quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Quando As Crianças Mimadas Crescem

Sete da noite de uma quinta-feira.

O barulho começa.

Primeiro são as risadas que flutuam pela área. Depois os gritos. E por fim a música. É uma festa, afinal percebo, não um filme de terror.

De início, não estou surpresa.

A ilustríssima residente do 109 é uma aspirante a cantora de ópera que treina seu fôlego com músicas da Rihanna. Música, na verdade.

Todo santo dia, a mesma música.

Se nada mais, é de se admirar sua constância. Ou como nenhum outro morador cometeu um crime. Ainda.

Essa menina do cento e nove ainda tem amigos que gostam tanto quanto ela se divertirem subindo a média de decibéis do prédio. Um, principalmente, que adora rir para ser ouvido pelos alienígenas da nave mãe. Nada contra risadas, mas será que os coelhinhos escondidos na lua também precisam ouvir? Tenho minhas dúvidas.

Passa das oito da noite quando minha irmã sugere que a gente ligue para o porteiro pedindo para o pessoal da festa se controlar. Quer dizer, ninguém aqui é tão obtuso que não aceita um pouco de barulho. Mas uma hora depois o show das hienas já perdeu a graça.

E não só para nós.

O porteiro esclarece que já telefonou duas vezes. Agora só lhe resta colocar a famosa moça do cento e nove no Livro.

Não chego a perguntar, mas ele faz parecer que estar no livro é uma falta grave. Do tipo você não ganha a estrelinha no final da aula. E o porteiro não te dá mais bom dia. E todo mundo no prédio te odeia com uma fúria inimaginável.

Pena que todo o ódio do Livro dos Porteiros não impede a propagação das ondas de som.
Ligo para a moça. Ela atende irritada.

“Já passou das dez? Eu tenho todo o direito de fazer barulho, os incomodados que se retirem, whatever”.

Quando desligo, logo em seguida o telefone dela toca de novo. Mais uma reclamação. Ninguém consegue ouvir seus pensamentos, só gritos. Só o cento e nove tem direitos nessa noite de quinta-feira.

E é engraçado, para não dizer que é horrível e triste, quando finalmente compreendo: as crianças mimadas não mudam - elas apenas envelhecem e passam a se chamar de adultos.

E agora passa das vinte e duas horas.
E pela área ainda flutuam os sons do puro e completo egoísmo.

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Um pensamento bonito:

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."