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sábado, 10 de setembro de 2016

O caderninho de desafios de Dash & Lily - Ou como o fascínio por Moleskines é Infinito, Inexplicável e Insuperável

Já é fato conhecido e estabelecido neste lado da Galáxia que eu ainda não aprendi a fazer resenhas supimpas, do tipo que arranca risadas da platéia carrancuda e faz as livrarias do mundo inteiro se encherem de filas quilométricas, enquanto seus estoques se reduzem em tempo recorde e jamais visto na História. Mas, por outro lado, também é fato que minha falta de talento ou prática nunca me impediu antes, então, senhoras e senhores, lhes apresento minha última leitura:

"O Caderninho de Desafios de Dash & Lily" ,
de David Levithan e Rachel Cohn 


Vejo as expressões de escárnio do respeitável público imaginário, que diz com seu silêncio zombeteiro: "Sério, Bibiana, quando você vai deixar esses livrinhos de young adult fiction de lado e ir ler algo de verdade?". A resposta provavelmente seria "Nunca", mesmo que "Nunca" seja o tipo de sentença forte e definitiva demais para ser utilizado em qualquer situação, hipotética ou não. Mas a verdade é que sempre que eu vejo alguém menosprezando esse tipo de livro, me parece muito mais preconceito do que qualquer coisa remotamente construtiva. 

Para os amigos leitores que gostam de se auto promover citando autores russos ou aqueles clássicos-que-ninguém-nunca-entendeu: ler Tolstoi ou Dostoievski não te faz melhor do que ninguém. Não importa se você lê Jane Austen, George Orwell, James Joyce ou Bronte. O valor das pessoas não está no repertório de livros lidos, até porque existe esse precipício gigantesco entre ler e compreender uma história. Claro que Oscar Wilde é incrível. Sim, ninguém se compara a Tolkien. E óbvio, os caras da Rússia escrevem coisas que entram na mente da gente e sacodem nossa alma. Mas, vejam só: o mérito destes autores não faz com que todos os outros livros do mundo sejam perda de tempo. Perda de tempo é criticar livros por preconceito bobo. Isso sim. 


Dito isso, que seja esclarecido: é um livro bobo. "Dash e Lily" é uma história boba. É praticamente um conto de fadas do século XXI, como até está dito na contracapa. Mas, como eu já disse outras vezes, como é bom ler uma história boba às vezes! Nada como chegar em casa sexta-feira à noite, deitar no sofá de pijama e pantufas, e mergulhar em um mundo distante e iluminado, onde as meninas usam meia-calça colorida e os garotos são profundos-sarcásticos-inteligentes-de-morrer e, claro, convenientemente lindos. Quem não quer viver em um universo assim, nem que seja por algumas horas?

Eu quero, sem dúvida alguma.
E, dentro dessas expectativas, "O caderninho de desafios de Dash & Lily" é um ótimo livro. 


Eu, pessoalmente, não acredito muito em sinopses. Mas como não faço as regras, apenas as sigo (quando é de meu interesse, fique claro), segue uma tentativa de resumo - ênfase para o "tentativa": 

Você conhece a história: é Nova York, é dezembro, a cidade se veste com o clima natalino - lá está a neve, presentes e músicas comemorativas. Por motivos diversos, nossos protagonistas, Dash e Lily, se veem sozinhos nesta época do ano: para ela, é uma época mágica e estar longe de sua família é um martírio; para ele, o martírio é a época do ano e a magia é estar sozinho.

São duas pessoas claramente opostas, você deve estar reconhecendo a história a essa altura. Então, não é com tanta surpresa assim que logo descobrimos que o Moleskine plantado por Lily em uma livraria - em meio a seus livros preferidos - é encontrado por Dash, que - acreditem ou não - também está visitando seus livros de cabeceira. 

O caderno contem desafios e, a medida que a história se desenrola, suas páginas também passam a ser manchadas com grandes reflexões e confissões do nosso casal mais querido de protagonistas. O mais importante: durante essa troca de desafios feita por meio do Moleskine, Dash e Lily mantem uma relação puramente indireta. Eles se conhecem por meio de suas palavras e nada mais. Com isso, logo os dois estão cheios de expectativas e a um passo da decepção. 

É um livro justamente sobre isso: sobre a nossa necessidade de ver as nossas maiores expectativas se tornarem realidade - sem entender que elas nunca se tornarão. Que o futuro nunca seguirá nossa imaginação. Que ninguém nunca será perfeito e que, no topo dessa lista, nós nunca seremos perfeitos. É uma história sobre aceitar as imperfeições e perfeições da vida real. 

E, em um mundo em que cada vez mais nos afogamos em utopias em relações a praticamente tudo, é interessante perceber uma história que prega justamente o oposto. Mesmo sendo uma leitura boba, quando você para para pensar - você percebe que não é tanto assim. "Dash e Lily" é um livro sobre ir além das expectativas, é sobre ver além das decepções, é sobre entender que somos todos humanos: seres sujeitos a erros, acertos, seres assustadoramente interessantes de quem podemos gostar muito - ou não.

P.S.: Este marcador de página do Grumpy Cat é a coisa mais magnífica já realizada pela humanidade. Ponto final.

P.S.2: Para explicar o título: é incrível como um Moleskine é o caderno mais não-prático já criado na história e, ainda assim, o mais celebrado. Não existe um caderno que passe mais a mensagem de mágico-incrível-culto-tudo-de-bom e, ainda assim, é só você realmente tentar escrever em páginas pequeninas e sem pautas para entender o que é o verdadeiro Inferno na Terra. Ainda assim são um sucesso sem fim. Humanos, quem vai os entender?

P.S.3: Melhor citação do livro:

"Sempre torci para que, depois que o príncipe encontrasse Cinderela e eles partissem em uma carruagem magnifica, ela se virasse para ele depois de alguns quilômetros e dissesse: ‘Pode me deixar na estrada, por favor? Agora que finalmente fugi de minha horrível vida de exploração, gostaria de ver um pouco do mundo, sabe? Talvez fazer um mochilão pela Europa ou Ásia. Procuro por você depois, Príncipe, depois de ter encontrado meu caminho. Mas obrigada por me achar! Foi uma gracinha de sua parte. E pode ficar com os sapatinhos. Vão acabar me dando bolhas se continuar os usando.’"

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Not Another Happy Ending - Ou Como Ver a Amy Pond Como Escritora Me Faz Muito Feliz


Já faz um tempo (mas bastante tempo mesmo) que eu descobri um filme com a Karen Gillan, a.k.a. Amy Pond do melhor seriado de todos, a.k.a. Doctor Who, e resolvi fazer download dele para um momento sombrio e solitário que pedisse por um bom filme. Eis que uns dias atrás faltou luz na minha casa e o derradeiro momento chegou.

Sem-tantos-spoilers-assim: o filme, "Not Another Happy Ending", conta a história de uma escritora chamada Jane Lockhart (interpretada pela Karen Gillan) que finalmente, depois de muitas recusas (e um quadro da dor!) consegue uma editora para publicar seu primeiro romance.

O editor que acredita no livro dela, passa a ajudá-la a revisar toda e história e até aí
é tudo muito bom e bonitinho com música de fundo animada e tal. Mas ele comete o pecado mortal de mudar o título do livro dela e Jane decide odiá-lo por toda a eternidade. E a partir daí: tã-dã! As coisas começam a acontecer.

Porque o livro de Jane é um sucesso. Ela começa a namorar um roteirista famoso. Volta a se relacionar com seu pai. Jane está feliz! Mas quando Jane está feliz ela não consegue escrever. Assim, o editor dela decide fazer a vida dela voltar a ser miserável - única maneira para ela terminar de escrever seu segundo romance.

Tanto as tentativas de Jane para terminar com seu bloqueio e voltar a escrever - quanto as tentativas de seu editor de fazerem sua vida voltar a ser triste, são hilárias. Vale desde estragar a plantinha dela até conversar no banheiro com o protagonista fictício do próximo livro de Jane. Ainda sobra espaço para humor negro. Para um francês furioso xingando em francês - como se fosse possível dizer algo ruim, em uma língua tão bonita! E para um final bem clichê, mas fofinho.

Enfim. Eu adorei o filme, ainda mais para um momento de desespero do tipo "estou-sem-luz-ventilador-e-internet-em-casa". É bem engraçado, a trilha sonora também é bonitinha e as roupas da personagem principal são super engraçadas. Mas, confesso que voltar a ver a Amy Pond (mesmo sabendo que não era a Amy Pond!) e, mais do que isso, ver ela em um papel legal como o de uma escritora foi muito, muito divertido. Metade dos pontos do filme por isso!

Assim como Stuck in Love (do qual eu escrevi no outro dia a respeito), é um filme engraçadinho e legal de assistir em uma tarde nas férias - mas é ainda mais legal (tipo triplamente melhor) se você também quer ser um escritor - ou tem um gosto especial por comédias românticas bonitinhas e um tanto inusitadas. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Magnus Chase - Ou como o Tio Rick é Demais!



Eu ainda me lembro do dia que comprei "O Ladrão de Raios" na livraria do shopping, meio curiosa, meio animada, não sabendo muito da história além de que falava de mitologia grega nos dias atuais. Desde lá, mais de cinco anos se passaram. "Percy Jackson e os Olimpianos" chegou ao fim, com o final mais épico do século XXI. Os romanos apareceram com o Jason Grace, em "Heróis do Olimpo". No meio disso tudo, apareceram uns egípcios também. Mais um monte de livros extras. E, finalmente, agora o glorioso Tio Rick visitou a mitologia nórdica.

E a verdade é essa: são livros bobinhos. São livros muito bobinhos. São cheio das piadas mais infames, dos personagens mais sem noção, dos enredos mais sem pé nem cabeça. Mas a verdade? Eu adoro que seja assim. Eu adoro pensar em um Poseidon com uma camiseta havaina. Eu amo um Hermes Hi-Tech. Eu morro de rir com o Octavian sacrificando ursinhos de pelúcia para ler o futuro. Que seja bobo, bobo de verdade mesmo! Às vezes eu tenho a forte impressão que a gente se leva a sério demais mesmo. 


Dito isso, fique claro que "Magnus Chase" é incrível. O início dos "Heróis do Olimpo" não me animou tanto. Esse novo livro, "A Espada do Verão" me lembrou muito do primeiro - do "Ladrão de Raios". É bom ter um personagem central e conseguir acompanhar ele (nada tão contra múltiplos pontos de vista, o ruim é que alguns personagens às vezes vão sumindo, nesses casos). E o próprio Magnus é demais; ele assiste Doctor Who, se parece com o Kurt Cobain e lida extraordinariamente bem eventos de vida ou morte (principalmente morte!). 

A história já começa extremamente bem, com o Magnus morrendo. E nem é spoiler de verdade, porque ele conta isso na primeira página! A partir dai, as coisas ficam cada vez mais interessantes. Elfos e anões se revelam. Valquírias aparecem. Os segredos da família do Magnus vão sendo decifrados, E, o mais legal: a ação nunca para. Os capítulos se passam de uma luta mortal para uma batalha mortal para uma fuga impossível para mais uma reviravolta para mais uma luta e assim vai até você nem conseguir mais respirar direito, de tanto prender o fôlego. Ufa! 

Mas a ação é daquele jeito a la Rick Riordan mesmo: lutas com brinquedos de plástico, patos de ouro sem utilidade nenhuma, meleca de gigante melecando os personagens. Às vezes eu acho que ele escreve com o seguinte princípio: nunca, jamais e sobre hipótese nenhuma perca a chance de fazer uma piada. 

Por outro lado, assim como era forte em "O Ladrão de Raios" a relação entre o Magnus Chase e a mãe dele é muito importante na história. Durante todos os livros do Tio Rick, na verdade, a importância da família é um assunto recorrente. E por trás de todo o humor e alegria e aventura, o livro vai fazendo grandes críticas a nossa sociedade atual, desde uma comparação com o mundo dos Elfos, onde atualmente ninguém mais faz magia ou qualquer coisa de bom - só assistem televisão - até pequenas alfinetadas sobre a vida dos sem teto. Dessa forma, a história continua sendo leve e divertida, mas também dá uns tantos para se pensar depois de terminar a leitura.

O melhor de "Magnus Chase" ainda fica para o final. Depois de uma história magnífica e divertida, você está pronto para fechar o livro e ir pesquisar sobre quando o próximo será lançado. Mas então: taaa-dãã! E a reviravolta final é feita. E agora você precisa reler todo o livro de novo, para entender mesmo a história. Mas a parte boa? Vale muito a pena, ler tudo quantas vezes for - e mais uma vez, só para rir ainda mais das piadas.


P.S.: Não é preciso ter lido as séries anteriores para entender a história, mas tem alguns easter eggs que são um verdadeiro presente para os fãs de carteirinha. 


P.S. 2.: Se você, como eu, não conhecia muito da mitologia nórdica, um bom complemento é a leitura de "As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica e o Anel de Nibelungos". 


É um livro mais-ou-menos rápido de ler, com vários contos da mitologia nórdica - que explicam desde a criação do mundo até os últimos dias do mesmo. As histórias são todas muito engraçadas também e as inspirações do Tio Rick se tornam claras em algumas das histórias. E o Thor e o Loki são hilários!

Além disso, a metade final do livro é uma versão romantizada de "O Anel de Nibelungos". A história em si é interessante e divertida, mas, principalmente, é possível perceber em tantos e tantos momentos de onde o Tolkien buscou suas ideias para "O Senhor dos Anéis" - basicamente, a bíblia dos livros de literatura fantástica.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Stuck in Love - Sobre Amor, Livros e as Estranhas Relações Entre as Pessoas


A primeira vez que eu me deparei com "Stuck in Love" foi através de uma publicação sobre sua trilha sonora, no Tumblr. O que, na verdade, eu achei um ótimo sinal porque: 1. eu amo o Tumblr e 2. eu adoro filmes com uma boa trilha sonora. Então, basicamente, eu já estava bem esperançosa bem antes de ver o trailer.

Mas então eu assisti ao trailer.

E, poxa, minha vida tinha um novo objetivo: eu precisava ver esse filme. Porque todas as pontas se encaixavam, na minha mente, e ali estava um filme com alguns dos meus atores preferidos (verdade seja dita: eu não resisto ao bonitinho do Logan Lerman), aparentemente engraçado, com aquela pitadinha de drama indispensável, mas, principalmente, um filme sobre escritores.

Foi quase como se tivessem feito um filme especialmente para mim. Nos meus momentos mais egocêntricos, parece uma teoria quase plausível.

Mas, é claro, é fato conhecido que na República dos Trailers muitos milagres são realizados e não seria a primeira vez que um trailer interessante poderia professar duas horas de dor e indigestão para o telespectador. Então tentei manter a calma e fui assistir ao filme.

E já na primeira cena todas as minhas dúvidas foram sanadas. Os primeiros instantes do filme apresentam um por um os personagens do trio principal, que compõem a história: uma família vagamente disfuncional (como todas as famílias, na verdade). 


Tudo começa com o Nat Wolff (que todo mundo está cansado de conhecer, depois das adaptações dos livros do John Green) com a incrível frase: "I remember that it hurt. Looking at her hurt."

No próximo instante, a história muda abruptamente para Lily Collins, com um discurso todo filosófico e cheio de significado, que de repente se transforma numa afirmação direta para o garoto desinteressado à sua frente: "We both want the same thing, to go back to your room, have sex, and never see each other again. Are you with me?". Alguma dúvida da resposta dele?

E, por fim, lá está Greg Kinnear, fechando as apresentações, com sua tentativa patética (mas hilária) de espionar sua ex-esposa.


Depois disso, vem uma cena animada (e com uma trilha sonora incrível!) mostrando como esses três personagens tão diferentes se relacionam. E, a partir dai, você começa a se envolver na história dessa família e entender melhor as coisas que os ligam (como os livros, a vontade de serem escritores, a necessidade de escreverem e, é claro, o amor) e as coisas que os separam (como o medo, os ressentimentos, a raiva). 

E, como a cereja desse bolo gigantesco, o filme ganha mil pontos comigo por falar (e muito!) sobre os livros e sobre o que é ser um escritor. Desde conselhos radicais de um pai escritor para um filho que busca a mesma carreira, até um discurso magnífico já para o final, sobre essa coisa louca e apaixonante que é escrever. Me parece um filme indispensável para quem está também nesse mesmo barco furado, precisando muito escrever, querendo muito — mas nem sempre encontrando o caminho tortuoso rumo a realização.


Mas, também, o filme é incrível por criar tão bem relações tão diferentes entre os personagens. Desde um amor de High School até uma relação longa de um casamento cheio de percalços. A relação entre um pai e seus filhos. Entre irmãos. É um filme sobre amor, sobre todos os tipos de amor. E também é um filme que mostra bem como o amor pode e muda sim a vida das pessoas. E que, por mais que a gente tente, é impossível escapar para sempre dele. Afinal, estamos todos a certo ponto "Stuck in Love".

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Culpa é do John Green

(postagem hiper mega power atrasada, mas eu estava com preguiça demais pra digitar tudo isso)

De uma forma geral eu não me considero uma pessoa preconceituosa. Ao menos, não o tipo de pessoa preconceituosa que me vem à mente quando penso em pessoas preconceituosas, o que pode ser um pensamento especialmente preconceituoso. De qualquer forma, eu sei que tenho meus preconceitos.

Por exemplo, eu não como peixe. De jeito nenhum. Não importa se é assado, frito ou se foi jogado três vezes no ar numa noite de lua cheia. Eu não como. Eu não lembro como é o gosto e me sinto muito feliz com isso. Além disso, eu não chego nem perto de qualquer livro do Paulo Coelho ou da Martha Medeiros. Nunca li nada deles e com sorte vou morrer sem ter lido. E eu decididamente odeio qualquer pessoa que odeie livro, mesmo as que eu não conheço. 

E eu estou ok quanto a esses preconceitos. Quero dizer, não é como se eu me sinta feliz por ter uma predileção a odiar noventa por cento do mundo – mas eu estou ok com isso. Mas querem saber uma coisa sobre ter preconceitos? É uma droga. 

Verdadeiramente, é realmente uma droga. Acreditem em mim.

***

Eu não lembro a primeira vez que eu ouvi falar de “A Culpa é das Estrelas” do ilustríssimo Sr. John Green.  Mas eu me lembro bem de que o título nunca me incentivou muito a saber mais sobre a história – tanto pelo contrário. “A Culpa é das Estrelas” soa muito como aqueles pseudo-livros “Bianca” e “Sabrina” que minha mãe faz questão de ler. 

Além do mais, a história garota-com-câncer-encontra-garoto-bonito-se-apaixonam-blá-blá-blá parece demais com as histórias do Sparks, e Deus sabe que a vida é curta demais para ser desperdiçada com literatura ruim, como a dos livros desse senhor.
Mas, contudo, entretanto e todavia.

“A Culpa é das Estrelas” começou a me perseguir. Primeiro apareceu em um web show que eu olho, o Lydia Bennet!! (spin off de The Lizzie Bennet Diaries), onde a Mary estava lendo. Depois a Mary Kate Wiles(aka Lydia Bennet) disse em seu Tumblr que esse era o livro preferido dela (e eu realmente, realmente gosto da MK). Então o golpe final veio, numa quinta-feira a noite, e eu soube que não tinha mais volta. Lá estava, no feed de notícias do meu Facebook, um post sobre o quão genial esse livro era. 

Confesso que ainda não levava muito fé no livro. Mas resolvi dar uma chance pra história. Nem que fosse só para poder falar mal depois. Quão estúpida eu era. Quão estúpida eu sou...

Acabei de ler o livro um pouco depois das três da manhã, com lágrimas escorrendo pelos olhos e o coração quebrado em um milhão de pedaços. Por que o John Green é um bastardo sem misericórdia -  e eu posso dizer isso sobre ele, uma vez que estou totalmente apaixonada por esse cara e seu irmão (mas isso é assunto pra outro post). 

TFiOS como é chamado (The Fault in Our Stars – título original) é mais do que genial. Vai muito além da genialidade. Como o Marcus Zusak diz na capa, eu ri, eu chorei e eu, definitivamente, quis mais. 

Eu tenho um problema com resenhas, porque eu odeio qualquer tipo de spoiler (por mais idiota que seja) sobre um livro antes de lê-lo. Mas eu preciso escrever sobre esse livro. Preciso. Então, se vocês são como eu e não gostam de conhecer a história antes de lerem o livro, aconselho que pulem para o parágrafo final. 

Eu acho extremamente complicado traduzir o porque alguns livros são tão magnificamente bons e outros tão especialmente ruins. Na minha humilde opinião, existem dois caminhos para se criar um bom livro. Você pode ter essa história super fantástica, como Harry Potter ou Eragon, e simplesmente ir contando ela. Ou você pode criar uma história "normal" e contá-la de maneira fantástica, como "A Libélula dos Seus Oito Anos" ou "O Assassinato de Roger Acroyd". 

Eu diria que o livro do John Green pende mais para o lado do escrito magnificamente do que para o lado de história totalmente empolgante. Quero dizer, livros de garotas com câncer tem aos montes por ai. Romances juvenis então nem se fala. Mas ele pegou esses elementos meio "batidos" e fez algo totalmente novo e maravilhoso.

O que eu realmente, realmente gostei no livro é que apesar da Hazel (personagem principal) ser uma vítima (do câncer) ela não é uma vítima (da vida). Ela não passa o livro inteiro chorando por que oh! como é triste viver assim, nem o câncer é uma desculpa para fazer a história parecer mais "profunda" do que realmente é. Ela é como uma pessoa real realmente é. Às vezes ela fica totalmente de cara com o universo por fazer o que faz com ela, às vezes ela simplesmente aceita as coisas como são e segue em frente do jeito que é. 

É bom ler um livro que finalmente quebra esse monte de ditados horrorosos como "Sem dor, como conheceríamos a alegria?", ao que a Hazel brilhantemente responde que o sabor do brócolis não afeta em nada o do sorvete. 

É bom ler um livro que não romantize uma doença tão horrível quanto o câncer. Porque é horrível. Porque é decididamente uma das piores doenças que jamais existiu. Porque é teu corpo se virando contra ele mesmo. Porque requer um tratamento que é tão horrível quanto a doença em si. E isso NÃO devia ser romantizado. 

É bom ler um livro que tenha uma personagem principal que, antes de mais nada, é inteligente. Que não é só mais uma garota estúpida com sonhos mais estúpidos ainda. Que sabe fazer piada mesmo quando tudo está caindo aos pedaços. Que é tão verdadeiramente feita de awesome.

É bom ler um livro que é cheio de referências a Shakespeare. E que a cada página trás um quote mais inesquecível do que outro. 

E é terrivelmente bom ler um livro onde apareça um Augustus Waters. Convenhamos, ele é o garoto mais incrível do universo. E eu subiria com ele nessa montanha russa, que só vai para cima, até o fim. 

Uma pena que ele não exista. Mas bem, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos. 
Para concluir, basta dizer que eu leria até a lista de compra do John Green. 
E seria muito feliz fazendo isso. 

P.S.: O nome "A Culpa é das Estrelas" que me irritou tanto no início, é uma referência a uma passagem de Júlio César:
“A culpa, querido Brutus, não é de nossas estrelas, mas de nós mesmos.”
(Sorry Shakespeare, mas às vezes a culpa é sim das estrelas. John Green provou isso).

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Oliver Twist

Confesso, meio envergonhada, que há meses Oliver Twist estava na minha estante, criando poeira. Tinha começado a lê-lo ainda em outubro do ano passado, mas acabaram aparecendo outros livros e uma coisa leva a outra... Acabei emprestando Oliver e só agora o recuperei. Tão logo o tive em mãos, devorei-o em apenas uma tarde. E só guardo um remorso: não ter lido antes. Charles Dickens, afinal, não se encontra entre os grandes nomes da literatura inglesa ao acaso. Os ingleses, desconfio, tem algo especial em seu material genético, ou talvez seja alguma coisa do ar de lá. Terra de gênios literários como Shakespeare, Tolkien, Agatha Christie, George Orwell, Aldous Huxley, Jane Austen, Douglas Adams e tenho certeza muitos e muitos outros que me fazem suspirar e acreditar, afinal, que a humanidade ainda tem jeito.
Independente do motivo (e deixando minhas teorias mirabolantes de lado), é preciso dizer e confirmar que Oliver Twist é incrível. A história é intercalada entre momentos trágicos e passagens irreverentes. Você está rindo, vira a página e encontra um motivo para entrar na mais profundas das depressões. E é isso, junto com o talento do escritor de te prender a história, que faz do livro tão bom. É uma narrativa equilibrada, leve, fácil e ao mesmo tempo envolvente. Sem mais demoras, então, uma pequena introdução a história.

Um menino órfão sem ninguém para interceder por ele. Apenas mais uma criança faminta em mais um abrigo da Inglaterra de mais de cento e cinquenta anos atrás. A situação é desoladora. Já na primeira página, contudo, Dickens já deixa clado que Oliver Twist não é feito de um material tão frágil assim.
"Do lugar em que Oliver Twist nasceu e das circunstâncias que ocorreram nessa ocasião.
Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.
Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.
Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas paginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.
Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.
A razão é certa. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro. 
O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz."
 O pequeno órfão, de olhos tremendamente expressivos, que me simpatizou imediatamente e que emprestou seu nome ao título do livro, não deixa a desejar em nenhum momento. A cada infortúnio um peso tomava meu peito e eu temia que enfim seria demais para Oliver. Mas a cada novo obstáculo ele se mostrava com aquele mesmo espírito delicado e cativante das primeiras páginas. Até mesmo o pequeno diálogo com Dick se torna extremamente tocante. E como não seria? Duas crianças ligadas pelo o infortúnio e mesmo assim ainda nobres em sua essência. Outra personagem marcante é Nanci. Aquela a quem o destino mostrou-se ainda mais cruel do que a Oliver. Uma menina que se mostra, apesar de tudo, sensível aos problemas alheios. Uma menina, no entanto, condenada a um amor autodestrutivo. 
De muitas outras histórias acredito que Oliver Twist é uma das que apresenta os monstros mais terríveis, talvez por serem mais reais: a fome, a solidão, a indiferença e o destino daqueles a quem não resta mais ninguém. 
Como vocês podem ter notado não coloco muito sobre o enredo do livros nessas minhas supostas resenhas, para o Desafio Literário. O que fazer? Não acredito em sinopses, mesmo as mais inocentes podem acabar com a surpresa deliciosa que é encontrar cada pequena surpresa a cada página virada. Espero, contudo, que apenas essas pinceladas breves que faço sejam o suficiente para despertarem em vocês o interesse por qualquer livro que seja. E desse, que falo hoje em especial, devo recomendar com especial entusiasmo.
Leiam, nem que seja para me contradizerem. Desliguem o computador, leiam um livro. Ou leiam um e-book e mostrem que o subtítulo é totalmente ultrapassado. Enfim, boa semana para vocês. E me desejem sorte, porque alegria de pobre (e de estudante!) dura pouco e as férias já estão acabando. Abraço!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”

William Shakespeare, por ser Shakespeare, já é alguma coisa. Confesso que  quando me vi de frente a um livro dele tão conhecido e prestigiado como Hamlet já comecei a suar frio. Foram horas na folha de rosto criando coragem para começar a ler, afinal, não é um livro qualquer! É uma obra de mais de quatrocentos anos e que durante todo esse tempo é tida como uma grande obra. Em um certo momento quase me senti indigna de ler esse livro, quero dizer, não seria necessário anos a fio antes de se ter um intelecto capaz de compreender Shakespeare?
E então comecei a ler e entendi porque afinal Shakespeare é Shakespeare. Não foi com uma trama complicada e complexa que o Bardo de Avon se imortalizou. A complexidade é deixada toda aos personagens. Eles transitariam pelo mundo real sem problema algum, ou melhor, com todos os problemas com que o resto da humanidade também convive.  No fim Hamlet não deixa de ser um retrato do ser humano, com suas dúvidas, tristezas, angústias e até mesmo loucuras, como nós mesmos somos. 
Hamlet acredita que seu tio e atual rei, Claudio, assassinou seu pai e antigo rei para obter o trono. Claudio, irmão do antigo rei, se casou com a mãe de Hamlet antes mesmo que se completassem dois meses da morte do rei Hamlet. Contudo quem denunciou o atual rei da Dinamarca a Hamlet foi um suposto fantasma do antigo rei. Seria realmente uma aparição ou apenas um delírio da mente perturbada de Hamlet? Esse é um ponto importante da trama, Hamlet está ou não louco? Seja como for, se é verdade o que o fantasma denunciou a ele esse crime deve ser vingado. Será Hamlet capaz disso? 
Capaz ou não, são dele os créditos de algumas das passagens mais marcantes (e conhecidas) do livro. Sua língua afiada não falha em ambiguidades e até mesmo certo veneno ao tratar aqueles que julga culpado. Seus diálogos com a mãe são sempre cheios de controvérsias, afinal, ele a ama e ao mesmo tempo a considera culpada. Mas será ela inocente, ou culpada? Ele está louco, ou finge? O pai foi assassinado, ou não? Afinal, ser ou não ser?
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre

Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação. "

Essa passagem, por si, já valeria o livro, mas no fim se perde em meio a esse oceano de reflexões, monólogos e diálogos que  nos é oferecido por meio de Hamlet. Um livro para ser lido e, mais do que qualquer outro, para se pensar sobre o que se leu. Um livro para ler, reler e ler mais uma vez para ter certeza do que se está sendo dito. Para absorver cada palavra, cada reflexão. 
O livro em si me deixou meio perturbada. A tragédia, a traição em si, a loucura na qual o personagem se encontra (acredito sim que ele estava louco, em parte), a maneira com que Ofélia acaba é tão... horripilante. Me pergunto como Shakespeare conseguiu entender o ser humano até esse ponto. Mas afinal, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia... 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Mesa Voadora - Luís Fernando Verissimo


Sou fã assumida e de carteirinha do Luís Fernando, na verdade sou de toda a família Verissimo. Uma herança de minha mãe, que gosta tanto da obra deles que chegou ao ponto de batizar a filha dela como Bibiana. (Nome bonito, né?).  Das tirinhas na ZH da “Família Brasil” as crônicas de “Comédias da Vida Privada”, das histórias de “Para Gostar de Ler” até “As Mentiras que os Homens Contam”, ainda não consegui desgostar de seus escritos. 

Luís Fernando Verissimo tem essa maneira de dizer o que quer de uma maneira que ninguém mais conseguiria. Ele transforma o evento mais banal – um Buffet, por exemplo – em uma bela sátira. Uma sátira em relação às pessoas, ao país, ao próprio mundo. Ele faz de suas crônicas uma experiência única, elas têm essa leveza, essa superficialidade aparente que não deixa de ser apenas isso: aparente. Uma pequena alfinetada aqui em relação ao preço exorbitante de contas de restaurante, outra ali sobre a falta de educação das pessoas. 

Sabendo disso tudo, conhecendo a obra do Verissimo não consegui ler o livro dele sem certa expectativa, ainda folheando as páginas um sorriso já sombreava meu rosto. Sim, a predisposição para entrar no mundo de ironias e sarcasmos já estava ali, eu estava só esperando o momento para começar a gargalhar. E eu não me decepcionei. 

Se existe uma coisa que eu gosto é de livros. Se existe uma segunda coisa que eu gosto é de comer. Imaginem minha felicidade ao devorar um livro. E que livro delicioso este! A Mesa Voadora dá água na boca, e me fez ir da primeira a última página na mesma tarde. Uma tarde de muitas – muitas – risadas, de paradas para retomar um fôlego, para digerir aquela crônica um pouco mais pesada... 

Já comecei chorando de rir, com “Buffet”. Mais adiante “Com champignon” me deixou sentimental com seus dois finais, “De ressaca” foi uma das que mais gostei, e “Terra de Monstros”... bem, acho que todos deveriam ler essa. 

A Mesa Voadora é um livro que mostra porque o Luís Fernando está na lista dos maiores (e mais queridos) escritores brasileiros atuais. Acho que todos deveriam abrir esse livro numa dessas tardes de verão e mergulhar de cabeça nessas histórias mais do que deliciosas. Garanto que vocês não se arrependerão.