quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Considerações sobre a vida

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a parecer brincadeira. Uma música do Engenheiros ao fundo, uma tarde de sol num dia de inverno. Um edredom aconchegante e alguém para abraçar. Um bom filme. De preferência uma comédia romântica inglesa, que não requeira tanta atenção assim. Talvez uma manhã na beira do mar, num dia quente de janeiro. Talvez uma roda de amigos com um violão. Talvez só mais uma conversa perdida em uma madrugada vazia. 

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a ser fácil esquecer como ela realmente é. Como ela te da com uma mão, enquanto te tira com a outra. Que às vezes você ganha, mas muitas vezes você perde. E que às vezes não é justo. E que quase nunca é justo.  E na maioria das vezes nem tem com quem reclamar. Falta um SAC no universo, um zero oitocentos para a gente ligar e poder reclamar porque "Ei, não foi para essa vida que eu me inscrevi".

Mas eu nem acho essa a pior parte.

Quando as coisas dão errado, bem, elas deram errado e pronto. Aconteceu. Você junta os pedaços, cola com bonder ou chiclete, respira fundo e segue em frente. Não sobram opções, sabe? É isso que tem que ser feito e é isso que você faz. Não é o que eles dizem? Que a melhor parte de estar no fundo do poço é que só resta um caminho: para cima (a não ser que você decida cavar e acabe parando na China, mas esse é outro assunto). 

O grande problema, a grande maldade da vida não está nos momentos em que ela frustra nossos planos. Não e não. As grandes dores de cabeça, as verdadeiras dores de cabeça e peixinhos no estômago, começam quando a vida nos da escolhas. Quando ela coloca trinta portas na nossa frente e nos faz escolher por qual entrar, mesmo que nós praticamente não saibamos o que nos espera do outro lado.

Me lembra aquele programa que costumava passar no SBT, nos tempos em que eu ainda olhava o SBT. Lá estava um carinha em uma cabine a prova de som e ele podia responder "Sim" ou "Não". E lá fora ficava o Sílvio Santos perguntando "Você quer trocar uma escova de dentes por um milhão de reais?". E a pessoa, sem ouvir nada, berrava na cabine um estrondoso "NÃÃÃO!". E a platéia inteira gritava. E o Sílvio Santos perguntava outra vez "Quem sabe você queira então trocar um avião por uma moeda de cinco centavos?" "SIIIIIIIM!". E todo mundo chora e ri em casa. Ah, a tragédia humana.

Às vezes eu sinto como se a vida fosse tão sádica quanto a platéia do Sílvio Santos. Só esperando você errar em todas as escolhas. Mesmo que na verdade você não tenha  a mínima ideia sobre o que está escolhendo. Só esperando para rir do seu desespero ao descobrir qual o resultado das tuas ações. Ou talvez a vida simplesmente goste de se divertir com nossas expressões de pânico nos segundos que nos restam para escolher. 

Porque tudo sempre é uma questão de segundos. Os segundos que te separam de marcar a opção 'A' ou a 'D'. Os segundos que te separam entre um 'Sim' e um 'Não'. Os segundos, os longos segundos, logo antes de você cair no sono - que sempre são os momentos em que verdadeiramente escolhemos se vamos gritar sim ou não às escolhas que a vida nos dá. São sempre segundos que decidem tudo que virá. O que é uma injustiça sem tamanho. Mas é esse o ponto, não é? A vida não tem justiça no seu vocabulário. 

Talvez seja simplesmente o modo como ela é. Ou talvez seja o modo que ela precise ser. Talvez tenhamos que nos jogar em precipícios, às vezes, sem realmente sem saber o que nos espera lá embaixo. Talvez só devemos saber o que se esconde atrás das portas que temos coragem (e vontade) de atravessar. Talvez a vida nos mostre apenas esboços dos caminhos que podemos seguir, para não desistirmos assim que percebemos a quantos percursos nossas escolhas podem nos levar.

Porque talvez ela saiba que algumas decisões são difíceis por si mesmas, mesmo que só imaginemos o que nos espera. E talvez porque ela saiba que mesmo assim, são escolhas que valem a pena ser feitas. Talvez ela simplesmente não queira que a nossa imagem do futuro nos separe de nossos sonhos. 

Ou talvez ela realmente seja apenas uma velha sádica e ranzinza. 

Quem vai saber. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um pensamento bonito:

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."