Brutus conheceu Bernardo assim que abriu seus enormes olhos cor de ameixa. Naqueles dias, as mãos do menino não eram nem um pouco grandes, mas mesmo assim Brutus conseguia se esconder no meio delas.
Os dois cresceram juntos. Correram juntos. Se esconderam juntos. Criaram confusões pela vizinhança, estragaram o jardim da mãe de Bernardo, ouviram broncas, fugiram de banhos, surrupiaram doces, deitaram no gramado verde do quintal e observaram os verões passarem em dias quentes de sol amarelo.
Até o impossível acontecer.
Bernardo desceu a rua correndo. Um riso solto em seus lábios, a mochila pendurada em um só braço. Os meninos do bairro passaram correndo quando ele parou ofegante na frente de casa. Gritaram um adeus mal-educado. Voltariam a se ver na aula de amanhã.
O menino olhou desconfiado para o portão meio aberto, onde o incansável e incontrolável Brutus não o esperava. Nada de olhos esbugalhados e focinho babado, nada de língua para fora e rabo com vida própria. Não. Só a mãe.
Olhos chorosos. Vontade de estar em outro lugar. Ela lhe ofereceu um pedaço de chocolate e uma explicação. Brutus já não morava mais ali. Depois de roubar um pacote de balas. E de comê-las todas. Depois de se encher da maior alegria e fugir do quintal. E descuidar para o trânsito, para os carros, para as rodas. E, principalmente, para o fato de que não devia ir para baixo delas. Depois de tudo isso, Brutus tinha ido embora.
Estava agora contente no Céu dos Cachorros, onde poderia desfrutar de todos os doces do mundo e passar o dia em brincadeiras de pique-cola
Bernardo ficou inconsolável. Foi para seu quarto e não quis mais sair de lá. Não entendia nada. Como Brutus podia fazer algo assim com ele? Eram amigos inseparáveis desde o primeiro olhar que trocaram. Não existia Brutus sem Bernardo e não existia Bernardo sem Brutus. Não deveria existir.
Como podia o seu amigo lhe trocar por um céu qualquer?
Mas então Bernardo começou a pensar sobre o que a mãe tinha lhe contado. Sobre a promessa de doces sem fim. Sobre um lugar de brincadeiras infinitas. Um lugar melhor. Bernardo olhou pelas nuvens lá fora, emolduradas pela janela, e soube. Se Brutus tinha tido coragem, ele também iria ter.
Quando a mãe foi visitar a avó na casa ao lado, Bernardo colocou seu plano em ação. Escalou a laranjeira do jardim. Foi até o galho mais alto. Por um instante se assustou com a altura, com o vento, com seu próprio medo. Mas deixou isso tudo de lado: tinha um plano a seguir.
Tomou um impulso e se lançou ao céu.
Bernardo, é claro, só não contava com a força da gravidade.
No caminho para o hospital, com um braço possivelmente quebrado e uma mãe certamente zangada, o garoto só tinha um ressentimento: Brutus tinha o abandonado e o danado nem tinha se dado ao trabalho de primeiro lhe contar onde tinha aprendido a voar.
Ou ao menos indicado o caminho certo para o céu.
Os dois cresceram juntos. Correram juntos. Se esconderam juntos. Criaram confusões pela vizinhança, estragaram o jardim da mãe de Bernardo, ouviram broncas, fugiram de banhos, surrupiaram doces, deitaram no gramado verde do quintal e observaram os verões passarem em dias quentes de sol amarelo.
Até o impossível acontecer.
Bernardo desceu a rua correndo. Um riso solto em seus lábios, a mochila pendurada em um só braço. Os meninos do bairro passaram correndo quando ele parou ofegante na frente de casa. Gritaram um adeus mal-educado. Voltariam a se ver na aula de amanhã.
O menino olhou desconfiado para o portão meio aberto, onde o incansável e incontrolável Brutus não o esperava. Nada de olhos esbugalhados e focinho babado, nada de língua para fora e rabo com vida própria. Não. Só a mãe.
Olhos chorosos. Vontade de estar em outro lugar. Ela lhe ofereceu um pedaço de chocolate e uma explicação. Brutus já não morava mais ali. Depois de roubar um pacote de balas. E de comê-las todas. Depois de se encher da maior alegria e fugir do quintal. E descuidar para o trânsito, para os carros, para as rodas. E, principalmente, para o fato de que não devia ir para baixo delas. Depois de tudo isso, Brutus tinha ido embora.
Estava agora contente no Céu dos Cachorros, onde poderia desfrutar de todos os doces do mundo e passar o dia em brincadeiras de pique-cola
Bernardo ficou inconsolável. Foi para seu quarto e não quis mais sair de lá. Não entendia nada. Como Brutus podia fazer algo assim com ele? Eram amigos inseparáveis desde o primeiro olhar que trocaram. Não existia Brutus sem Bernardo e não existia Bernardo sem Brutus. Não deveria existir.
Como podia o seu amigo lhe trocar por um céu qualquer?
Mas então Bernardo começou a pensar sobre o que a mãe tinha lhe contado. Sobre a promessa de doces sem fim. Sobre um lugar de brincadeiras infinitas. Um lugar melhor. Bernardo olhou pelas nuvens lá fora, emolduradas pela janela, e soube. Se Brutus tinha tido coragem, ele também iria ter.
Quando a mãe foi visitar a avó na casa ao lado, Bernardo colocou seu plano em ação. Escalou a laranjeira do jardim. Foi até o galho mais alto. Por um instante se assustou com a altura, com o vento, com seu próprio medo. Mas deixou isso tudo de lado: tinha um plano a seguir.
Tomou um impulso e se lançou ao céu.
Bernardo, é claro, só não contava com a força da gravidade.
No caminho para o hospital, com um braço possivelmente quebrado e uma mãe certamente zangada, o garoto só tinha um ressentimento: Brutus tinha o abandonado e o danado nem tinha se dado ao trabalho de primeiro lhe contar onde tinha aprendido a voar.
Ou ao menos indicado o caminho certo para o céu.


