sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Da tristeza das coisas

Às vezes eu me pego pensando na capacidade que certas coisas tem de serem tristes. Como um par de botas de inverno pegando poeira nessas tardes quentes de verão. Como um carro velho que um dia foi brilhante e majestoso, mas hoje é desbotado e desajeitado. Como um casal que um dia andou abraçado e aos risos, mas que hoje caminha as pressas, com o mais frágil e quebradiço toque de mão. Às vezes eu me pego olhando para essas árvores perto dos fios de luz e como eles podam elas ao meio. E juro que posso sentir a tristeza delas, a tristeza dessas árvores partidas.

Acho que é difícil imaginar que talvez a tristeza não nasça em nós. Que talvez ela não tenha começado conosco. Nem acabe, quando acabarmos. Talvez a tristeza seja como um vento de outono, um vento gelado e cheio de ares de inverno, mesmo quando ainda existem folhas nas árvores partidas e ainda temos alguns meses de um sol ameno. Talvez a tristeza ande por ai. E talvez às vezes elas nos encontre. Talvez bem de manhãzinha, logo que você acorda. Às vezes no meio da tarde, enquanto você simplesmente vê as horas passarem.

Acho que a tristeza gosta de nos pegar distraídos. 

Mas, não se enganem, independentemente de como agirmos, eventualmente ela sempre vem nos visitar. Muitas vezes ela veio a mim escondida entre comentários e notificações do Facebook. Mas então eu fugi de lá. De toda forma, não adiantou muito, ela simplesmente foi mudando de lugar. Em velhas fotografias espalhadas pela casa. E em algumas novas também. Na chuva que cai mansa na madrugada, nos ventos que sacodem as árvores partidas na janela do meu quarto. Em um olhar que não deveria ter sido visto. Eu uma palavra não deveria ter sido dita.

É estranho, mas é assim mesmo. Às vezes a tristeza apenas vem. E talvez tenha que ser assim mesmo. Talvez a tristeza seja tão parte da natureza quanto um árvore. Ou um casal partido. Talvez não exista nada de errado em se sentir triste às vezes. Mesmo pelo mais bobo dos motivos. Talvez devêssemos nos permitir mais. Talvez devêssemos parar de ter tanto medo de sentir. 

E talvez também não devêssemos ter medo de superar. 

Assim como as folhas das árvores que voltam a crescer. Assim como um carro encerado que volta a luzir. Assim como um par de botas que volta a ser utilizado nos dias frios de inverno. Assim como um casal apaixonado que sempre volta um para o outro. Da mesma forma a nossa tristeza, ela não precisa ficar para sempre dentro de nós. Podemos convidá-la, educadamente, para se retirar. Podemos expulsá-la aos tropeços, se precisar.

E, depois de uma visita dela, eu diria que o melhor a fazer é sacudir a poeira do corpo, colocar um sorriso no rosto e levantar da cama com dois pés direitos.

E respirar bem fundo. Porque ainda vem muito mundo pela frente.  

2 comentários:

  1. Raro uma pessoa da sua idade se dar conta de que a tristeza é parte da gente e não algo que deva ser encarado como um alien de outro planeta.

    Fico feliz que meu texto tenha encontrado eco em ti. A gente escreve sem nunca saber realmente se aquele texto vai ser interessante parta alguém. Obrigado.

    Espero que tua batalha pelos teus sonhos seja mais fácil e mais compensadora que a minha.

    Se quiser conversar mais, pode me adicionar no Face. Jerri Dias.

    Abraço.

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  2. Gostei muito do tom otimista do fim do texto! Me feliz pensar sobre a tristeza que existe em cada cena, e como de uma certa forma isso que faz de alguns momentos especiais...

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Um pensamento bonito:

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."