domingo, 15 de março de 2015

Eu me lembro da Maria Antonieta

Nesses tempos de tantas movimentações, manifestações e de todo mundo sentindo vontade de gritar ao mundo todas suas opiniões (políticas ou nem tanto), eu me vejo  pensando na Maria Antonieta. Me vejo pensando nessa menina que nasceu na Áustria há tanto tempo atrás e que um dia veio a ser rainha da França.

Há muito que se diz sobre Maria Antonieta. 

Para alguns ela era apenas uma menina tola e alienada da realeza, que nunca, realmente, entendeu o que acontecia a sua volta. Para outros, ela não apenas entendia, como também previu e tentou impedir o futuro que viria para a França e para si mesma. De uma forma ou de outra, a verdade é que a maioria de nós lembra-se dela por uma frase que, na verdade, ela provavelmente nunca proferiu. Reza a lenda que ao saber que os pobres protestavam de fome, porque não tinham pão, Maria Antonieta teria dito "Se o povo não tem pão, que coma brioches!". 

Maria Antonieta literalmente perdeu sua cabeça com a Revolução Francesa. Suas últimas palavras? "Perdão, senhor. Eu não fiz de propósito". Ela tinha pisado no pé do carrasco, no seu caminho a guilhotina. 

Maria Antonieta se foi, mas a Revolução Francesa continuou. Apesar de ter começado com ideais muito bonitos como "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". E embora a ideia de acabar com a grande desigualdade da França, onde antes os nobres não faziam nada, mas tinham tudo e os pobres faziam tudo, mas não tinham nada, fosse uma ideia muito bonita. E embora a gente goste de pensar que é ótimo quando o povo vai as ruas e finalmente vê as coisas acontecendo, o poder mudando de mãos, as mudanças finalmente vindo, eu não consigo parar de pensar na Maria Antonieta. E na Revolução Francesa.

Eu penso em como foi fácil para Napoleão chegar ao poder. E penso em que lugar a França ficou depois disso. Eu penso também na Rússia, eu penso na Revolução deles e penso se eles teriam lutado com tanto afinco se soubessem o que lhes esperava. Se vissem a chegada de Stálin se aproximando.

E eu não consigo deixar de pensar pelo que devemos lutar. Quais mudanças realmente devemos pedir. E que preço estamos dispostos a pagar. 

E, se vocês realmente querem saber minha opinião, eu diria que mais do que tudo, devemos ter calma. Apesar da ânsia por mudança. Apesar de que nos doa na alma ver certas coisas ou o lugar onde nós estamos. Precisamos manter a calma. Aprender com o passado. Realmente pensar em que soluções temos em nossas mãos para melhorar o futuro. 

Nunca direi para alguém não lutar pelo que acredita. Mas, por favor, antes de lutarem, pensem bem, pelo que vocês estão lutando. 

E lembrem-se da Maria Antonieta. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os dias de descanso - Que eles venham logo!

Tem dias que eu canso.

De acordar cedo e já ir logo pegando dois ônibus.

Tem dias que eu canso.

De ficar contando as horas passarem, só para no outro dia contar de novo.

Tem dias que eu canso.

De esperar tanto do mundo. De não me contentar com o que tenho. De imaginar que ainda é pouco.

Tem dias que eu canso.

Das promessas que eu fiz. Dos objetivos que criei. Do futuro que planejei.

Tem dias que eu canso.

Mas amanhã já é sexta-feira então porque pensar que

Tem dias que eu canso?

Melhor pensar que logo o final de semana vem com seus maravilhosos dias que são feitos de puro

Descanso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Considerações sobre a vida

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a parecer brincadeira. Uma música do Engenheiros ao fundo, uma tarde de sol num dia de inverno. Um edredom aconchegante e alguém para abraçar. Um bom filme. De preferência uma comédia romântica inglesa, que não requeira tanta atenção assim. Talvez uma manhã na beira do mar, num dia quente de janeiro. Talvez uma roda de amigos com um violão. Talvez só mais uma conversa perdida em uma madrugada vazia. 

Às vezes a vida pode ser tão simples que chega a ser fácil esquecer como ela realmente é. Como ela te da com uma mão, enquanto te tira com a outra. Que às vezes você ganha, mas muitas vezes você perde. E que às vezes não é justo. E que quase nunca é justo.  E na maioria das vezes nem tem com quem reclamar. Falta um SAC no universo, um zero oitocentos para a gente ligar e poder reclamar porque "Ei, não foi para essa vida que eu me inscrevi".

Mas eu nem acho essa a pior parte.

Quando as coisas dão errado, bem, elas deram errado e pronto. Aconteceu. Você junta os pedaços, cola com bonder ou chiclete, respira fundo e segue em frente. Não sobram opções, sabe? É isso que tem que ser feito e é isso que você faz. Não é o que eles dizem? Que a melhor parte de estar no fundo do poço é que só resta um caminho: para cima (a não ser que você decida cavar e acabe parando na China, mas esse é outro assunto). 

O grande problema, a grande maldade da vida não está nos momentos em que ela frustra nossos planos. Não e não. As grandes dores de cabeça, as verdadeiras dores de cabeça e peixinhos no estômago, começam quando a vida nos da escolhas. Quando ela coloca trinta portas na nossa frente e nos faz escolher por qual entrar, mesmo que nós praticamente não saibamos o que nos espera do outro lado.

Me lembra aquele programa que costumava passar no SBT, nos tempos em que eu ainda olhava o SBT. Lá estava um carinha em uma cabine a prova de som e ele podia responder "Sim" ou "Não". E lá fora ficava o Sílvio Santos perguntando "Você quer trocar uma escova de dentes por um milhão de reais?". E a pessoa, sem ouvir nada, berrava na cabine um estrondoso "NÃÃÃO!". E a platéia inteira gritava. E o Sílvio Santos perguntava outra vez "Quem sabe você queira então trocar um avião por uma moeda de cinco centavos?" "SIIIIIIIM!". E todo mundo chora e ri em casa. Ah, a tragédia humana.

Às vezes eu sinto como se a vida fosse tão sádica quanto a platéia do Sílvio Santos. Só esperando você errar em todas as escolhas. Mesmo que na verdade você não tenha  a mínima ideia sobre o que está escolhendo. Só esperando para rir do seu desespero ao descobrir qual o resultado das tuas ações. Ou talvez a vida simplesmente goste de se divertir com nossas expressões de pânico nos segundos que nos restam para escolher. 

Porque tudo sempre é uma questão de segundos. Os segundos que te separam de marcar a opção 'A' ou a 'D'. Os segundos que te separam entre um 'Sim' e um 'Não'. Os segundos, os longos segundos, logo antes de você cair no sono - que sempre são os momentos em que verdadeiramente escolhemos se vamos gritar sim ou não às escolhas que a vida nos dá. São sempre segundos que decidem tudo que virá. O que é uma injustiça sem tamanho. Mas é esse o ponto, não é? A vida não tem justiça no seu vocabulário. 

Talvez seja simplesmente o modo como ela é. Ou talvez seja o modo que ela precise ser. Talvez tenhamos que nos jogar em precipícios, às vezes, sem realmente sem saber o que nos espera lá embaixo. Talvez só devemos saber o que se esconde atrás das portas que temos coragem (e vontade) de atravessar. Talvez a vida nos mostre apenas esboços dos caminhos que podemos seguir, para não desistirmos assim que percebemos a quantos percursos nossas escolhas podem nos levar.

Porque talvez ela saiba que algumas decisões são difíceis por si mesmas, mesmo que só imaginemos o que nos espera. E talvez porque ela saiba que mesmo assim, são escolhas que valem a pena ser feitas. Talvez ela simplesmente não queira que a nossa imagem do futuro nos separe de nossos sonhos. 

Ou talvez ela realmente seja apenas uma velha sádica e ranzinza. 

Quem vai saber. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um céu lotado de aviões (que já se foram)

Alguns dias são longos demais e nos enchem de ideias.

Outros dias são curtos demais para todas as ideias que precisamos por na tela. 

Já outros dias simplesmente passam. Como um avião longe no céu, que um dia causou alvoroço. Mas que hoje é apenas mais uma coisa da vida.

Como todas as coisas. Como todas as vidas.

Que passam e passam. E continuam passando. E que infelizmente nunca param.

Mesmo quando não estamos olhando.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Da tristeza das coisas

Às vezes eu me pego pensando na capacidade que certas coisas tem de serem tristes. Como um par de botas de inverno pegando poeira nessas tardes quentes de verão. Como um carro velho que um dia foi brilhante e majestoso, mas hoje é desbotado e desajeitado. Como um casal que um dia andou abraçado e aos risos, mas que hoje caminha as pressas, com o mais frágil e quebradiço toque de mão. Às vezes eu me pego olhando para essas árvores perto dos fios de luz e como eles podam elas ao meio. E juro que posso sentir a tristeza delas, a tristeza dessas árvores partidas.

Acho que é difícil imaginar que talvez a tristeza não nasça em nós. Que talvez ela não tenha começado conosco. Nem acabe, quando acabarmos. Talvez a tristeza seja como um vento de outono, um vento gelado e cheio de ares de inverno, mesmo quando ainda existem folhas nas árvores partidas e ainda temos alguns meses de um sol ameno. Talvez a tristeza ande por ai. E talvez às vezes elas nos encontre. Talvez bem de manhãzinha, logo que você acorda. Às vezes no meio da tarde, enquanto você simplesmente vê as horas passarem.

Acho que a tristeza gosta de nos pegar distraídos. 

Mas, não se enganem, independentemente de como agirmos, eventualmente ela sempre vem nos visitar. Muitas vezes ela veio a mim escondida entre comentários e notificações do Facebook. Mas então eu fugi de lá. De toda forma, não adiantou muito, ela simplesmente foi mudando de lugar. Em velhas fotografias espalhadas pela casa. E em algumas novas também. Na chuva que cai mansa na madrugada, nos ventos que sacodem as árvores partidas na janela do meu quarto. Em um olhar que não deveria ter sido visto. Eu uma palavra não deveria ter sido dita.

É estranho, mas é assim mesmo. Às vezes a tristeza apenas vem. E talvez tenha que ser assim mesmo. Talvez a tristeza seja tão parte da natureza quanto um árvore. Ou um casal partido. Talvez não exista nada de errado em se sentir triste às vezes. Mesmo pelo mais bobo dos motivos. Talvez devêssemos nos permitir mais. Talvez devêssemos parar de ter tanto medo de sentir. 

E talvez também não devêssemos ter medo de superar. 

Assim como as folhas das árvores que voltam a crescer. Assim como um carro encerado que volta a luzir. Assim como um par de botas que volta a ser utilizado nos dias frios de inverno. Assim como um casal apaixonado que sempre volta um para o outro. Da mesma forma a nossa tristeza, ela não precisa ficar para sempre dentro de nós. Podemos convidá-la, educadamente, para se retirar. Podemos expulsá-la aos tropeços, se precisar.

E, depois de uma visita dela, eu diria que o melhor a fazer é sacudir a poeira do corpo, colocar um sorriso no rosto e levantar da cama com dois pés direitos.

E respirar bem fundo. Porque ainda vem muito mundo pela frente.  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A verdade é um caco de vidro que a vida nos faz engolir

Quando já não escrevo. Quando evito pensar. Quando preencho os silêncios com pensamentos que estão lá só para que eu não pense sobre o que devo pensar. Sobre o que não quero pensar. Sobre o que não consigo evitar. A inevitável, indubitável e inegável verdade. Que já não se esconde pelas sombras dos meus pensamentos, mas que se coloca embaixo de todos os holofotes, impõe sua presença e reclama minha atenção. Quando percebo que estão enganados os que acreditam que a verdade é saborosa. Quando finalmente vejo que a verdade é um caco de vidro que a vida nos faz mastigar. Engolir. Digerir. Que verdade dói e machuca. Nesses momentos é que eu realmente preciso escrever.

Nesses momentos escrever é fácil. As palavras escorrem pela tinta da caneta azul e mancham o papel, as ideias escorrem pelas mãos e mancham o texto, os sentimentos escorrem pela mente e mancham as entrelinhas. Nestes momentos basta ir juntando os parágrafos na cabeça e depois transcrevê-los para um papel qualquer. Nestes momentos eu acabo de escrever antes mesmo de me dar conta de que tinha começado.

Porque os textos, a grande parte dos bons textos, nascem da angústia. Nascem da necessidade de nossa alma lidar com as verdades que o mundo nos faz engolir. A alma não sabe guardar segredos. Ela tem que dizer, ela tem que botar para fora, ela precisa que de alguma forma as outras almas do mundo também saibam o que ela está passando. Os textos nascem da eterna luta que existe entre nossa alma e nossa mente. Porque nosso lado racional nunca nos deixa simplesmente desabafar sobre tudo que queremos, em alto e bom som, a quem quer que seja. Porém a nossa alma não nos deixa em paz se não nos abrirmos.

Entretanto, a verdade não precisa ser um caco de vidro que fazemos os outros engolirem.

Podemos costurar a verdade nas entrelinhas, podemos polir suas pontas. Podemos amaciá-la. Podemos açucará-la. Podemos escrever. Podemos escrever sobre pássaros e rios e sobremesas. E podemos escrever sobre outras pessoas e outras situações e outros mundos. Podemos escrever e dessa forma dizer o que precisamos, mas sem precisar que essas palavras atinjam outras pessoas.

Somos escritores, ora essa. Podemos transformar dor em rima. Rima em verso. E verso em poesia.

Ou em um texto mesmo, se você for como eu e também não souber escrever poesias.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sina de bêbado



Nem sempre eu sei sobre o que escrever. Às vezes é só uma ideia que irrompe pela minha mente, no meio daquela prova de matemática, durante o banho, cinco segundos antes de eu cair no sono. Às vezes é algo que alguém diz, uma frase solta em meio a um livro, às vezes é aquele simples sorriso recebido ao caminho do bar.  Nem sempre eu sei sobre o que escrever. Nem sempre o que eu escrevo acaba como eu quero.

Quase nunca acaba como eu quero.

Mas mesmo assim eu escrevo, aquela sina de bêbado tentando se fazer entender. Tentando declarar ao mundo que está muito bem, obrigado, mas falhando miseravelmente ao tropeçar nos próprios pés e cair de nariz na calçada. Me sinto constantemente caindo de nariz na calçada, cada vez que tento escrever um texto. Cada vez que releio um texto que escrevi. É como se todas as coisas que parecem extremamente geniais na minha cabeça acabassem se tornando um monte de clichês no papel.

E eu odeio clichês. E gente que crítica clichês. No caso, me odeio assim.

Porém, de toda forma, assim como um alcoólatra que não consegue passar muito tempo longe das bebidas, eu também não consigo ficar muito tempo sem escrever. Começa com uma cerveja, que seria praticamente uma mensagem um pouco mais longa no skype. Depois evolui para um vinho, que já seria uma resposta longa demais na prova de filosofia. De repente já está na vodka, que sou eu escrevendo coisas aleatórias em vez de copiar o conteúdo de física. E, então, finalmente, o bêbado está com um copo de tequila na mão pronto para virar. Basicamente eu usei todo meu caderno para escrever textos e não tem lugar para mais nenhuma matéria.

E lá vou eu. Gritando ao mundo que estou mais lúcida que nunca. Que finalmente fiz minha obra de arte. Que é a melhor coisa que já escrevi. Que qualquer um já escreveu. É a obra definitiva que vai mudar o rumo da literatura no mundo. Ou pelo menos é o que eu acho, até que leio o que escrevi. E ta-dá! Lá está o bêbado caído de nariz no chão, mais uma vez. E lá está, mais um texto, com ideias tão recicladas que já não é mais possível separá-las do lixo. Tudo tem seu limite.

Então, porque ainda escrever? Porque o bêbado continua a beber, mesmo que ele viva caindo no chão? A bebida o vicia. Talvez, então, estejam escondendo um pouquinho desse material viciante nas teclas do meu computador também. E em todas as canetas e lápis que eu tenho. E em todos os papéis, até nos menorzinhos em que você nem imagina quantos textos podem guardar. Talvez esteja escondida dentro de mim. Essa substância mágica que me faz continuar escrevendo, mesmo quando eu já cai no chão um bilhão de vezes.

Eu não tenho ideia se é isso que acontece. Mas se for, eu só posso dizer uma coisa: espero que essa substância jamais saia do meu sistema. Porque este é um vício que eu não tenho intenção nenhuma de largar. Mesmo que eu quebre meu nariz um bilhão de vezes, eu ainda tenho esperança que um dia vou conseguir voltar andando sozinha o bar. 

E isso fará todas as quedas valerem a pena. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

A felicidade é um gatinho preto e arisco

Às vezes eu acabo pensando no meu gatinho preto. É um gatinho assim, não muito grande, meio magrinho. E todo preto. Todinho, da ponta do rabo até o final das orelhas. E é arisco que só ele! Apareceu um dia na minha casa, acabou embaixo dela, na verdade. Nunca soubemos de onde ele veio. Era ainda menorzinho do que hoje em dia. E miava, como miava! A noite toda. Lá embaixo da casa. Miação a noite inteira.

Demoramos uns três dias só pra conseguir ver ele. Mais uns cinco para que conseguíssemos capturá-lo. Era todo pequeninho. Todo pretinho. No escuro. E era só olhar pra ele. Só pensar em olhar pra ele. Só cogitar a ideia de pensar em olhar pra ele. E pronto. Ele já tinha sumido correndo pro outro lado. O único que conseguia chegar perto dele era o Desolé, meu outro gato. Preto e branco. Gordo e grande, meio cego de um olho. Mas boa pessoa. Ou bom gato. Por causa dele, conseguimos tirar o pretinho de baixo da casa.

Precisamos deixar a casa trancada por semanas, tomando todos os cuidados para que o pretinho não fugisse. Mas dávamos ração e comida. E mesmo que ele sempre fugisse quando chegávamos perto, ele foi ficando. Foi ficando. E até hoje ficou. Adora o Desolé e o Desolé adora ele. Até tentou dar de mamar pra ele por um tempo. Mas o Desolé é um gato, não uma gata, por isso não deu muito certo. Mas valeu a intenção. Eu acho que valeu, pelo menos.

Acontece que, com o tempo, o pretinho foi ficando menos arisco. Já conseguimos olhar pra ele sem que ele saia correndo. E de vez em quando ele vem assim, meio de fininho, e até deita perto da gente. Mas não pense que ele ficou mansinho. Basta um movimento mais brusco que ele já sai em disparada para o outro lado do mundo.

Mesmo assim, hoje teve um momento em que ele veio assim, pertinho de mim. E deitou. Me olhou com aqueles olhos verdes e grandes como quem diz "sem estardalhaço, Bibiana, por favor". Então eu fiquei quietinha. E só olhei pra ele. Todo pretinho. Todo pequeninho. E todo arisco. Ele é tão arisco que nem tem nome. Até disso ele foge.

E ali estava ele. Vindo assim, aparentemente sem motivo nenhum, ficar perto de mim. Apenas deitando ali como se fosse a coisa mais normal do mundo. E talvez na cabecinha dele fosse mesmo. Neste momento, eu não deixei de pensar que talvez a felicidade seja exatamente como esse gatinho preto arisco. 

Ela surge na nossa vida quando quer. Se você realmente tentar, com muito afinco e bastante sorte, você até consegue agarrá-la de vez em quando. Mas às vezes e só às vezes, ela vem assim. Toda mansinha e para perto da gente - sem que tenhamos feito nada. Ela só vem, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Até o momento em que decide que basta. A felicidade é arisca por natureza. Melhorar aproveitar sua companhia, do que tentar domesticá-la. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O mundo é uma casquinha de sorvete (Ou a vida sob o ponto de vista de uma menina gordinha)

Acontece que às vezes eu acho que o mundo é como uma casquinha de sorvete. E nós insistimos em ficar de dieta. O mundo é essa casquinha de sorvete de creme e chocolate, todo cremoso e irresistível. Com cobertura de caramelo e tudo. E a gente fica só olhando, imaginando ele derretendo na nossa boca bem devagarinho. Fica imaginando aquele sabor todo feito de gelo e açúcar. E ainda tem a casquinha crocante! Mas a gente só olha, a gente só imagina. De vez em quando até experimentamos um pouquinho (mas só um pouquinho!) o sorvete de outra pessoa. E como é bom! E como nos sentimos culpados depois disso!
Porque estamos de dieta. Estamos constantemente de dieta. Somos reféns da dieta, essa dieta opressora e tirana, que nos tira todos os nossos prazeres. Adeus, chocolate! Adeus, batata frita! Adeus, coca-cola! Vou sentir sua falta, minha querida casquinha! Vivemos em uma ditadura. Mas os ditadores somos nós mesmos, da mesma forma que  também somos os oprimidos. Somos totalmente sem sentido.

Por isso que eu gosto das crianças. Elas ainda estão em liberdade condicional ou numa espécie de regime aberto. De vez em quando os pais ainda as proíbem de fazer isso ou aquilo. De comer casquinha de sorvete. De sair para brincar de tardinha. Mas você já viu uma criança negar uma casquinha de sorvete, por medo de engordar? De deixar de falar algo, porque será "malvisto"? De agir de alguma forma porque será melhor "no futuro", mesmo que seja terrível no presente?

Porque o mundo é igualzinho a uma casquinha de sorvete. Todo cheio de sabores a serem descobertos! Todo cheio de lugares deliciosos para se ir. Todo cheio de coisas irresistíveis para se fazer. E pessoas incríveis para conhecer. E, claro, da mesma forma que a casquinha de sorvete pode te deixar meia gordinha para o verão, devorar o mundo também pode te deixar fora de forma para as outras pessoas.

Porque todo mundo sabe que tem coisas que não se faz. Que não se deve fazer. Você não pode simplesmente largar tudo e ir fazer o que quer. Você tem que pensar no futuro. Dinheiro também é importante, você não pode deixar de pensar nele. E tem a sua imagem, que deve ser bem preservada. E seus amigos, que devem ser bem escolhidos. Assim, amigos de dieta. Que nem você. Magrinhos, bonitinhos, todos cheios de lacunas por causa das experiências que nunca viveram. Que deveriam viver.

Porque o mundo é como uma casquinha de sorvete. E, às vezes, faz bem fugir um pouco da dieta.  

sábado, 16 de agosto de 2014

O Segredo de Dorothy

Era um velho senhor, que vivia em uma velha casa, com suas roupas velhas e histórias mais velhas ainda. E eu, como toda a boa criança deve ser, vivia com uma curiosidade que me transbordava, enchia a garganta e escapava pelos lábios nas horas mais impróprias. E por horas impróprias, entenda metade dos momentos em que eu deveria estar nas aulas de ballet que minha mãe insistia que eu participasse. Porém, como poderia quando os olhos dele brilhavam a cada história contada, seu rosto rejuvenescia anos sem fim e eu via por minutos, por horas, brilhando como novas aquelas histórias que haviam sido soterradas pelo tempo, mas que eram cordialmente desenterradas para mim?

Era um velho senhor e como todo velho senhor era cheio de suas manias. O chá sem açúcar, o mesmo par de sapatos surrados, as constantes reclamações em relação a mim - e a todas essas crianças que parecem não ter mais o que fazer do que incomodar os outros. Não o entendam mal, era apenas ranzinza. Ranzinza como é pressuposto que um velho senhor seja. Contudo, até isso me fascinava, como se aquela mistura de raiva com a amistosidade de seus olhos fosse o grande mistério do mundo. Talvez só não quisesse mostrar o quanto gostava das minhas visitas. Esses velhos senhores têm disso, negam sua solidão tanto quanto as sentem, ao ponto de prenderem-se a elas com o mesmo afinco que as odeiam. 

Tenho certeza de que gostava de me contar histórias tanto quanto eu gostava de ouvi-las. Me comprava biscoitos de chocolate, que deixava como quem não quer nada sobre o balcão - não haviam convites, não haviam ofertas, mas haviam os biscoitos dispostos em um prato de porcelana descascado e os olhos brilhando a cada nova história. Os meus e os dele. Os olhos eram o que o traiam. As feições podiam ser fechadas, a voz transparecia raiva, os gestos mostravam irritação. Porém os olhos não deixavam dúvida, eram portas para seu coração.

Sinceramente, contudo, eu também não era nenhum exemplo de doçura ou qualquer uma dessas qualidades que minha mãe classificaria como extremamente importantes e necessárias em uma boa menina. Por isso, acreditava que éramos um bom time. Dois solitários, dois estranhos ao mundo e suas convenções, compartilhando pedacinhos de um passado distante. Sentada perto da janela, em uma cadeira empoeirada, eu o ouvia contar sobre tempos distante. Tempos em que o leite era entregue a domicílio, as pessoas levavam listas prontas para a mercearia e ninguém assistia televisão.

Para meu horror, ele sempre afirmava: nem ao menos existiam televisões! Contava sobre meninas de outras épocas, com seus vestidos e meias de seda - tão diferentes de minhas calças jeans já totalmente destruídas pelo uso indiscriminado. Falava sobre a dificuldade em tirar fotos e como as pessoas realmente escreviam cartas. Essas eram as histórias curtas, as pequenas pinceladas que ele aos poucos revelava, criando uma realidade que me fascinava e surpreendia. 

Existiam dias, porém, em que seus olhos brilhavam mais e em suas palavras  me contava pequenas aventuras de um menino que ele certa vez conhecera, um menino que jamais deixara de ir a uma aventura. Aventuras que podiam ser decidir fugir de casa ou entrar em ônibus desconhecidos, pronto para desbravar o grande mundo que se estendia a sua frente. Um menino com travessuras que eu gostaria de ter presenciado. Um menino que eu considerava um amigo. Meu melhor amigo.

Naquele pequeno verão que compartilhamos, lembro-me de uma vez criar coragem e perguntar o que ele desejaria, se pudesse ter o que quisesse. Como se pego de guarda-baixa, ele se permitiu um sorriso enquanto me avaliava de alto a baixo. E me contou, da maneira que conta-se um segredo: "Um arco-íris" disse ele, "um grande arco-íris que jamais desapareça. Para que todos nós possamos ir até o seu fim e lá encontrarmos nosso tesouro".

Naquele momento eu reconheci o meu amigo das histórias em baixo de todas as rugas e marcas do tempo e quando ele devolveu minha pergunta, eu não exitei em responder: "Gostaria que o você fosse meu amigo." Seus olhos encheram-se com o tipo de emoção difícil de descrever e, mais surpreendente, como um inverno rigoroso que chega ao fim, foi como se todas as suas feições se descongelassem. Então,  com algo muito perto de carinho, ele me respondeu:

-Não lhe parece injusto que seu pedido seja realizado e o meu não? - E o abraço que lhe dei não teve nada de gelado. Neste instante, em uma explosão de energia, ele pegou um lápis em uma gaveta e rabiscou um desenho na parede da própria casa. Assustada, me aproximei e o que vi preencheu meu coração da mais pura alegria. -Pronto, ele disse, acabei de encontrar o tesouro mais valioso do mundo.

E, enquanto eu olhava o pequeno arco-íris torto rabiscado na parede, não pude deixar de concordar com ele, aquele velho senhor, com suas velhas histórias e velhas manias.