domingo, 18 de janeiro de 2015

A felicidade é um gatinho preto e arisco

Às vezes eu acabo pensando no meu gatinho preto. É um gatinho assim, não muito grande, meio magrinho. E todo preto. Todinho, da ponta do rabo até o final das orelhas. E é arisco que só ele! Apareceu um dia na minha casa, acabou embaixo dela, na verdade. Nunca soubemos de onde ele veio. Era ainda menorzinho do que hoje em dia. E miava, como miava! A noite toda. Lá embaixo da casa. Miação a noite inteira.

Demoramos uns três dias só pra conseguir ver ele. Mais uns cinco para que conseguíssemos capturá-lo. Era todo pequeninho. Todo pretinho. No escuro. E era só olhar pra ele. Só pensar em olhar pra ele. Só cogitar a ideia de pensar em olhar pra ele. E pronto. Ele já tinha sumido correndo pro outro lado. O único que conseguia chegar perto dele era o Desolé, meu outro gato. Preto e branco. Gordo e grande, meio cego de um olho. Mas boa pessoa. Ou bom gato. Por causa dele, conseguimos tirar o pretinho de baixo da casa.

Precisamos deixar a casa trancada por semanas, tomando todos os cuidados para que o pretinho não fugisse. Mas dávamos ração e comida. E mesmo que ele sempre fugisse quando chegávamos perto, ele foi ficando. Foi ficando. E até hoje ficou. Adora o Desolé e o Desolé adora ele. Até tentou dar de mamar pra ele por um tempo. Mas o Desolé é um gato, não uma gata, por isso não deu muito certo. Mas valeu a intenção. Eu acho que valeu, pelo menos.

Acontece que, com o tempo, o pretinho foi ficando menos arisco. Já conseguimos olhar pra ele sem que ele saia correndo. E de vez em quando ele vem assim, meio de fininho, e até deita perto da gente. Mas não pense que ele ficou mansinho. Basta um movimento mais brusco que ele já sai em disparada para o outro lado do mundo.

Mesmo assim, hoje teve um momento em que ele veio assim, pertinho de mim. E deitou. Me olhou com aqueles olhos verdes e grandes como quem diz "sem estardalhaço, Bibiana, por favor". Então eu fiquei quietinha. E só olhei pra ele. Todo pretinho. Todo pequeninho. E todo arisco. Ele é tão arisco que nem tem nome. Até disso ele foge.

E ali estava ele. Vindo assim, aparentemente sem motivo nenhum, ficar perto de mim. Apenas deitando ali como se fosse a coisa mais normal do mundo. E talvez na cabecinha dele fosse mesmo. Neste momento, eu não deixei de pensar que talvez a felicidade seja exatamente como esse gatinho preto arisco. 

Ela surge na nossa vida quando quer. Se você realmente tentar, com muito afinco e bastante sorte, você até consegue agarrá-la de vez em quando. Mas às vezes e só às vezes, ela vem assim. Toda mansinha e para perto da gente - sem que tenhamos feito nada. Ela só vem, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Até o momento em que decide que basta. A felicidade é arisca por natureza. Melhorar aproveitar sua companhia, do que tentar domesticá-la. 

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Um pensamento bonito:

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."