O silêncio é quebrado apenas por um andar trôpego no
andar de cima, anunciando que alguém chegou tarde nesta segunda-feira. Ou já será terça? Os segundos se estendem pela madrugada, o barulho do relógio da cozinha revelando os mistérios do tempo. Ou apenas os ressaltando.
andar de cima, anunciando que alguém chegou tarde nesta segunda-feira. Ou já será terça? Os segundos se estendem pela madrugada, o barulho do relógio da cozinha revelando os mistérios do tempo. Ou apenas os ressaltando.
São duas da manhã.
E em um outro mundo, em uma outra era, em uma outra vida, eu andaria pelas ruas calmas nessa madrugada quente de novembro. Mas não são outros tempos. Então me prendo atrás de paredes e chaves e sonos e sonho com a brisa suave correndo do Guaíba, passando solta pela perimetral, e descubro dentro de mim inveja do vento.
Do vento que vê, todos os dias, a noite.
Enquanto isso, tudo que me sobra são retalhos de imaginação.
Mas sigo imaginando.
Imagino a lua refletida no lago e as árvores da Redenção dançando ao som da madrugada. Imagino a João Pessoa por uma vez vazia. Imagino uma Porto Alegre fantasma. Imagino a cidade só para mim. Imagino descobrir cada via. Imagino descobrir a cor da noite. E descobrir onde o mundo se esconde, quando todos se escondem do mundo.
Tenho vontade de colocar um tênis surrado e um olhar vivo. E viver essa madrugada em Porto Alegre.
Mas são duas da manhã. E nesses dias, nessa época, e nesse mundo: não posso. Estou presa a segurança do dia a dia, estou presa a ilusão de controle, estou presa ao medo, ao bom senso, a realidade, a surrealidade desses tempos. Onde nos prendemos por vontade. E para sobreviver, abdicamos de parte de nossas vidas.
A insônia me mantém acordada. A noite segue tranquila na República. É a hora mais escura.
Preciso ir.

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Um pensamento bonito:
"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."