Ainda me lembro da primeira vez que eu a vi.
O pai trazia-lhe pela mão e me apresentou à ela, apesar de não ter imaginado ser preciso também apresentá-la à mim. Mas a isto eu estava habituado. Também estava acostumado ao que viria a seguir. O olhar temeroso e fascinado ou talvez o descaso calculado, daqueles que nunca querem se deixar impressionar. Talvez medo. Talvez curiosidade. Tantas pessoas, tantas reações, mas dificilmente alguma novidade.
A verdade, entretanto, era que ela era muito nova e eu muito velho. O que significava que eu achava que muito sabia, mas que ela sabia melhor. E foi o que aconteceu, pois eu não estava preparado para aquele olhar. Um olhar que me perseguiu por anos, pois eu ainda me lembro de todas as vezes que a vi.
Me lembro de sua meninice, de observá-la brincar e correr à minha frente, algumas vezes até me incluindo em suas brincadeiras. Mas eu era forte e temperamental, então seus pais sempre vinham junto, a protegê-la. Me recordo de seus primeiros passos como uma moça, seu andar mais equilibrado, seus cabelos mais longos, seus sorrisos mais difíceis de serem conquistados. E me lembro de quando ela veio acompanhada.
A dor. A raiva. A vontade de arrancá-la daqueles braços mais cálidos dos que os meus. A verdade é que eu já a amava. A amava desde a primeira vez que vi seus olhos mais escuros que a noite, que não refletiam minha imagem: a absorviam. Como se ela tivesse me pego pelas pontas, dobrado em pequenas partes e escondido dentro do bolso de seu casaco amarelo.
E eu, que era tão orgulhoso da minha própria magnitude, me senti pequeno. E eu, tão conhecido por nunca me conter, me senti acanhado. Me senti atrapalhado. Me senti tão pequeno quanto um dos grãos de areia que se estendiam abaixo de mim. O que era insano e inacreditável, mas que era o que acontecia, todas as vezes que ela me olhava. Quando seus olhos de pedaços da noite se lançavam sobre mim. Me intimidavam. Me mudavam.
Tantos vieram na companhia dela e tantas vezes ela veio até mim, sozinha. Mas em todas as vezes, eu me surpreendia. Faltava em seus olhos o assombro, que eu esperava, o medo, o mínimo respeito e temeridade. Ela era, desde tão pequena, tão cheia de vida e de certezas e tão dona de si mesmo, que ela nunca me olhou assim. Como todos os outros me olhavam.
Contudo, ela vinha e me deixava e eu nunca pude acompanhá-la para além do meu lugar. E com o tempo, porque as coisas são assim, vi seu olhar começar a quebrar. Sua coluna vacilar. Eu vi a vida, a dura vida que o mundo impõe a alguns, começar a apagar seu brilho.
Não pude vê-la daquela forma. Então, quando ela veio até mim, seu olhar vacilante, seus cabelos já tingidos pelo tempo, eu me lembrei de seu primeiro olhar e a chamei para mais perto e a puxei para meus braços gélidos. Ela não tentou resistir.
Seus olhos de meia-noite vieram cada vez mais para dentro dos meus confins, as ondas cada vez mais altas, minha vontade de abraçá-la cada vez mais forte, a água salgada lavando a alma da menina que eu nunca esquecerei.
Até que eu a afundei em minhas águas e a afoguei dentro de mim.
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Um pensamento bonito:
"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."