sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Duas horas da manhã do dia errado

Tudo começa as duas da manhã do dia errado. Mas espera, essa não é uma música? É difícil dizer, as duas da manhã, o que são ideias originais e o que são apenas recortes desiguais espalhados pela minha memória bagunçada. Tudo começa as duas da manhã, mas podiam ser três. Ou cinco. Tudo poderia ter começado a meia noite se eu não estivesse tão ocupada fazendo outra coisa. Outra coisa que eu nem me lembro o que é. As duas da manhã do dia errado, acordo e finalmente entendo tudo.

São duas horas da manhã, não três, nem cinco. A meia noite já foi faz tempo. O ar é gelado, mas os cobertores estão quentes. O mundo é escuro, mas a luz branca e fria do quarto permanece ligada. O tipo de descuido que não será esquecido por meu pai, quando a conta finalmente chegar. Engraçado pensar nesse tipo de coisa, as duas da manhã de um dia totalmente errado. Mas como eu já disse, seria errado esperar mais de meu cérebro naturalmente bagunçado - ainda mais quando pego de surpresa.

Abro meus olhos, naquele dia errado, e encaro as luzes vermelhas do relógio que marcam duas horas. A luz do quarto machucando meus olhos que ainda sonham metade do sonho interrompido ao meio. O gato também levanta a cabeça, como se meus pensamentos estivessem tão altos que também interromperam seu sono ininterrupto. Me encara com olhos de quem sabe, sabe que eu finalmente entendi. O  encaro, finalmente percebendo que talvez um gato não tenha como saber.

Mas é difícil dizer, principalmente quando são duas da manhã. E é o dia errado. E eu adormeci de jeans. E as luzes seguem acesas. E o mundo gira sobre uma nova perspectiva. A perspectiva da realidade, tão diferente do manto irreal que gostamos de acreditar todos os dias. E tudo brilha de forma diferente e todas as respostas dadas até ali parecem erradas. E o sentindo da vida me escapa, por entre os dedos, como grãos de areia que o vento e a gravidade levam pra longe. 

E em algum ponto um carro passa, tocando o tipo de som que deveria ter sido banido do mundo assim que inventado, em um volume que seria considerado no mínimo indecente em um planeta melhor que o nosso. E tudo se perde com a mesma facilidade com que se ganha. O mundo se inclina levemente, e as ideias são levadas pelo vento, prontas para interromper o sonho de outro alguém, alguém para quem não serão duas horas. E o dia não será o errado.

E eu? Me deito novamente, escondo a luz com as pálpebras e deixo meus olhos voltarem ao sonho metade interrompido. O gato volta ao seu sono interrupto. As horas no relógio mudam. As luzes  seguem acesas. E o mundo segue girando, pronto para mais um dia errado, como todos os outros que vieram antes. E como todos os outros que virão depois, enquanto as vidas se esvaírem assim. 

Como sonhos na madrugada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um pensamento bonito:

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."