido neste lado da Galáxia que eu ainda não aprendi a fazer resenhas supimpas, do tipo que arranca risadas da platéia carrancuda e faz as livrarias do mundo inteiro se encherem de filas quilométricas, enquanto seus estoques se reduzem em tempo recorde e jamais visto na História. Mas, por outro lado, também é fato que minha falta de talento ou prática nunca me impediu antes, então, senhoras e senhores, lhes apresento minha última leitura:
"O Caderninho de Desafios de Dash & Lily" ,
de David Levithan e Rachel Cohn
Vejo as expressões de escárnio do respeitável público imaginário, que diz com seu silêncio zombeteiro: "Sério, Bibiana, quando você vai deixar esses livrinhos de young adult fiction de lado e ir ler algo de verdade?". A resposta provavelmente seria "Nunca", mesmo que "Nunca" seja o tipo de sentença forte e definitiva demais para ser utilizado em qualquer situação, hipotética ou não. Mas a verdade é que sempre que eu vejo alguém menosprezando esse tipo de livro, me parece muito mais preconceito do que qualquer coisa remotamente construtiva.
Para os amigos leitores que gostam de se auto promover citando autores russos ou aqueles clássicos-que-ninguém-nunca-entendeu: ler Tolstoi ou Dostoievski não te faz melhor do que ninguém. Não importa se você lê Jane Austen, George Orwell, James Joyce ou Bronte. O valor das pessoas não está no repertório de livros lidos, até porque existe esse precipício gigantesco entre ler e compreender uma história. Claro que Oscar Wilde é incrível. Sim, ninguém se compara a Tolkien. E óbvio, os caras da Rússia escrevem coisas que entram na mente da gente e sacodem nossa alma. Mas, vejam só: o mérito destes autores não faz com que todos os outros livros do mundo sejam perda de tempo. Perda de tempo é criticar livros por preconceito bobo. Isso sim.
Dito isso, que seja esclarecido: é um livro bobo. "Dash e Lily" é uma história boba. É praticamente um conto de fadas do século XXI, como até está dito na contracapa. Mas, como eu já disse outras vezes, como é bom ler uma história boba às vezes! Nada como chegar em casa sexta-feira à noite, deitar no sofá de pijama e pantufas, e mergulhar em um mundo distante e iluminado, onde as meninas usam meia-calça colorida e os garotos são profundos-sarcásticos-inteligentes-de-morrer e, claro, convenientemente lindos. Quem não quer viver em um universo assim, nem que seja por algumas horas?
Eu quero, sem dúvida alguma.
E, dentro dessas expectativas, "O caderninho de desafios de Dash & Lily" é um ótimo livro.
Eu, pessoalmente, não acredito muito em sinopses. Mas como não faço as regras, apenas as sigo (quando é de meu interesse, fique claro), segue uma tentativa de resumo - ênfase para o "tentativa":
Você conhece a história: é Nova York, é dezembro, a cidade se veste com o clima natalino - lá está a neve, presentes e músicas comemorativas. Por motivos diversos, nossos protagonistas, Dash e Lily, se veem sozinhos nesta época do ano: para ela, é uma época mágica e estar longe de sua família é um martírio; para ele, o martírio é a época do ano e a magia é estar sozinho.
São duas pessoas claramente opostas, você deve estar reconhecendo a história a essa altura. Então, não é com tanta surpresa assim que logo descobrimos que o Moleskine plantado por Lily em uma livraria - em meio a seus livros preferidos - é encontrado por Dash, que - acreditem ou não - também está visitando seus livros de cabeceira.
O caderno contem desafios e, a medida que a história se desenrola, suas páginas também passam a ser manchadas com grandes reflexões e confissões do nosso casal mais querido de protagonistas. O mais importante: durante essa troca de desafios feita por meio do Moleskine, Dash e Lily mantem uma relação puramente indireta. Eles se conhecem por meio de suas palavras e nada mais. Com isso, logo os dois estão cheios de expectativas e a um passo da decepção.
É um livro justamente sobre isso: sobre a nossa necessidade de ver as nossas maiores expectativas se tornarem realidade - sem entender que elas nunca se tornarão. Que o futuro nunca seguirá nossa imaginação. Que ninguém nunca será perfeito e que, no topo dessa lista, nós nunca seremos perfeitos. É uma história sobre aceitar as imperfeições e perfeições da vida real.
E, em um mundo em que cada vez mais nos afogamos em utopias em relações a praticamente tudo, é interessante perceber uma história que prega justamente o oposto. Mesmo sendo uma leitura boba, quando você para para pensar - você percebe que não é tanto assim. "Dash e Lily" é um livro sobre ir além das expectativas, é sobre ver além das decepções, é sobre entender que somos todos humanos: seres sujeitos a erros, acertos, seres assustadoramente interessantes de quem podemos gostar muito - ou não.
P.S.: Este marcador de página do Grumpy Cat é a coisa mais magnífica já realizada pela humanidade. Ponto final.
P.S.2: Para explicar o título: é incrível como um Moleskine é o caderno mais não-prático já criado na história e, ainda assim, o mais celebrado. Não existe um caderno que passe mais a mensagem de mágico-incrível-culto-tudo-de-bom e, ainda assim, é só você realmente tentar escrever em páginas pequeninas e sem pautas para entender o que é o verdadeiro Inferno na Terra. Ainda assim são um sucesso sem fim. Humanos, quem vai os entender?
P.S.3: Melhor citação do livro:
"Sempre torci para que, depois que o príncipe encontrasse Cinderela e eles partissem em uma carruagem magnifica, ela se virasse para ele depois de alguns quilômetros e dissesse: ‘Pode me deixar na estrada, por favor? Agora que finalmente fugi de minha horrível vida de exploração, gostaria de ver um pouco do mundo, sabe? Talvez fazer um mochilão pela Europa ou Ásia. Procuro por você depois, Príncipe, depois de ter encontrado meu caminho. Mas obrigada por me achar! Foi uma gracinha de sua parte. E pode ficar com os sapatinhos. Vão acabar me dando bolhas se continuar os usando.’"












