segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Brutus e Bernardo

Brutus conheceu Bernardo assim que abriu seus enormes olhos cor de ameixa. Naqueles dias, as mãos do menino não eram nem um pouco grandes, mas mesmo assim Brutus conseguia se esconder no meio delas.

Os dois cresceram juntos. Correram juntos. Se esconderam juntos. Criaram confusões pela vizinhança, estragaram o jardim da mãe de Bernardo, ouviram broncas, fugiram de banhos, surrupiaram doces, deitaram no gramado verde do quintal e observaram os verões passarem em dias quentes de sol amarelo.

Até o impossível acontecer.

Bernardo desceu a rua correndo. Um riso solto em seus lábios, a mochila pendurada em um só braço. Os meninos do bairro passaram correndo quando ele parou ofegante na frente de casa. Gritaram um adeus mal-educado. Voltariam a se ver na aula de amanhã.

O menino olhou desconfiado para o portão meio aberto, onde o incansável e incontrolável Brutus não o esperava. Nada de olhos esbugalhados e focinho babado, nada de língua para fora e rabo com vida própria. Não. Só a mãe.

Olhos chorosos. Vontade de estar em outro lugar. Ela lhe ofereceu um pedaço de chocolate e uma explicação. Brutus já não morava mais ali. Depois de roubar um pacote de balas. E de comê-las todas. Depois de se encher da maior alegria e fugir do quintal. E descuidar para o trânsito, para os carros, para as rodas. E, principalmente, para o fato de que não devia ir para baixo delas. Depois de tudo isso, Brutus tinha ido embora.

Estava agora contente no Céu dos Cachorros, onde poderia desfrutar de todos os doces do mundo e passar o dia em brincadeiras de pique-cola

Bernardo ficou inconsolável. Foi para seu quarto e não quis mais sair de lá. Não entendia nada. Como Brutus podia fazer algo assim com ele? Eram amigos inseparáveis desde o primeiro olhar que trocaram. Não existia Brutus sem Bernardo e não existia Bernardo sem Brutus. Não deveria existir.

Como podia o seu amigo lhe trocar por um céu qualquer?

Mas então Bernardo começou a pensar sobre o que a mãe tinha lhe contado. Sobre a promessa de doces sem fim. Sobre um lugar de brincadeiras infinitas. Um lugar melhor. Bernardo olhou pelas nuvens lá fora, emolduradas pela janela, e soube. Se Brutus tinha tido coragem, ele também iria ter.

Quando a mãe foi visitar a avó na casa ao lado, Bernardo colocou seu plano em ação. Escalou a laranjeira do jardim. Foi até o galho mais alto. Por um instante se assustou com a altura, com o vento, com seu próprio medo. Mas deixou isso tudo de lado: tinha um plano a seguir.

Tomou um impulso e se lançou ao céu.


Bernardo, é claro, só não contava com a força da gravidade.

No caminho para o hospital, com um braço possivelmente quebrado e uma mãe certamente zangada, o garoto só tinha um ressentimento: Brutus tinha o abandonado e o danado nem tinha se dado ao trabalho de primeiro lhe contar onde tinha aprendido a voar.

Ou ao menos indicado o caminho certo para o céu.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A Eterna Incompreensão Humana - ou como ainda não aprendemos a ler

O que talvez Deus não previu em nenhum de seus seis dias, muito menos durante o sétimo dia do descanso, foi a confusão que só os humanos e sua falta de habilidade na compreensão de textos poderiam causar. Se Ele soubesse, é certo que começaria as aulas de literatura ainda no Paraíso. Muito antes prevenir do que remediar.

Não que eu ainda acredite tanto assim no poder dos livros. Claro que eu gosto deles. Mas meu medo é que nem a Agatha Christie possa salvar alguém. A ignorância até pode ter suas curas, mas a estupidez humana chega a níveis inacreditáveis. E talvez, infelizmente, irreversíveis. E irremediáveis.

É quase como se todos vissem a sua frente folhas em branco. E por mais que eu seja uma entusiasta da criatividade. E por mais que eu acredite na importância da imaginação, há de se dizer que existe um ponto em que começar a ver tempestades inteiras em copos de água se torna no mínimo problemático. E, na ponta radical do iceberg, é ai que a gente passa de amai-vos uns aos outros para vamos odiar todos que não se encaixam na nossa ideia de dignos.

Agora o que faz de mim uma autoridade para dizer o que é certo ou o que é errado na hora de interpretar o mundo, vocês me perguntam. Bem, na real mesmo, nada. Até porque se eu posso ser franca, nessa história de ter imaginação demais eu sou culpada.

E a coisa toda fica mais difícil porque a leitura do mundo é cheia de palavras complicadas. De personagens que mudam de lado. De mudanças de cenários. De protagonistas estranhos, mal compreendidos e mal-humorados.

E não é só isso! Talvez o pior de tudo seja a semelhança com Machado de Assis, porque claro que não poderia ser algo doce como Jane Austen. Tem que ser ambíguo e tu nunca vai ter certeza se a Capitu merece tua dor ou tua raiva.

Mas talvez o auge da falta de compreensão sejam os comentários espalhados por toda internet. Se Deus teve a chance de ler alguns destes, é certo que ele soube:

A sua humanidade foi um fracasso.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Fim das Ilusões

Quão rápido medo se transforma em realidade?

Quão rápido um sonho se transforma em pesadelo?

Quão rápido é possível transformar tristeza em raiva?

E quão rápido é possível destruir tudo sem pensar duas vezes?


Basta um momento.

Basta um piscar de olhos.

Basta um bater de coração.

Basta a verdade.


A verdade de que a vida não é um livro da Jane Austen.

A verdade de que eu estou bem longe de ser a heroína de um livro.

A verdade de que eu estava certa um dia. E errada em outro.

A verdade de que tudo que eu queria era ser tão inteligente quanto todos parecem pensar que eu sou.


É mais fácil odiar.

É mais fácil esquecer.

É mais fácil criar um universo paralelo.

É mais fácil viver com ilusões,


Do que um dia acordar sem elas.

Do que ter que viver com medo de ser machucada.

Do que viver no mundo real.

Do que gostar no mundo real.


Porque no mundo real, as coisas não acontecem como o esperado.

Porque no mundo real, ninguém mais segue o script tão bem ensaiado.

Porque no mundo real, as pessoas te veem como você é.

Porque no mundo real, você é só você.


Só o drama,

Só a impaciência.

Só o medo.

Só a menina.


Que não sabe como viver.

Que tem medo de morrer.

Que gosta de escrever.

Que queria que tudo fosse fácil.


Mas que agora entende, que nada nunca vai ser.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Ordem dos Planetas

Em primeiro lugar a música.
A mesma música, tocando incessantemente. 
Como deve ser.

Em segundo lugar as luzes.
Luzes de natal, iluminando parte da escuridão do quarto.
Um segredo: Elas parecem estrelas se você apertar bem os olhos. 

Em terceiro lugar o gato.
Deitado na minha cama, como se fosse dele.
Um gato meio-cego, preto e branco e levemente louco. 

Tudo parece estar no no devido local. 
Tudo parece em paz. 
Tudo parece tão normal.

Mas basta eu fechar os olhos para perceber.
Nada é mais como era antes, tudo mudou.
Eu não sei o que estou fazendo.

E a parte mais estranha, 
Isso me assusta na mesma medida que me fascina. 
E quando eu abro os olhos é inacreditável, mas

De alguma forma,

Meu mundo inteiro é uma coisa completamente nova.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Um Dia ou Dois

Talvez um dia a gente se olhe e a gente se diga que valeu a pena. E quem sabe um dia seja verdade. Talvez um dia os sorrisos deixem de ser falsos e a amizade volte a ser rotina e deixe de ser pura força de vontade. Talvez um dia a gente se esqueça de como foi um dia. E talvez um dia a gente esteja finalmente pronto pra voltar a ser, sem se importar com o que realmente estamos sendo. Talvez um dia a gente volte a encontrar a perfeita simetria que só é encontrada quando não está sendo procurada. Talvez um dia. E talvez não.

Talvez um dia eu tropece na rua e bata minha cabeça no chão. E talvez nesse dia, minha memória se perca. Minha personalidade inverta. E tudo que era certo, se torne não. Talvez um dia eu te veja na rua e não lembre de ti. E quem sabe em outro dia eu te veja e finja que não vi. E talvez um dia eu tropeça de surpresa ao te ver. E ao lembrar. Lembrar de tudo que eu nunca fui, nunca serei, e nunca vou querer ser capaz de esquecer. E talvez, em segredo, agora já não tão secreto assim, talvez eu ainda sorrie um pouco, de vez em quando, de quando em vez, quem sabe eu ainda sorrie assim, pensando em você. Mas talvez não.

Talvez um dia, sem querer ou procurar ou quase desistindo de tentar, eu encontre alguém. E outro alguém você também a de encontrar. E talvez um dia, nessas idas e nessas vindas de tudo que foi. De tudo que não foi. De tudo que será. E de tudo que nunca poderia ter sido. Talvez em meio a essa loucura desse universo em movimento, talvez a gente simplesmente se perca de si mesmo. Se deixe pra trás. Talvez a gente passe a ser só lembrança antiga e embaralhada no meio das teias de aranha das memórias quase esquecidas na mente do outro.

E talvez até esse dia a gente tenha aprendido mais sobre a vida. E mais sobre o mundo. E mais sobre tudo. E talvez nesse dia nós finalmente tenhamos nos tornado mais sábios. E menos barulhentos. E mais calmos. E mais felizes. Eu espero que ainda mais felizes.

E quem sabe, então, nesse dia - a gente se olhe e a gente se diga que valeu a pena.

E que então a gente perceba que é verdade. E que a gente sorria em paz e deixe que o futuro que não tivemos também descanse em paz, nesse infinito cemitério de sonhos perdidos.

Talvez um dia.
Talvez dois.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Todas as crianças crescem, menos uma

As vinte horas e quarenta e sete minutos, meus olhos desviam da TV e acabam nos números brilhantes e laranjas da GVT, que mostram as horas incessantemente. Eu me perco, por um minuto ou dois, pensando nisso. Pensando no constante correr das horas, dos segundos se tornando minutos, se tornando horas, criando dias inteiros que correm rapidamente e se transformam em semanas. Em meses. Em anos. 

Parte da minha vida chegou ao fim.

Este é sempre o sentimento que corre nas minhas veias depois de visitar a Liberato. Depois de quatro anos de longas reclamações, agora que finalmente consegui sair de lá, não consigo deixar de sentir que perdi algo no caminho e que este algo nunca mais vai voltar. Eu fui feliz lá, muito mais feliz que já tinha sido na minha vida. E muito infeliz também, em tantos dias que foram difíceis de viver. A Liberato foi minha vida, meu mundo e meu universo e agora eu estou oficialmente a deixando para trás.

É assustador.

Assustador pensar que no final do mês meu estágio chega ao fim e que eu decidi, simplesmente, ir embora. Assustador pensar que em dezembro recebo meu certificado de Técnico de Eletrônica, quando eu nem lembro muito bem como funciona um indutor. Assustador pensar que o Ensino Médio chegou ao fim, que de uma forma ou de outra eu tenho que escolher um curso na faculdade e um emprego e que de uma hora pra outra, talvez tenha chegado o momento em que eu tenho que começar a pensar em mim mesma como uma adulta.

Como se eu ao menos soubesse como isso funciona.

Eu olho para o futuro e tudo que eu sinto é medo de falhar. Medo de acabar sozinha e infeliz, em uma casa com três bilhões de livros e nenhum sorriso. Tenho medo de um futuro medíocre. De nunca ser mais do que a média. De viver uma vida sem momentos inesquecíveis. De nunca ser inesquecível para ninguém. Medo de morrer sem ter vivido. Medo de nunca, realmente, descobrir como é viver e de chegar no fim só pensando em tudo que gostaria de ter feito e nunca fiz. Medo de nunca ter coragem de dizer o que precisa ser dito. Medo de nunca ter coragem de lidar com as consequências. Medo de estragar tudo, mais uma vez, e descobrir que já não existem chances pra tentar de novo. Tenho medo de tudo e do amanhã, que pode vir com sol - mas que provavelmente virá com chuva.

Guardo toda a bagunça embaixo de uma cama imaginária dentro de minha mente.

O relógio da GVT me diz que são oito e cinquenta e dois e Plantão Médico voltou a passar na Warner. Me recosto nas almofadas no sofá e perco os próximos minutos pensando em como o George Clooney é bonito.

Quem sabe o dia em que terei que começar a agir como uma adulta esteja chegando. Quem sabe eu já não seja a pessoa que imagino ser. Quem sabe esteja chegando o dia em que preciso crescer.

Mas por hoje, por esta noite, eu prefiro ainda ser essa menina boba, estranha e meio perdida.

Afinal, todo mundo sabe que todas as crianças crescem, menos uma. Mas ninguém nunca me disse que a infância tinha data de validade. E, até o momento, eu não sinto nenhuma vontade de abandonar a Terra do Nunca.

sábado, 15 de agosto de 2015

A Rainha do Drama

Quem sabe um dia,

Por sorte ou por destino,

A menina do espelho me diga

Quem é quem nessa vida.


E que finalmente eu entenda

O problema que ela enfrenta

Quando vejo nos seus olhos

Que não há nada mais


Senão ódio.


Tristeza. Cansaço. 

Decepção.

Amor. Alegria. 

Disposição.

Cansaço. Fadiga.

Depressão. 

Euforia. Felicidade.

Diversão. 


Acontece que

Cinco minutos são o bastante

Para ela mudar de estação.


Da tempestade à calmaria

É assim que ela vive sua vida.

Mas quem sabe não exista explicação,


Quem sabe ela chore como quem vive,

E viva como quem ama.

Sem mais preocupações.


E quem sabe ela só espera,

Por sorte ou por destino,

Alguém que apareça e lhe diga, 

"Tudo bem ser essa cacofonia".


Pois um dia mesmo ela

Vai encontrar sua sintonia.

E até lá tudo bem ser assim,

Do drama, a Rainha. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Primeiro Amor e Outras Bobagens

Eu tinha completado 15 anos, o que então me parecia muito - e que hoje eu sei que até poderia ser muito mesmo. Mas não era. Eu tive sorte em muitos aspectos, mesmo que talvez naquele tempo parecesse puro azar. Eu ainda tenho muita, muita sorte - o tipo de sorte que faz eu me sentir culpada, ao lembrar a noite, quão pouco merecedora eu sou do favoritismo do Universo. Mas eu tento não reclamar muito disso: um dia, eu sei, o Universo a cobrar seu preço, então, até lá, eu tenho a inteção de aproveitar bem o passeio.

De toda forma, quando eu completei 15 anos eu me apaixonei perdida e infinitamente por um garoto da minha escola. Não me lembro porquê. Por mais que depois de tudo eu tenha me perguntado tantas e tantas vezes qual foi o momento decisivo e por mais que eu venha perscrutando minha memória há anos, eu nunca soube dizer. O momento derradeiro em que meu coração foi arrancado de dentro do meu peito e colocado em praça pública, pronto para a decapitação (ou seja lá a forma que se mata um coração em praça pública) se perdeu em algum lugar da minha mente. Simplesmente aconteceu, eu imagino, como deveria acontecer.

Hoje eu me lembro de tudo com bem menos precisão do que eu já lembrei um dia. O que também é bom. Os filtros da memória sempre nos ajudam a apagar aqueles momentos que não precisam ser lembrados. Eu me lembro de me sentir agoniada e histérica e de tantas formas irracional, mas é bom que seja tudo uma memória turva. Quando algo foi difícil de viver, não gosto nem de imaginar como seria ruim não esquecer nem uma partezinha. Mas eu estou me precipitando, e muito, na história.

Porque até o momento eu estava completando quinze anos. E achava os olhos dele bonitos. E o sorriso. E a maneira como quando ele chegava todas as conversas se voltavam para ele, mas mesmo assim, não eram sobre ele. Nunca vi nada de tão atraente assim em pessoas que só sabem falar de si mesmas. Ele falava do Universo e fazia perguntas complicadas sobre física. E eu sorria de volta, tentando parecer mais esperta do que era, querendo ser mais inteligente do que era, tentando parecer madura e, dessa forma, só mostrando bem a criança que eu ainda era.

Claro que eu agi como a idiota que eu ainda sou. Claro que eu, despreocupadamente (ou nem tanto), dei um jeito de aos poucos descobrir sua agenda. E seus gostos e desgostos. Não me olhem torto: o Facebook, o Twitter e o Orkut (que ainda funcionava bem, naquela época) me ajudaram na minha empreitada. Mas claro que existiram momentos de pura loucura também, como quando li todo o blog que ele mantinha há anos, de cabo a rabo.

Eu já senti vergonha de tudo isso, mas hoje eu acho engraçado. Acho engraçado lembrar como tentei e tentei começar uma conversa com ele pelo MSN. Pedindo um livro emprestado. Falando qualquer coisa de Game of Thrones. Eventualmente deu certo. Eventualmente conversamos num finzinho de tarde de uma sexta-feira na escola. E, quase sem querer, a conversa se estendeu pelo MSN a noite. E, de alguma forma, no dia seguinte conversamos novamente.


Eu lembro de não entender. De não fazer ideia nenhuma, nenhuma, nenhuma, do que estava acontecendo. Eu me lembro de pensar "isso é mesmo a vida real?" e era. E aquilo me fez contente de uma forma difícil de conter e difícil de não acabar. Não era só felicidade, era literalmente maluquice.

E, então, pelos próximos meses eu entrei em uma montanha russa de sentimentos que seguia um rítmo bem regular: se a gente conversava era um bom dia, se ele falava com outra pessoa na minha frente e não falava comigo era um funeral, mas se a gente fazia algo de diferente do que eu poderia esperar, então era noite de Natal adiantada.

Eu matei aula pela primeira vez pra almoçar no Subway com ele e perambular pela livraria depois. Eu comecei esse blog por causa dele, na vã e desesperada esperança de que um dia ele o lesse. Eu li livros, artigos de revistas complicadas, assisti filmes e séries, eu fiz tudo e cada uma das coisas na esperança de mostrar que eu era boa o suficiente.

Mas eu não era.

Talvez "boa o suficiente" não seja a melhor expressão pra se usar. Talvez eu fosse só uma menina cheia e sonhos e com pouca realidade, venerando alguém que ela nem conhecia direito. Talvez a ideia de conseguir fazer alguém que era, sem dúvida alguma, mais inteligente e interessante do que eu, ter algum interesse por mim me afetasse e no final nem fosse nada como amor. Ou quem sabe ele simplesmente tivesse esses olhos bonitos eu estivesse apaixonada, mas o sentimento não era recíproco.

Às vezes é simples assim: ele não gostava de mim. E eu gostava demais dele.

E é ai que a verdadeira história começa.

Se gostar dele me fez agir como a maior maluca do Universo, uma stalker viciada em migalhas de atenção, saber que ele não gostava de mim, apesar de todos os meus esforços, mudou tudo.

A ideia pegou meu mundo e o virou de cabeça pro chão e pernas para o ar. 

Eu estava acostumada demais a ganhar. Eu estava cheia de mais de mim mesma. Eu me tinha neste pedestal de ouro no topo do Universo. E ele veio, roubou minha coroa e me jogou do topo direto para o limbo.

Eu eu caí. 
Céus, como eu caí.

O céu fechou. A tempestade desabou. Os anjos da morte vieram anunciar o Fim do Mundo. 

E o Mundo acabou.

Mas, de alguma forma, no dia seguinte eu ainda acordei. E no seguinte ao seguinte também. E o céu ainda estava azul em cima da minha cabeça e a grama ainda estava verde embaixo dos meus pés. E os livros ainda tinham folhas amareladas e a fragrância do paraíso. 

E a vida continuou. Mais lentamente. Com menos presunção. Com mais livros. Comigo diferente do que tinha estado no início. Comigo mais forte e menos arrogante. Nem tão deslumbrada. Nem tão fácil de deslumbrar. Com raízes mais fundas, com ideias mais claras. Com certezas mais exatas. Comigo sabendo que não deixaria mais ninguém me moldar dessa forma.

Ele eu deixei porque foi o primeiro. O primeiro a fazer meu coração bater, literalmente, mais forte só ao vê-lo. Logo eu, que sempre achei que isso era pura invenção de autores extravagantes e pouco criativos. O primeiro a me fazer ver que eu não tanto assim a Rainha do Universo, como às vezes eu fingia ser. O primeiro a me mostrar que nem sempre querer é poder.

Por ele eu mudei como eu não mudaria por mais nada nesse mundo. Porque foi com ele que eu descobri o que era esse tal de amor. E com ele que eu descobrir que sempre é bom amar, mesmo quando o amor não passa de uma ideia dentro da gente.

Uma ideia que, mesmo que às vezes seja dolorosa, a gente gosta de cultivar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Nem sempre é fácil

Mais ou pelos pelas seis da manhã o despertador começa seu árduo trabalho de me fazer acordar.

Nem sempre é fácil.

Se até as seis e meia eu não apresentar claros sinais de consciência, minha mãe ou minha irmã começam a gritar por mim no andar de baixo.

Nem sempre é fácil.

Quase todo dia eu me pergunto que raio de vida é essa. Qual o sentido de ter que se torturar todos os dias pela manhã. Se arrastar lentamente para o trabalho. Perder praticamente todos os sinais da luz solar e do céu azul mais lindo do universo perdida em uma sala com janelas fechadas e aquelas luzes brancas terríveis.

E mesmo sabendo que não é fácil, eu não deixo de me perguntar.

Porque a gente faz isso consigo mesmo. Porque entrar para esse jogo de malucos. Perder a maior parte de nossa vida trabalhando pra outras pessoas, perder a maior parte de nossas vidas apenas atrás de dinheiro que vai pra quem já tem muito dinheiro e que vão continuar ganhando mais e mais dinheiro. 

O diheiro que eu poderia guardar no banco não vale mais do que uma tarde na grama, com sol no rosto e um vento quente em pleno agosto. O dinheiro que eu poderia guardar no bolso, não vale uma conversa alegre, não vale uma caminhada sem destino, não vale o olhar de um bom amigo. O dinheiro que eu poderia ganhar nunca substituiria tudo que eu poderia ter.

Mas eu continuo acordando todos os dias mais ou menos as seis horas, com o toque estridente do despertador. E perdendo meus dias em uma sala com janelas fechadas. E uma luz branca de filme de terror. 

Pelo futuro, eu me digo. Pelo futuro, eu me prometo.

E a minha parte mais descrente não deixa de se perguntar:

Num mundo como o nosso, que futuro será esse?

domingo, 15 de março de 2015

Eu me lembro da Maria Antonieta

Nesses tempos de tantas movimentações, manifestações e de todo mundo sentindo vontade de gritar ao mundo todas suas opiniões (políticas ou nem tanto), eu me vejo  pensando na Maria Antonieta. Me vejo pensando nessa menina que nasceu na Áustria há tanto tempo atrás e que um dia veio a ser rainha da França.

Há muito que se diz sobre Maria Antonieta. 

Para alguns ela era apenas uma menina tola e alienada da realeza, que nunca, realmente, entendeu o que acontecia a sua volta. Para outros, ela não apenas entendia, como também previu e tentou impedir o futuro que viria para a França e para si mesma. De uma forma ou de outra, a verdade é que a maioria de nós lembra-se dela por uma frase que, na verdade, ela provavelmente nunca proferiu. Reza a lenda que ao saber que os pobres protestavam de fome, porque não tinham pão, Maria Antonieta teria dito "Se o povo não tem pão, que coma brioches!". 

Maria Antonieta literalmente perdeu sua cabeça com a Revolução Francesa. Suas últimas palavras? "Perdão, senhor. Eu não fiz de propósito". Ela tinha pisado no pé do carrasco, no seu caminho a guilhotina. 

Maria Antonieta se foi, mas a Revolução Francesa continuou. Apesar de ter começado com ideais muito bonitos como "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". E embora a ideia de acabar com a grande desigualdade da França, onde antes os nobres não faziam nada, mas tinham tudo e os pobres faziam tudo, mas não tinham nada, fosse uma ideia muito bonita. E embora a gente goste de pensar que é ótimo quando o povo vai as ruas e finalmente vê as coisas acontecendo, o poder mudando de mãos, as mudanças finalmente vindo, eu não consigo parar de pensar na Maria Antonieta. E na Revolução Francesa.

Eu penso em como foi fácil para Napoleão chegar ao poder. E penso em que lugar a França ficou depois disso. Eu penso também na Rússia, eu penso na Revolução deles e penso se eles teriam lutado com tanto afinco se soubessem o que lhes esperava. Se vissem a chegada de Stálin se aproximando.

E eu não consigo deixar de pensar pelo que devemos lutar. Quais mudanças realmente devemos pedir. E que preço estamos dispostos a pagar. 

E, se vocês realmente querem saber minha opinião, eu diria que mais do que tudo, devemos ter calma. Apesar da ânsia por mudança. Apesar de que nos doa na alma ver certas coisas ou o lugar onde nós estamos. Precisamos manter a calma. Aprender com o passado. Realmente pensar em que soluções temos em nossas mãos para melhorar o futuro. 

Nunca direi para alguém não lutar pelo que acredita. Mas, por favor, antes de lutarem, pensem bem, pelo que vocês estão lutando. 

E lembrem-se da Maria Antonieta. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os dias de descanso - Que eles venham logo!

Tem dias que eu canso.

De acordar cedo e já ir logo pegando dois ônibus.

Tem dias que eu canso.

De ficar contando as horas passarem, só para no outro dia contar de novo.

Tem dias que eu canso.

De esperar tanto do mundo. De não me contentar com o que tenho. De imaginar que ainda é pouco.

Tem dias que eu canso.

Das promessas que eu fiz. Dos objetivos que criei. Do futuro que planejei.

Tem dias que eu canso.

Mas amanhã já é sexta-feira então porque pensar que

Tem dias que eu canso?

Melhor pensar que logo o final de semana vem com seus maravilhosos dias que são feitos de puro

Descanso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Considerações sobre a vida

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a parecer brincadeira. Uma música do Engenheiros ao fundo, uma tarde de sol num dia de inverno. Um edredom aconchegante e alguém para abraçar. Um bom filme. De preferência uma comédia romântica inglesa, que não requeira tanta atenção assim. Talvez uma manhã na beira do mar, num dia quente de janeiro. Talvez uma roda de amigos com um violão. Talvez só mais uma conversa perdida em uma madrugada vazia. 

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a ser fácil esquecer como ela realmente é. Como ela te da com uma mão, enquanto te tira com a outra. Que às vezes você ganha, mas muitas vezes você perde. E que às vezes não é justo. E que quase nunca é justo.  E na maioria das vezes nem tem com quem reclamar. Falta um SAC no universo, um zero oitocentos para a gente ligar e poder reclamar porque "Ei, não foi para essa vida que eu me inscrevi".

Mas eu nem acho essa a pior parte.

Quando as coisas dão errado, bem, elas deram errado e pronto. Aconteceu. Você junta os pedaços, cola com bonder ou chiclete, respira fundo e segue em frente. Não sobram opções, sabe? É isso que tem que ser feito e é isso que você faz. Não é o que eles dizem? Que a melhor parte de estar no fundo do poço é que só resta um caminho: para cima (a não ser que você decida cavar e acabe parando na China, mas esse é outro assunto). 

O grande problema, a grande maldade da vida não está nos momentos em que ela frustra nossos planos. Não e não. As grandes dores de cabeça, as verdadeiras dores de cabeça e peixinhos no estômago, começam quando a vida nos da escolhas. Quando ela coloca trinta portas na nossa frente e nos faz escolher por qual entrar, mesmo que nós praticamente não saibamos o que nos espera do outro lado.

Me lembra aquele programa que costumava passar no SBT, nos tempos em que eu ainda olhava o SBT. Lá estava um carinha em uma cabine a prova de som e ele podia responder "Sim" ou "Não". E lá fora ficava o Sílvio Santos perguntando "Você quer trocar uma escova de dentes por um milhão de reais?". E a pessoa, sem ouvir nada, berrava na cabine um estrondoso "NÃÃÃO!". E a platéia inteira gritava. E o Sílvio Santos perguntava outra vez "Quem sabe você queira então trocar um avião por uma moeda de cinco centavos?" "SIIIIIIIM!". E todo mundo chora e ri em casa. Ah, a tragédia humana.

Às vezes eu sinto como se a vida fosse tão sádica quanto a platéia do Sílvio Santos. Só esperando você errar em todas as escolhas. Mesmo que na verdade você não tenha  a mínima ideia sobre o que está escolhendo. Só esperando para rir do seu desespero ao descobrir qual o resultado das tuas ações. Ou talvez a vida simplesmente goste de se divertir com nossas expressões de pânico nos segundos que nos restam para escolher. 

Porque tudo sempre é uma questão de segundos. Os segundos que te separam de marcar a opção 'A' ou a 'D'. Os segundos que te separam entre um 'Sim' e um 'Não'. Os segundos, os longos segundos, logo antes de você cair no sono - que sempre são os momentos em que verdadeiramente escolhemos se vamos gritar sim ou não às escolhas que a vida nos dá. São sempre segundos que decidem tudo que virá. O que é uma injustiça sem tamanho. Mas é esse o ponto, não é? A vida não tem justiça no seu vocabulário. 

Talvez seja simplesmente o modo como ela é. Ou talvez seja o modo que ela precise ser. Talvez tenhamos que nos jogar em precipícios, às vezes, sem realmente sem saber o que nos espera lá embaixo. Talvez só devemos saber o que se esconde atrás das portas que temos coragem (e vontade) de atravessar. Talvez a vida nos mostre apenas esboços dos caminhos que podemos seguir, para não desistirmos assim que percebemos a quantos percursos nossas escolhas podem nos levar.

Porque talvez ela saiba que algumas decisões são difíceis por si mesmas, mesmo que só imaginemos o que nos espera. E talvez porque ela saiba que mesmo assim, são escolhas que valem a pena ser feitas. Talvez ela simplesmente não queira que a nossa imagem do futuro nos separe de nossos sonhos. 

Ou talvez ela realmente seja apenas uma velha sádica e ranzinza. 

Quem vai saber. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um céu lotado de aviões (que já se foram)

Alguns dias são longos demais e nos enchem de ideias.

Outros dias são curtos demais para todas as ideias que precisamos por na tela. 

Já outros dias simplesmente passam. Como um avião longe no céu, que um dia causou alvoroço. Mas que hoje é apenas mais uma coisa da vida.

Como todas as coisas. Como todas as vidas.

Que passam e passam. E continuam passando. E que infelizmente nunca param.

Mesmo quando não estamos olhando.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Da tristeza das coisas

Às vezes eu me pego pensando na capacidade que certas coisas tem de serem tristes. Como um par de botas de inverno pegando poeira nessas tardes quentes de verão. Como um carro velho que um dia foi brilhante e majestoso, mas hoje é desbotado e desajeitado. Como um casal que um dia andou abraçado e aos risos, mas que hoje caminha as pressas, com o mais frágil e quebradiço toque de mão. Às vezes eu me pego olhando para essas árvores perto dos fios de luz e como eles podam elas ao meio. E juro que posso sentir a tristeza delas, a tristeza dessas árvores partidas.

Acho que é difícil imaginar que talvez a tristeza não nasça em nós. Que talvez ela não tenha começado conosco. Nem acabe, quando acabarmos. Talvez a tristeza seja como um vento de outono, um vento gelado e cheio de ares de inverno, mesmo quando ainda existem folhas nas árvores partidas e ainda temos alguns meses de um sol ameno. Talvez a tristeza ande por ai. E talvez às vezes elas nos encontre. Talvez bem de manhãzinha, logo que você acorda. Às vezes no meio da tarde, enquanto você simplesmente vê as horas passarem.

Acho que a tristeza gosta de nos pegar distraídos. 

Mas, não se enganem, independentemente de como agirmos, eventualmente ela sempre vem nos visitar. Muitas vezes ela veio a mim escondida entre comentários e notificações do Facebook. Mas então eu fugi de lá. De toda forma, não adiantou muito, ela simplesmente foi mudando de lugar. Em velhas fotografias espalhadas pela casa. E em algumas novas também. Na chuva que cai mansa na madrugada, nos ventos que sacodem as árvores partidas na janela do meu quarto. Em um olhar que não deveria ter sido visto. Eu uma palavra não deveria ter sido dita.

É estranho, mas é assim mesmo. Às vezes a tristeza apenas vem. E talvez tenha que ser assim mesmo. Talvez a tristeza seja tão parte da natureza quanto um árvore. Ou um casal partido. Talvez não exista nada de errado em se sentir triste às vezes. Mesmo pelo mais bobo dos motivos. Talvez devêssemos nos permitir mais. Talvez devêssemos parar de ter tanto medo de sentir. 

E talvez também não devêssemos ter medo de superar. 

Assim como as folhas das árvores que voltam a crescer. Assim como um carro encerado que volta a luzir. Assim como um par de botas que volta a ser utilizado nos dias frios de inverno. Assim como um casal apaixonado que sempre volta um para o outro. Da mesma forma a nossa tristeza, ela não precisa ficar para sempre dentro de nós. Podemos convidá-la, educadamente, para se retirar. Podemos expulsá-la aos tropeços, se precisar.

E, depois de uma visita dela, eu diria que o melhor a fazer é sacudir a poeira do corpo, colocar um sorriso no rosto e levantar da cama com dois pés direitos.

E respirar bem fundo. Porque ainda vem muito mundo pela frente.  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A verdade é um caco de vidro que a vida nos faz engolir

Quando já não escrevo. Quando evito pensar. Quando preencho os silêncios com pensamentos que estão lá só para que eu não pense sobre o que devo pensar. Sobre o que não quero pensar. Sobre o que não consigo evitar. A inevitável, indubitável e inegável verdade. Que já não se esconde pelas sombras dos meus pensamentos, mas que se coloca embaixo de todos os holofotes, impõe sua presença e reclama minha atenção. Quando percebo que estão enganados os que acreditam que a verdade é saborosa. Quando finalmente vejo que a verdade é um caco de vidro que a vida nos faz mastigar. Engolir. Digerir. Que verdade dói e machuca. Nesses momentos é que eu realmente preciso escrever.

Nesses momentos escrever é fácil. As palavras escorrem pela tinta da caneta azul e mancham o papel, as ideias escorrem pelas mãos e mancham o texto, os sentimentos escorrem pela mente e mancham as entrelinhas. Nestes momentos basta ir juntando os parágrafos na cabeça e depois transcrevê-los para um papel qualquer. Nestes momentos eu acabo de escrever antes mesmo de me dar conta de que tinha começado.

Porque os textos, a grande parte dos bons textos, nascem da angústia. Nascem da necessidade de nossa alma lidar com as verdades que o mundo nos faz engolir. A alma não sabe guardar segredos. Ela tem que dizer, ela tem que botar para fora, ela precisa que de alguma forma as outras almas do mundo também saibam o que ela está passando. Os textos nascem da eterna luta que existe entre nossa alma e nossa mente. Porque nosso lado racional nunca nos deixa simplesmente desabafar sobre tudo que queremos, em alto e bom som, a quem quer que seja. Porém a nossa alma não nos deixa em paz se não nos abrirmos.

Entretanto, a verdade não precisa ser um caco de vidro que fazemos os outros engolirem.

Podemos costurar a verdade nas entrelinhas, podemos polir suas pontas. Podemos amaciá-la. Podemos açucará-la. Podemos escrever. Podemos escrever sobre pássaros e rios e sobremesas. E podemos escrever sobre outras pessoas e outras situações e outros mundos. Podemos escrever e dessa forma dizer o que precisamos, mas sem precisar que essas palavras atinjam outras pessoas.

Somos escritores, ora essa. Podemos transformar dor em rima. Rima em verso. E verso em poesia.

Ou em um texto mesmo, se você for como eu e também não souber escrever poesias.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sina de bêbado



Nem sempre eu sei sobre o que escrever. Às vezes é só uma ideia que irrompe pela minha mente, no meio daquela prova de matemática, durante o banho, cinco segundos antes de eu cair no sono. Às vezes é algo que alguém diz, uma frase solta em meio a um livro, às vezes é aquele simples sorriso recebido ao caminho do bar.  Nem sempre eu sei sobre o que escrever. Nem sempre o que eu escrevo acaba como eu quero.

Quase nunca acaba como eu quero.

Mas mesmo assim eu escrevo, aquela sina de bêbado tentando se fazer entender. Tentando declarar ao mundo que está muito bem, obrigado, mas falhando miseravelmente ao tropeçar nos próprios pés e cair de nariz na calçada. Me sinto constantemente caindo de nariz na calçada, cada vez que tento escrever um texto. Cada vez que releio um texto que escrevi. É como se todas as coisas que parecem extremamente geniais na minha cabeça acabassem se tornando um monte de clichês no papel.

E eu odeio clichês. E gente que crítica clichês. No caso, me odeio assim.

Porém, de toda forma, assim como um alcoólatra que não consegue passar muito tempo longe das bebidas, eu também não consigo ficar muito tempo sem escrever. Começa com uma cerveja, que seria praticamente uma mensagem um pouco mais longa no skype. Depois evolui para um vinho, que já seria uma resposta longa demais na prova de filosofia. De repente já está na vodka, que sou eu escrevendo coisas aleatórias em vez de copiar o conteúdo de física. E, então, finalmente, o bêbado está com um copo de tequila na mão pronto para virar. Basicamente eu usei todo meu caderno para escrever textos e não tem lugar para mais nenhuma matéria.

E lá vou eu. Gritando ao mundo que estou mais lúcida que nunca. Que finalmente fiz minha obra de arte. Que é a melhor coisa que já escrevi. Que qualquer um já escreveu. É a obra definitiva que vai mudar o rumo da literatura no mundo. Ou pelo menos é o que eu acho, até que leio o que escrevi. E ta-dá! Lá está o bêbado caído de nariz no chão, mais uma vez. E lá está, mais um texto, com ideias tão recicladas que já não é mais possível separá-las do lixo. Tudo tem seu limite.

Então, porque ainda escrever? Porque o bêbado continua a beber, mesmo que ele viva caindo no chão? A bebida o vicia. Talvez, então, estejam escondendo um pouquinho desse material viciante nas teclas do meu computador também. E em todas as canetas e lápis que eu tenho. E em todos os papéis, até nos menorzinhos em que você nem imagina quantos textos podem guardar. Talvez esteja escondida dentro de mim. Essa substância mágica que me faz continuar escrevendo, mesmo quando eu já cai no chão um bilhão de vezes.

Eu não tenho ideia se é isso que acontece. Mas se for, eu só posso dizer uma coisa: espero que essa substância jamais saia do meu sistema. Porque este é um vício que eu não tenho intenção nenhuma de largar. Mesmo que eu quebre meu nariz um bilhão de vezes, eu ainda tenho esperança que um dia vou conseguir voltar andando sozinha o bar. 

E isso fará todas as quedas valerem a pena. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

A felicidade é um gatinho preto e arisco

Às vezes eu acabo pensando no meu gatinho preto. É um gatinho assim, não muito grande, meio magrinho. E todo preto. Todinho, da ponta do rabo até o final das orelhas. E é arisco que só ele! Apareceu um dia na minha casa, acabou embaixo dela, na verdade. Nunca soubemos de onde ele veio. Era ainda menorzinho do que hoje em dia. E miava, como miava! A noite toda. Lá embaixo da casa. Miação a noite inteira.

Demoramos uns três dias só pra conseguir ver ele. Mais uns cinco para que conseguíssemos capturá-lo. Era todo pequeninho. Todo pretinho. No escuro. E era só olhar pra ele. Só pensar em olhar pra ele. Só cogitar a ideia de pensar em olhar pra ele. E pronto. Ele já tinha sumido correndo pro outro lado. O único que conseguia chegar perto dele era o Desolé, meu outro gato. Preto e branco. Gordo e grande, meio cego de um olho. Mas boa pessoa. Ou bom gato. Por causa dele, conseguimos tirar o pretinho de baixo da casa.

Precisamos deixar a casa trancada por semanas, tomando todos os cuidados para que o pretinho não fugisse. Mas dávamos ração e comida. E mesmo que ele sempre fugisse quando chegávamos perto, ele foi ficando. Foi ficando. E até hoje ficou. Adora o Desolé e o Desolé adora ele. Até tentou dar de mamar pra ele por um tempo. Mas o Desolé é um gato, não uma gata, por isso não deu muito certo. Mas valeu a intenção. Eu acho que valeu, pelo menos.

Acontece que, com o tempo, o pretinho foi ficando menos arisco. Já conseguimos olhar pra ele sem que ele saia correndo. E de vez em quando ele vem assim, meio de fininho, e até deita perto da gente. Mas não pense que ele ficou mansinho. Basta um movimento mais brusco que ele já sai em disparada para o outro lado do mundo.

Mesmo assim, hoje teve um momento em que ele veio assim, pertinho de mim. E deitou. Me olhou com aqueles olhos verdes e grandes como quem diz "sem estardalhaço, Bibiana, por favor". Então eu fiquei quietinha. E só olhei pra ele. Todo pretinho. Todo pequeninho. E todo arisco. Ele é tão arisco que nem tem nome. Até disso ele foge.

E ali estava ele. Vindo assim, aparentemente sem motivo nenhum, ficar perto de mim. Apenas deitando ali como se fosse a coisa mais normal do mundo. E talvez na cabecinha dele fosse mesmo. Neste momento, eu não deixei de pensar que talvez a felicidade seja exatamente como esse gatinho preto arisco. 

Ela surge na nossa vida quando quer. Se você realmente tentar, com muito afinco e bastante sorte, você até consegue agarrá-la de vez em quando. Mas às vezes e só às vezes, ela vem assim. Toda mansinha e para perto da gente - sem que tenhamos feito nada. Ela só vem, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Até o momento em que decide que basta. A felicidade é arisca por natureza. Melhorar aproveitar sua companhia, do que tentar domesticá-la. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O mundo é uma casquinha de sorvete (Ou a vida sob o ponto de vista de uma menina gordinha)

Acontece que às vezes eu acho que o mundo é como uma casquinha de sorvete. E nós insistimos em ficar de dieta. O mundo é essa casquinha de sorvete de creme e chocolate, todo cremoso e irresistível. Com cobertura de caramelo e tudo. E a gente fica só olhando, imaginando ele derretendo na nossa boca bem devagarinho. Fica imaginando aquele sabor todo feito de gelo e açúcar. E ainda tem a casquinha crocante! Mas a gente só olha, a gente só imagina. De vez em quando até experimentamos um pouquinho (mas só um pouquinho!) o sorvete de outra pessoa. E como é bom! E como nos sentimos culpados depois disso!
Porque estamos de dieta. Estamos constantemente de dieta. Somos reféns da dieta, essa dieta opressora e tirana, que nos tira todos os nossos prazeres. Adeus, chocolate! Adeus, batata frita! Adeus, coca-cola! Vou sentir sua falta, minha querida casquinha! Vivemos em uma ditadura. Mas os ditadores somos nós mesmos, da mesma forma que  também somos os oprimidos. Somos totalmente sem sentido.

Por isso que eu gosto das crianças. Elas ainda estão em liberdade condicional ou numa espécie de regime aberto. De vez em quando os pais ainda as proíbem de fazer isso ou aquilo. De comer casquinha de sorvete. De sair para brincar de tardinha. Mas você já viu uma criança negar uma casquinha de sorvete, por medo de engordar? De deixar de falar algo, porque será "malvisto"? De agir de alguma forma porque será melhor "no futuro", mesmo que seja terrível no presente?

Porque o mundo é igualzinho a uma casquinha de sorvete. Todo cheio de sabores a serem descobertos! Todo cheio de lugares deliciosos para se ir. Todo cheio de coisas irresistíveis para se fazer. E pessoas incríveis para conhecer. E, claro, da mesma forma que a casquinha de sorvete pode te deixar meia gordinha para o verão, devorar o mundo também pode te deixar fora de forma para as outras pessoas.

Porque todo mundo sabe que tem coisas que não se faz. Que não se deve fazer. Você não pode simplesmente largar tudo e ir fazer o que quer. Você tem que pensar no futuro. Dinheiro também é importante, você não pode deixar de pensar nele. E tem a sua imagem, que deve ser bem preservada. E seus amigos, que devem ser bem escolhidos. Assim, amigos de dieta. Que nem você. Magrinhos, bonitinhos, todos cheios de lacunas por causa das experiências que nunca viveram. Que deveriam viver.

Porque o mundo é como uma casquinha de sorvete. E, às vezes, faz bem fugir um pouco da dieta.