segunda-feira, 16 de setembro de 2013

B - Side

É um pouco como o Assassinato Terrivelmente Lento Com Arma Extremamente Ineficaz, gostar de alguém que não gosta de ti. É como bater o dedinho na quina da mesa. Ou tomar banho gelado no inverno. Ver alguém que você gosta com outra pessoa, então, é como quando você deixa o pão cair e inevitalmente a parte com a manteiga cai pra baixo. Ou quando você precisa de seis pra ficar na média e acaba com cinco e nove. É como chegar na parada cinco segundos depois do ônibus partir.

Porque, invariavelmente, você só vai perceber o quanto gosta de alguém quando perder ela. Quando ela se mudar para o outro lado do mundo, quando vocês pararem de frequentar o mesmo colégio. Quando ela arranjar um novo amigo, quando ela te trocar por um namorado. Quando ela decidir que você não é bom o suficiente pra ela e sua nova vida requintada. Porque agora ela é requisitada. E não pode mais ser vista com um cara que faz rimas ruins e usa metáforas um tanto inusitadas. 

Inusitadas como você costumava ser. Inusitada como uma manhã de feriado, aquele sentimento depois de acordar, depois dos três segundos de pânico por pensar "puta merda, acordei atrasado", você era o que vinha depois. Tua presença tinha aquele ar de alívio, tua presença me trazia aquela felicidade despreocupada por lembrar que "poxa, hoje não tem aula". Teus sorrisos, então! Eram noite de Natal. E teus abraços eram presente de aniversário. 

Agora é um pouco como lembrar de quando éramos crianças. É um pouco como quando a gente diz "ah, como eu queria ainda ser criança". A gente adora esquecer que a nossa brincadeira preferida era fingir ser adulto. A gente ainda podia fingir e dizer que era brincadeira. Agora a gente finge que é adulto, mas ninguém mais ri. "Agora não é pra levar na brincadeira, cara." Foi isso que você disse, não? "Isso aqui é v-i-d-a. Para de levar na brincadeira". E eu achando que você sentia falta das brincadeiras. Mas nem era, sabe. Era eu sendo verdadeiro e você encontrando motivos pra rir (ou não rir) dos meus sentimentos. Mas eu preciso pensar que é como lembrar de quando éramos crianças. 

Nunca foi tão bom. Você nunca foi tão linda. Exceto pela parte que você era. Ou hoje é. Hoje você é  linda no meu passado. Linda correndo comigo pela rua. Brincando de ser adulta, brincando de ser só você. A menina da casa ao lado. A menina dos olhos esbugalhados. A menina, só. O problema é que nunca existiu outra como você, nem nunca existirá. O problema é que primeiro amor só tem um. E primeira menina que deita comigo no gramado de casa, também, só tem uma. E primeira menina que não me olha nos olhos e me pede por uma definição é e sempre será você e só você. 

É meio como chegar na aula e descobrir que tem prova. E você nunca sabe a matéria direito. Ou quando tua mãe pergunta se você fez o que ela pediu, mas você nunca lembra dela ter pedido algo. É difícil você chegar querendo respostas para uma pergunta que eu nem sabia que você podia fazer. Meus sentimentos? Guardo eles numa caixa e quanto menos eu mexer lá, melhor. Meus sentimentos em relação a ti? Eu nunca diria que teu sorriso é como uma noite de Natal. 

Porque isso é como dizer a tua mãe que você ama ela. Porque ela sabe disso. Deveria saber. E você sabe que ela sabe. E ela sabe que você sabe que ela sabe. Mas você não vai dizer exceto em casos de vida ou morte. Porque é simplesmente estranho. É como quando teu pai vem te explicar que a droga dos bebês não vêm da cegonha e sabe do que mais, talvez um dia você não queira ter um bebê mas possa fazer algo parecido com - EU NÃO QUERO OUVIR O RESTO PAI. É simplesmente estranho demais. Mesmo que faça parte da vida. Mesmo que seja verdade. Não é algo escutável ou dizível. 

Então eu acho que é meio como o Darth Vader chegar e dizer para o Luke "oi, sou seu pai" você simplesmente vir e querer uma resposta. Não é algo que se faça. Não é algo que se deva fazer. É errado. Deve estar num lugar da Bíblia, dos mandamentos ou de Hogwarts, Uma História um verbete que diga isso. Que diga "é totalmente errado e imoral chegar no teu vizinho e perguntar se ele te ama". E é mais errado ainda achar que sabe o que ele quis dizer, só porque não disse nada. 

Porque achar que sabe que entendeu meu silêncio é como ser uma daquelas menininhas que leem Sylvia Plath e só porque ela se matou acham que ela está sendo toda profunda e verdadeira. É como olhar pra um quadro de arte contemporânea e ter arrogância o suficiente pra achar que sacou tudo. Surpresa, surpresa, você não entendeu nada. Nadinha. Mesmo. Nem uma droga de vírgula que deve estar no lugar errado. Porque as vírgulas nos meus textos são como eu na vida. Sempre no lugar errado, na hora errada.

Mas por que perder tanto tempo com um texto quando você está lá, tão feliz com outro alguém? É meio como o epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Não tem nada de substancial. Toda a parte importante da história já foi resolvida. Mas a JK não poderia simplesmente terminar a história assim, sem mais nem menos. Então ela enche cinquenta linhas de coisas interessantes, mas que não mudam nada.

Não que você seja como Harry Potter. Deus sabe que nem eu faria uma comparação tão ruim. Porque a verdade é que eu te amo hoje, mas Harry Potter eu amarei pra sempre. 

E, desta vez, eu até deixo você ficar irritada com minha resposta.