sábado, 16 de agosto de 2014

O Segredo de Dorothy

Era um velho senhor, que vivia em uma velha casa, com suas roupas velhas e histórias mais velhas ainda. E eu, como toda a boa criança deve ser, vivia com uma curiosidade que me transbordava, enchia a garganta e escapava pelos lábios nas horas mais impróprias. E por horas impróprias, entenda metade dos momentos em que eu deveria estar nas aulas de ballet que minha mãe insistia que eu participasse. Porém, como poderia quando os olhos dele brilhavam a cada história contada, seu rosto rejuvenescia anos sem fim e eu via por minutos, por horas, brilhando como novas aquelas histórias que haviam sido soterradas pelo tempo, mas que eram cordialmente desenterradas para mim?

Era um velho senhor e como todo velho senhor era cheio de suas manias. O chá sem açúcar, o mesmo par de sapatos surrados, as constantes reclamações em relação a mim - e a todas essas crianças que parecem não ter mais o que fazer do que incomodar os outros. Não o entendam mal, era apenas ranzinza. Ranzinza como é pressuposto que um velho senhor seja. Contudo, até isso me fascinava, como se aquela mistura de raiva com a amistosidade de seus olhos fosse o grande mistério do mundo. Talvez só não quisesse mostrar o quanto gostava das minhas visitas. Esses velhos senhores têm disso, negam sua solidão tanto quanto as sentem, ao ponto de prenderem-se a elas com o mesmo afinco que as odeiam. 

Tenho certeza de que gostava de me contar histórias tanto quanto eu gostava de ouvi-las. Me comprava biscoitos de chocolate, que deixava como quem não quer nada sobre o balcão - não haviam convites, não haviam ofertas, mas haviam os biscoitos dispostos em um prato de porcelana descascado e os olhos brilhando a cada nova história. Os meus e os dele. Os olhos eram o que o traiam. As feições podiam ser fechadas, a voz transparecia raiva, os gestos mostravam irritação. Porém os olhos não deixavam dúvida, eram portas para seu coração.

Sinceramente, contudo, eu também não era nenhum exemplo de doçura ou qualquer uma dessas qualidades que minha mãe classificaria como extremamente importantes e necessárias em uma boa menina. Por isso, acreditava que éramos um bom time. Dois solitários, dois estranhos ao mundo e suas convenções, compartilhando pedacinhos de um passado distante. Sentada perto da janela, em uma cadeira empoeirada, eu o ouvia contar sobre tempos distante. Tempos em que o leite era entregue a domicílio, as pessoas levavam listas prontas para a mercearia e ninguém assistia televisão.

Para meu horror, ele sempre afirmava: nem ao menos existiam televisões! Contava sobre meninas de outras épocas, com seus vestidos e meias de seda - tão diferentes de minhas calças jeans já totalmente destruídas pelo uso indiscriminado. Falava sobre a dificuldade em tirar fotos e como as pessoas realmente escreviam cartas. Essas eram as histórias curtas, as pequenas pinceladas que ele aos poucos revelava, criando uma realidade que me fascinava e surpreendia. 

Existiam dias, porém, em que seus olhos brilhavam mais e em suas palavras  me contava pequenas aventuras de um menino que ele certa vez conhecera, um menino que jamais deixara de ir a uma aventura. Aventuras que podiam ser decidir fugir de casa ou entrar em ônibus desconhecidos, pronto para desbravar o grande mundo que se estendia a sua frente. Um menino com travessuras que eu gostaria de ter presenciado. Um menino que eu considerava um amigo. Meu melhor amigo.

Naquele pequeno verão que compartilhamos, lembro-me de uma vez criar coragem e perguntar o que ele desejaria, se pudesse ter o que quisesse. Como se pego de guarda-baixa, ele se permitiu um sorriso enquanto me avaliava de alto a baixo. E me contou, da maneira que conta-se um segredo: "Um arco-íris" disse ele, "um grande arco-íris que jamais desapareça. Para que todos nós possamos ir até o seu fim e lá encontrarmos nosso tesouro".

Naquele momento eu reconheci o meu amigo das histórias em baixo de todas as rugas e marcas do tempo e quando ele devolveu minha pergunta, eu não exitei em responder: "Gostaria que o você fosse meu amigo." Seus olhos encheram-se com o tipo de emoção difícil de descrever e, mais surpreendente, como um inverno rigoroso que chega ao fim, foi como se todas as suas feições se descongelassem. Então,  com algo muito perto de carinho, ele me respondeu:

-Não lhe parece injusto que seu pedido seja realizado e o meu não? - E o abraço que lhe dei não teve nada de gelado. Neste instante, em uma explosão de energia, ele pegou um lápis em uma gaveta e rabiscou um desenho na parede da própria casa. Assustada, me aproximei e o que vi preencheu meu coração da mais pura alegria. -Pronto, ele disse, acabei de encontrar o tesouro mais valioso do mundo.

E, enquanto eu olhava o pequeno arco-íris torto rabiscado na parede, não pude deixar de concordar com ele, aquele velho senhor, com suas velhas histórias e velhas manias. 

Do ser, ou não ser?

Ser.
Às vezes é tão difícil.
Tão fácil se perder...

Ser,
Mário Quintana já diria,
É do tamanho do céu!

Ser,
Eu responderia,
É maior que eu.

Ser,
Hamlet me perguntaria,
Ou não ser?

Ser,
Eu escolheria.
Apenas para poder:

Rir,
Chorar,
Amar.

Ser.
Pois apenas sendo poderia
(Realmente) viver.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Duas horas da manhã do dia errado

Tudo começa as duas da manhã do dia errado. Mas espera, essa não é uma música? É difícil dizer, as duas da manhã, o que são ideias originais e o que são apenas recortes desiguais espalhados pela minha memória bagunçada. Tudo começa as duas da manhã, mas podiam ser três. Ou cinco. Tudo poderia ter começado a meia noite se eu não estivesse tão ocupada fazendo outra coisa. Outra coisa que eu nem me lembro o que é. As duas da manhã do dia errado, acordo e finalmente entendo tudo.

São duas horas da manhã, não três, nem cinco. A meia noite já foi faz tempo. O ar é gelado, mas os cobertores estão quentes. O mundo é escuro, mas a luz branca e fria do quarto permanece ligada. O tipo de descuido que não será esquecido por meu pai, quando a conta finalmente chegar. Engraçado pensar nesse tipo de coisa, as duas da manhã de um dia totalmente errado. Mas como eu já disse, seria errado esperar mais de meu cérebro naturalmente bagunçado - ainda mais quando pego de surpresa.

Abro meus olhos, naquele dia errado, e encaro as luzes vermelhas do relógio que marcam duas horas. A luz do quarto machucando meus olhos que ainda sonham metade do sonho interrompido ao meio. O gato também levanta a cabeça, como se meus pensamentos estivessem tão altos que também interromperam seu sono ininterrupto. Me encara com olhos de quem sabe, sabe que eu finalmente entendi. O  encaro, finalmente percebendo que talvez um gato não tenha como saber.

Mas é difícil dizer, principalmente quando são duas da manhã. E é o dia errado. E eu adormeci de jeans. E as luzes seguem acesas. E o mundo gira sobre uma nova perspectiva. A perspectiva da realidade, tão diferente do manto irreal que gostamos de acreditar todos os dias. E tudo brilha de forma diferente e todas as respostas dadas até ali parecem erradas. E o sentindo da vida me escapa, por entre os dedos, como grãos de areia que o vento e a gravidade levam pra longe. 

E em algum ponto um carro passa, tocando o tipo de som que deveria ter sido banido do mundo assim que inventado, em um volume que seria considerado no mínimo indecente em um planeta melhor que o nosso. E tudo se perde com a mesma facilidade com que se ganha. O mundo se inclina levemente, e as ideias são levadas pelo vento, prontas para interromper o sonho de outro alguém, alguém para quem não serão duas horas. E o dia não será o errado.

E eu? Me deito novamente, escondo a luz com as pálpebras e deixo meus olhos voltarem ao sonho metade interrompido. O gato volta ao seu sono interrupto. As horas no relógio mudam. As luzes  seguem acesas. E o mundo segue girando, pronto para mais um dia errado, como todos os outros que vieram antes. E como todos os outros que virão depois, enquanto as vidas se esvaírem assim. 

Como sonhos na madrugada.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

B - Side

É um pouco como o Assassinato Terrivelmente Lento Com Arma Extremamente Ineficaz, gostar de alguém que não gosta de ti. É como bater o dedinho na quina da mesa. Ou tomar banho gelado no inverno. Ver alguém que você gosta com outra pessoa, então, é como quando você deixa o pão cair e inevitalmente a parte com a manteiga cai pra baixo. Ou quando você precisa de seis pra ficar na média e acaba com cinco e nove. É como chegar na parada cinco segundos depois do ônibus partir.

Porque, invariavelmente, você só vai perceber o quanto gosta de alguém quando perder ela. Quando ela se mudar para o outro lado do mundo, quando vocês pararem de frequentar o mesmo colégio. Quando ela arranjar um novo amigo, quando ela te trocar por um namorado. Quando ela decidir que você não é bom o suficiente pra ela e sua nova vida requintada. Porque agora ela é requisitada. E não pode mais ser vista com um cara que faz rimas ruins e usa metáforas um tanto inusitadas. 

Inusitadas como você costumava ser. Inusitada como uma manhã de feriado, aquele sentimento depois de acordar, depois dos três segundos de pânico por pensar "puta merda, acordei atrasado", você era o que vinha depois. Tua presença tinha aquele ar de alívio, tua presença me trazia aquela felicidade despreocupada por lembrar que "poxa, hoje não tem aula". Teus sorrisos, então! Eram noite de Natal. E teus abraços eram presente de aniversário. 

Agora é um pouco como lembrar de quando éramos crianças. É um pouco como quando a gente diz "ah, como eu queria ainda ser criança". A gente adora esquecer que a nossa brincadeira preferida era fingir ser adulto. A gente ainda podia fingir e dizer que era brincadeira. Agora a gente finge que é adulto, mas ninguém mais ri. "Agora não é pra levar na brincadeira, cara." Foi isso que você disse, não? "Isso aqui é v-i-d-a. Para de levar na brincadeira". E eu achando que você sentia falta das brincadeiras. Mas nem era, sabe. Era eu sendo verdadeiro e você encontrando motivos pra rir (ou não rir) dos meus sentimentos. Mas eu preciso pensar que é como lembrar de quando éramos crianças. 

Nunca foi tão bom. Você nunca foi tão linda. Exceto pela parte que você era. Ou hoje é. Hoje você é  linda no meu passado. Linda correndo comigo pela rua. Brincando de ser adulta, brincando de ser só você. A menina da casa ao lado. A menina dos olhos esbugalhados. A menina, só. O problema é que nunca existiu outra como você, nem nunca existirá. O problema é que primeiro amor só tem um. E primeira menina que deita comigo no gramado de casa, também, só tem uma. E primeira menina que não me olha nos olhos e me pede por uma definição é e sempre será você e só você. 

É meio como chegar na aula e descobrir que tem prova. E você nunca sabe a matéria direito. Ou quando tua mãe pergunta se você fez o que ela pediu, mas você nunca lembra dela ter pedido algo. É difícil você chegar querendo respostas para uma pergunta que eu nem sabia que você podia fazer. Meus sentimentos? Guardo eles numa caixa e quanto menos eu mexer lá, melhor. Meus sentimentos em relação a ti? Eu nunca diria que teu sorriso é como uma noite de Natal. 

Porque isso é como dizer a tua mãe que você ama ela. Porque ela sabe disso. Deveria saber. E você sabe que ela sabe. E ela sabe que você sabe que ela sabe. Mas você não vai dizer exceto em casos de vida ou morte. Porque é simplesmente estranho. É como quando teu pai vem te explicar que a droga dos bebês não vêm da cegonha e sabe do que mais, talvez um dia você não queira ter um bebê mas possa fazer algo parecido com - EU NÃO QUERO OUVIR O RESTO PAI. É simplesmente estranho demais. Mesmo que faça parte da vida. Mesmo que seja verdade. Não é algo escutável ou dizível. 

Então eu acho que é meio como o Darth Vader chegar e dizer para o Luke "oi, sou seu pai" você simplesmente vir e querer uma resposta. Não é algo que se faça. Não é algo que se deva fazer. É errado. Deve estar num lugar da Bíblia, dos mandamentos ou de Hogwarts, Uma História um verbete que diga isso. Que diga "é totalmente errado e imoral chegar no teu vizinho e perguntar se ele te ama". E é mais errado ainda achar que sabe o que ele quis dizer, só porque não disse nada. 

Porque achar que sabe que entendeu meu silêncio é como ser uma daquelas menininhas que leem Sylvia Plath e só porque ela se matou acham que ela está sendo toda profunda e verdadeira. É como olhar pra um quadro de arte contemporânea e ter arrogância o suficiente pra achar que sacou tudo. Surpresa, surpresa, você não entendeu nada. Nadinha. Mesmo. Nem uma droga de vírgula que deve estar no lugar errado. Porque as vírgulas nos meus textos são como eu na vida. Sempre no lugar errado, na hora errada.

Mas por que perder tanto tempo com um texto quando você está lá, tão feliz com outro alguém? É meio como o epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Não tem nada de substancial. Toda a parte importante da história já foi resolvida. Mas a JK não poderia simplesmente terminar a história assim, sem mais nem menos. Então ela enche cinquenta linhas de coisas interessantes, mas que não mudam nada.

Não que você seja como Harry Potter. Deus sabe que nem eu faria uma comparação tão ruim. Porque a verdade é que eu te amo hoje, mas Harry Potter eu amarei pra sempre. 

E, desta vez, eu até deixo você ficar irritada com minha resposta.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Rafael

Quando eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, minha mãe se foi. Não o tipo "mamãe-foi-para-uma-viagem-especial" que os adultos falam quando alguém morre. Não o tipo "mamãe foi pro céu". Nada disso, minha mãe fez as suas malas, pegou seus discos, seus livros e se foi. Por algum bom motivo, tenho certeza, apesar de nunca ter me ocorrido nenhum motivo assim tão bom. 

Antes de partir, mamãe costumava dizer que quando eu nascera viera junto comigo um anjo da guarda. Tipo o brinquedo que vem com o McLanche Feliz. Não que eu imagine que ela tenha pensando por algum momento em mim como um McLanche Feliz. Tivesse sido o caso, acredito que ela não teria partido ou, ao menos, teria deixado alguns dos seus livros para trás. 

Nunca dei muita bola para o tal anjo da guarda. Minha mãe não era do tipo confiável. Ela era do tipo que dizia que "Tudo vai ficar bem" e não ficava. Do tipo que dizia que "Essa é a última vez que deixarei ele fazer isso" e não era. Do tipo que dizia "Eu volto logo" e que nunca mais voltava. Mesmo assim, nunca esqueci suas palavras sobre o tal anjo. 

Rafael, ela o chamava. Ele está sempre ao seu lado, ela dizia. Ele te protege, ela afirmava. Ele não deixará que nada de ruim te atinja, ela prometia. E mesmo que você não o veja, ela segredava, ele está sempre olhando por ti. E quando você se sentir sozinha, ela aconselhava, feche os olhos e o sinta lá. Porque ele estará lá. Não importa onde você esteja. Não importa o que tenham feito pra ti. Não importa o quão ruim o mundo esteja. Feche os olhos e sinta. É o Rafael, cuidando de ti. 

Nunca perguntei à minha mãe porque ela não podia ser meu anjo. Minha mãe era o tipo complicado de pessoa de quem você não espera constância. Minha mãe não era do tipo que te abraça quando você chora. Minha mãe era do tipo que manda você levantar o queixo e seguir em frente. Ela era tão errada, mas tão errada. Nada foi tão difícil como vê-la partir. Com os discos. E os livros. E o meu amor. Por ela. Pra ela. 

Mas me deixou o Rafael. Foi o que ela disse, naquela dia há tanto perdido nas marés do tempo. Eu vou, ela disse, mas ele está contigo e sempre estará. 

Eu não a culpei, nem a culpo. Existem coisas que são complicadas mesmo e eu não espero entendê-las. Assim como jamais esperei entender minha mãe. Aquela criatura infeliz, mas orgulhosa. Estranha, mas adorável. Inconstante e fascinante. No fundo do meu coração, tão errado quanto o dela, eu sei que ela me amava. Daquele seu jeito complicado, mas amava. 

Se não amasse, não teria criado o Rafael. Por mais que às vezes eu me pergunte se ela o criou pelo meu bem ou pelo bem dela.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lucas e a Chuva

Era um menino como todos os outros. Brincava, ria, chorava, brigava. Nunca necessariamente nessa ordem. Era um menino como todos os outros, exceto pela parte de que não era. Gostava de passar horas olhando para o céu, perscrutando o teto azul do mundo, sempre em busca de uma nuvem vestida de cinza que estivesse pronta para lhe trazer a chuva.

A chuva e Lucas, Lucas e a chuva.

Tudo começou muitos anos antes dele: era uma quinta-feira qualquer em meio a uma semana esquecida. Uma quinta-feira, não uma esperada sexta, nem uma odiada segunda. Uma quinta, apenas. Sem feriado, sem menção especial. Uma quinta-feira de chuva. 

Uma menina corria pela calçada, fugindo das gotas ao seu redor. Um menino saia da livraria, pensando em como fazer para não molhar os livros de seu pai. Um instante. É só o que foi necessário, um momento de distração. Um pequeno acidente numa esquina escorregadia da vida: um piscar de olhos, uma batida de coração, um sorriso tímido, uma nova paixão. Dizem que não existem inocentes no amor, apenas vítimas. Seria certo, então, dizer que aquele havia sido um acidente fatal.

Alguns anos depois, finalmente chegamos ao Lucas. Fazia sol lá fora, mas os olhos de seus pais eram manchados pela chuva mais bonita que já se viu. Riam-se e sorriam-se, a felicidade que os trasbordava era maior que o próprio universo. Mas não por muito tempo.

A chuva que um dia caiu para unir os pais de Lucas, foi a mesma que veio ao mundo para separá-los. Ruas molhadas, cidade escorregadia. Mais um acidente e dessa vez mais fatal ainda. O pai de Lucas enfrentou a maior tempestade de sua vida, a mãe de Lucas não enfrentou mais nada. 

E o tempo passou e chegou o momento em que o pai de Lucas o explicou que sua mãe apenas no céu existia. E, a partir de então, o coração de Lucas com o seu olhar viajou. E em cada arco-íris encontrou o sorriso dela. E em cada noite de vento forte, ouviu sua voz a lhe cantar. E a cada manhã de inverno se encantou com seu tom de azul mais azul que qualquer outra coisa poderia ser.

Mas nada disso se comparava à chuva. Deitado no jardim ele esperava pelas nuvens cinzentas, pelo cheiro de liberdade, pela atmosfera ansiosa do mundo antes do primeiro pingo cair. E quando ela vinha, como uma fina garoa ou como tempestade de verão, Lucas abria os braços e a deixava alcança-lo. Finalmente estava em paz consigo mesmo. 

Não há nada no mundo como carinho de mãe. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Don Sem Eme

A primeira vez em que vi Don ele estava flutuando a alguns metros do chão, deixando as borboletas estupefatas. Ao menos foi o que ele me disse delas, enquanto eu mesmo ficava mais estupefato que as próprias borboletas ao seu redor. Don não deu muito bola, nem a mim, nem às borboletas. 

Contou de seu nome. Don, apenas Don. Com N e não M, porque perdera uma perninha no caminho. Don, com N, porque não era que nem Dom João. Muito menos Dom Casmurro. Talvez um pouco Dom Quixote, mas sem a perninha da loucura. Era o que ele me dizia, mas sempre me perguntei se não era a perninha da razão que o faltava.

Mas não perguntei naquele momento porque existiam perguntas mais urgentes a serem feitas. Tais como a óbvia-mas-necessária, como você pode estar voando? Don deu seu risinho mais exato, pois me dizia exatamente em letras vermelhas garrafais e brilhantes "Ah, eu pensei que você jamais perguntaria". E, enquanto mandava um beijo para um tal de Douglas Adams, me explicou que a pergunta não tinha nada de complicado.

Você só tem precisa se jogar no chão, ele disse risonho, e errar. 

Don sempre soube o jeito certo de errar as coisas. Errava sempre as Leis da Física e por milagre jamais se perdeu em meio a um paradoxo qualquer. Sempre temi que a Polícia da Razão o levasse e que o prendesse no Presídio da Impossibilidade. Porém o menino era impossível e soube escapar de todas as racionalidades. 

Mas então veio a escola.

O problema era que Don acreditava na liberdade dos acentos, não via sentido em domesticar vírgulas. E se a mãe do Joãozinho só tinha uma laranja para dividir entre três filhos, a resposta era a de que eles ficariam famintos. Um mais um é igual a quanto? Depende. Se juntar duas maçãs, você acaba com duas. Se juntar duas ideias, você acaba com três. Se juntar dois amigos, você acaba sobrando. 

A professora suspirava, mas não desistia. Talvez um pouco de biologia? Qual a cor dos olhos de sua família?

Don sorria ao responder, era uma das suas respostas preferidas. Mamãe tem olhos cor de brabeza você-vá-arrumar-seu-quarto-menino, tingidos de afeto maior que o infinito ao quadrado. Papai tem olhos cor de tudo-vai-dar-certo, quando você acorda do pesadelo no meio da noite, olhos cor de não-fale-nada-durante-a-hora-do-jornal. Tinham olhos cor de céu quando o coelhinho da páscoa faz bagunça pintando os ovos. Olhos da cor da beleza, do amor, do tudo que você pode pensar de bom. 

A professora não sabia mais o que fazer. Tentou lhe ensinar astronomia e os planetas Don até que conhecia. 

Tem o que eu vou quando fico triste, ele dizia, e lá tem quantos pôr-do-sol eu quiser, mais de um milhão ao dia. Tem o planeta expoente negativo, onde tudo é o inverso. Eu ando pelo céu e voo pela água, ando pela noite e vou dormir só na madrugada. E perto do planeta do inverso, tem o planeta do Verso. Planeta da rima bonita, da guria entristecida, da palavra torcida. Planeta do Poeta, da Poetiza. 

Vencida, então, a professora se recolheu. É preciso curá-lo, ela reconheceu. Para o médico Don foi mandado e seu mal logo diagnosticado. Doença rara, o médico contou, há muito tempo que por aqui não aparecia um Sonhador. Para curá-lo não houve erro, uma dose de realidade bastou para fazê-lo.

Mas riam só da amarga ironia. Ao salvarem-lhe a sanidade, condenaram sua vida.  

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A menina dos cabelos de outono

É verão, o sol está lindo, o céu azul anil. Mundo perfeito. É inverno, as moças tem bochechas vermelhas, o chocolate é quente e o abraço também. Mundo mais que perfeito. É primavera, as flores se abrem em perfumes em tons de rosa. Você sabe como o mundo está. É outono e as folhas viajam ao sabor do vento e... sim, eu sei. O. Mundo. Está. Perfeito.

Não importa. 

Me importa a menina de cabelo cor de folhas de outono. 

É uma menina como tantas outras. Gosta de todas as coisas alternativas que todos gostam. É diferente da mesma forma que todos os outros. E adora assistir desenhos animados com seu gato nos sábados pela manhã. É bela, do tipo que conhece a própria beleza. É uma moça, apenas. E de moças vocês entendem. 

Parada na praça depois de comer seu sanduíche natural totalmente-livre-de-qualquer-coisa-com-gosto e de ter tomado sua água (refrigerante é saboroso demais, digo, unhealthy demais), ela se sente feliz. Seus cabelos viajam com o vento e as folhas de outono. Ela é jovem, divertida, totalmente acima do bem e do mau. Ela é linda. E sabe de tudo isso. 

Ri-se ainda mais ao notar que o menino com olhos cor de inverno está olhando pra ela.

Mas ele continua olhando. É demais pra ela. No auge de sua juventude, no auge da perfeição do mundo, no auge do amor próprio, descobre-se perdida. Perde-se no inverno daqueles olhos que a prendem ao chão. Seu espírito, contudo, flutua pelo mundo. Descobre em si sentimentos que jamais imaginou sentir. Em um milésimo se segundo vai de zero a cem. Da completa ignorância em relação a existência do outro, salta para a necessidade de sua atenção.

Sorri, de lado, convidativa, feliz. Sorri, apenas. Precisaria ela mais do que um sorriso? Não, claro que não. Ele olha pro lado, disfarça. "Oh, e ainda é tímido!" pensa ela. O encoraja. O sorriso maior do que nunca. Vem, diz o sorriso, vem, pensa ela. E assim ele faz. 

A menina sente-se enlouquecer, de uma maneira deliciosamente nova. Sente seu sangue queimar, seu cérebro congela. E lá vem ele, com os olhos de inverno. E lá vem ele, pronto para cumprir as promessas dela. Ou não? Entre o outono de seus cabelos e o inverno dos olhos dele, há uma brisa de verão impossível de ser ignorada.

Mas quem sou eu para especular nas estações da juventude?
Só cabe a Primavera decidir quando o mundo florescerá.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Desamores

Seis horas. Seis e um. Seis e dois. O despertador não cessa, a música não importa, o que eu quero mesmo é poder esquecer do mundo e voltar a dormir. Dormir mais, sempre mais, só mais cinco minutos, por favor? Mas não durmo. Não. Levanto. Tomo banho. O ritual inteiro, mais uma vez. 

Queria ter te dado um sorriso de verdade, mas ele me faltou. Saiu uma careta, meio atravessada, meio de sinto muito, meio envergonhada. Não sei se tu notou. Acho que sim, mas preferiu passar reto. Eu te entendo. Também passaria. 

Pensei mil vezes no que seria certo escrever aqui, pensei mil vezes no que seria errado. Ainda não sei. Mas se escrevo, entenda, é porque preciso. Difícil sou eu usar uma palavra como "entenda" numa hora dessas, de uma ironia pra lá do humor negro. Difícil eu pensar que estou escrevendo um texto desses. Que estamos vivendo uma coisa dessas.

É engraçado como algumas coisas vem do nada. É engraçado como alguns sentimentos nos alcançam tão rápido. Não é nem um pouco engraçado como eles nos abandonam, então, assim, sem mais nem menos. Eu não vou falar de justiça, porque eu não acredito nisso. Quando foi dito que o mundo é justo? Não foi, nunca foi, nunca será. A justiça quem criou fomos nós, só para sermos contraditos. Acontece, eu imagino, acontece.

Tanta coisa que acontece. 

Como a gente continuar cometendo os mesmos erros bobos de sempre, over and over again. Como a gente imaginar que conhece as pessoas. Que os outros nos conhecem. Dai vem o mundo e nos lembra como as coisas realmente são. Nos lembra que pessoas são mais do que pequenos amontoados de carne e ossos. Nos lembra que o que nós vemos das pessoas é um pequeno intervalo entre o que eles querem mostrar e aquilo que não podem esconder. Nos lembra que tudo isso é infinitamente mais complicado do que gostamos de imaginar.

O problema é que as vezes eu me sinto tão esperta. Tão analítica e pronta para entender o mundo ao meu redor. Eu quero ser uma escritora, é isso que escritores fazem, não? Entendem as pessoas, o mundo, as razões, os motivos. Eu supostamente deveria saber melhor. Deveria saber que comunicação é importante, que nem tudo que fica implícito é realmente entendido. Que nem todos os silêncios tem o mesmo significado. Eu deveria saber que pessoas não se encaixam em pequenas caixas perfeitas embrulhadas para presente.

Porque pessoas não são assim. Porque quando você acha que chegou fundo na empatia, que finalmente compreendeu o incompreensível, que todos os mistérios foram resolvidos - normalmente você só está olhando para um minúsculo grão de areia de um universo inteiro. E dai as pessoas vão lá e fazem o impensado, e agem de uma forma totalmente contra o que você imaginaria razoável, e você se sente no direito de reclamar. No direito de devolver a mercadoria. No direito de deitar no chão do seu quarto, colocar uma música depressiva e ficar pensando o que você fez de tão errado pro mundo pra merecer uma coisa dessas.

Nesses momentos meio desolados, depressivos e deprimentes, eu penso no velho e bom William. Oh William, às vezes eu penso que você foi o único que realmente entendeu alguma coisa. A verdadeira tragédia não é, nem nunca foi, morrer de amor.

A maior tragédia de todas é quando o amor morre. 

sábado, 18 de maio de 2013

Meio vaga, meio boba. Meio eu, meio ela. Meio assim.

Cabelo desgrenhado. Cara inchada. Vontade de acordar, não. Deve ser de manhã. Meu pijama de inverno é de moletom. Bom mesmo se tudo fosse que nem ele. Macio. Confortável. Quentinho. Que nem o abraço, que eu não pedi. Que nem o sorriso, que eu ganhei. Estranho sentir-se assim. Saber-se inteiro e, mesmo assim, querer conquistar mais uma metade. Bom é mesmo, sentir-se assim, rindo por nada, sorrindo por tudo. 

Tropeço nas palavras, ando vagarosamente pelo dia. O sol quentinho que nem o moletom. Bom mesmo se tudo fosse que nem ele, assim, que nos dá vontade de ficar com ele e nada mais. Só o moletom. E a gente. E os sorrisos. E o sol da tarde. 

Às vezes é fácil demais perceber porque alguns acham o mundo terrível. Prefiro os dias em que é difícil. Prefiro os dias em que tudo parece bom demais para ser verdade. E nem me importo que eles sejam um tanto quanto raros, isso também os torna mais especiais. Mais bonitos. Mais perfeitos em sua própria imperfeição. 

Pareço menina de oito anos depois de ganhar roupa nova. Talvez seja. Me vesti de outra, já não sou eu. Me pergunto há quanto tempo me deixei pra trás, talvez só ontem. Não parece. Talvez essa outra eu já andasse se esgueirando por mim há tempos. Talvez sorrateiramente estivesse tentando entrar pelas pontas. Não importa. Aceito ela. Gosto dela. Deixo ela entrar pela porta da frente, peço que fique.

Quem sabe seja meio idiota, essa outra menina que tem o espírito mais leve que o meu. Talvez seja idiota por ainda acreditar em tanta coisa. Acredita na gentileza, na boa educação, na bondade do ser humano. Ela pode ser sarcástica, mas não é cínica. Realmente acredita nos outros, nas palavras bonitas, rimadas, rabiscadas. Acredita nas promessas contidas em canções bobas. Acredita, ainda, naquele tal de amor.

Mas também da idiotice dela eu gosto. Tem algo de bonito essa ingenuidade disfarçada em sorrisos tímidos de quinta de manhã. É como vento novo em dia de verão. É como brisa quentinha em dia de outono. É como moletom. Confortável, macio, tão fácil de se gostar.

Faço círculos pelo texto, paro antes de começar, começo antes de terminar. Ando vagarosamente pela terra de sonhos que se esconde atrás das minhas pálpebras. Talvez seja um erro se deixar levar assim.

Mas, caso seja, tudo bem. Às vezes é especialmente bom, errar.