William Shakespeare, por ser Shakespeare, já é alguma coisa. Confesso que quando me vi de frente a um livro dele tão conhecido e prestigiado como Hamlet já comecei a suar frio. Foram horas na folha de rosto criando coragem para começar a ler, afinal, não é um livro qualquer! É uma obra de mais de quatrocentos anos e que durante todo esse tempo é tida como uma grande obra. Em um certo momento quase me senti indigna de ler esse livro, quero dizer, não seria necessário anos a fio antes de se ter um intelecto capaz de compreender Shakespeare?
E então comecei a ler e entendi porque afinal Shakespeare é Shakespeare. Não foi com uma trama complicada e complexa que o Bardo de Avon se imortalizou. A complexidade é deixada toda aos personagens. Eles transitariam pelo mundo real sem problema algum, ou melhor, com todos os problemas com que o resto da humanidade também convive. No fim Hamlet não deixa de ser um retrato do ser humano, com suas dúvidas, tristezas, angústias e até mesmo loucuras, como nós mesmos somos.
Hamlet acredita que seu tio e atual rei, Claudio, assassinou seu pai e antigo rei para obter o trono. Claudio, irmão do antigo rei, se casou com a mãe de Hamlet antes mesmo que se completassem dois meses da morte do rei Hamlet. Contudo quem denunciou o atual rei da Dinamarca a Hamlet foi um suposto fantasma do antigo rei. Seria realmente uma aparição ou apenas um delírio da mente perturbada de Hamlet? Esse é um ponto importante da trama, Hamlet está ou não louco? Seja como for, se é verdade o que o fantasma denunciou a ele esse crime deve ser vingado. Será Hamlet capaz disso?
Capaz ou não, são dele os créditos de algumas das passagens mais marcantes (e conhecidas) do livro. Sua língua afiada não falha em ambiguidades e até mesmo certo veneno ao tratar aqueles que julga culpado. Seus diálogos com a mãe são sempre cheios de controvérsias, afinal, ele a ama e ao mesmo tempo a considera culpada. Mas será ela inocente, ou culpada? Ele está louco, ou finge? O pai foi assassinado, ou não? Afinal, ser ou não ser?
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setasCom que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,Ou insurgir-nos contra um mar de provaçõesE em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.Dizer que rematamos com um sono a angústiaE as mil pelejas naturais-herança do homem:Morrer para dormir... é uma consumaçãoQue bem merece e desejamos com fervor.Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:Pois quando livres do tumulto da existência,No repouso da morte o sonho que tenhamosDevem fazer-nos hesitar: eis a suspeitaQue impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,Toda a lancinação do mal-prezado amor,A insolência oficial, as dilações da lei,Os doestos que dos nulos têm de suportarO mérito paciente, quem o sofreria,Quando alcançasse a mais perfeita quitaçãoCom a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,Gemendo e suando sob a vida fatigante,Se o receio de alguma coisa após a morte,–Essa região desconhecida cujas raiasJamais viajante algum atravessou de volta –Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?O pensamento assim nos acovarda, e assimÉ que se cobre a tez normal da decisãoCom o tom pálido e enfermo da melancolia;E desde que nos prendam tais cogitações,Empresas de alto escopo e que bem alto planamDesviam-se de rumo e cessam até mesmoDe se chamar ação. "
Essa passagem, por si, já valeria o livro, mas no fim se perde em meio a esse oceano de reflexões, monólogos e diálogos que nos é oferecido por meio de Hamlet. Um livro para ser lido e, mais do que qualquer outro, para se pensar sobre o que se leu. Um livro para ler, reler e ler mais uma vez para ter certeza do que se está sendo dito. Para absorver cada palavra, cada reflexão.
O livro em si me deixou meio perturbada. A tragédia, a traição em si, a loucura na qual o personagem se encontra (acredito sim que ele estava louco, em parte), a maneira com que Ofélia acaba é tão... horripilante. Me pergunto como Shakespeare conseguiu entender o ser humano até esse ponto. Mas afinal, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia...
Li Hamlet há uns três anos antes de assistir a uma peça, pra não ficar perdida e tal.
ResponderExcluirAcabou que eu adorei o livro! Espero reler em breve, é uma obra maravilhosa e cheia de momentos feitos especialmente para você querer ler mais uma vez xD
Ótima resenha :D
ah, sheakespeare é muito legal e hamlet é a sua obra mais clássica - como tu disse :)
ResponderExcluirO interessante desse autor é que ele não dá características físicas claras as suas personagens, o que faz com que o leitor possa configurar toda aparência do elenco de seus livros que, na maioria das vezes são transformados em peças. a verdade é que eram originalmente peças e alguns foram adaptados para livros; o engraçado a ler sheakespeare é o início de cada capítulo com a cena, a locação e o clima dos populares, por exemplo: "Cena 4, uma relva, um palácio, pessoas aflitas" husahusa
ótimo post bibi :)
Se sobrar tempo, ainda leio Hamlet para o DL.
ResponderExcluirAdorei a resenha.
Bjs!
Adoro o monólogo "Ser ou não ser". Meu 3º livro é também Hamlet, o 2º foi Macbeth, é muita tragédia shakesperiana em um mÊs só. rsrs
ResponderExcluirAdorei a resenha! Amo essa peça, as personagens são bem complexas mesmo, o que as faz fascinantes pra mim!
ResponderExcluirCriei um blog há menos de um mês, ficarei infinitamente feliz se você puder visitá-lo e, quem sabe, segui-lo e comentar em alguma postagem (entrepalcoselivros.blogspot.com)! Ótima semana pra você! :)
Shakespeare é universo à parte ainda que nos diga tanto respeito. Vontade de reler.
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