segunda-feira, 16 de setembro de 2013

B - Side

É um pouco como o Assassinato Terrivelmente Lento Com Arma Extremamente Ineficaz, gostar de alguém que não gosta de ti. É como bater o dedinho na quina da mesa. Ou tomar banho gelado no inverno. Ver alguém que você gosta com outra pessoa, então, é como quando você deixa o pão cair e inevitalmente a parte com a manteiga cai pra baixo. Ou quando você precisa de seis pra ficar na média e acaba com cinco e nove. É como chegar na parada cinco segundos depois do ônibus partir.

Porque, invariavelmente, você só vai perceber o quanto gosta de alguém quando perder ela. Quando ela se mudar para o outro lado do mundo, quando vocês pararem de frequentar o mesmo colégio. Quando ela arranjar um novo amigo, quando ela te trocar por um namorado. Quando ela decidir que você não é bom o suficiente pra ela e sua nova vida requintada. Porque agora ela é requisitada. E não pode mais ser vista com um cara que faz rimas ruins e usa metáforas um tanto inusitadas. 

Inusitadas como você costumava ser. Inusitada como uma manhã de feriado, aquele sentimento depois de acordar, depois dos três segundos de pânico por pensar "puta merda, acordei atrasado", você era o que vinha depois. Tua presença tinha aquele ar de alívio, tua presença me trazia aquela felicidade despreocupada por lembrar que "poxa, hoje não tem aula". Teus sorrisos, então! Eram noite de Natal. E teus abraços eram presente de aniversário. 

Agora é um pouco como lembrar de quando éramos crianças. É um pouco como quando a gente diz "ah, como eu queria ainda ser criança". A gente adora esquecer que a nossa brincadeira preferida era fingir ser adulto. A gente ainda podia fingir e dizer que era brincadeira. Agora a gente finge que é adulto, mas ninguém mais ri. "Agora não é pra levar na brincadeira, cara." Foi isso que você disse, não? "Isso aqui é v-i-d-a. Para de levar na brincadeira". E eu achando que você sentia falta das brincadeiras. Mas nem era, sabe. Era eu sendo verdadeiro e você encontrando motivos pra rir (ou não rir) dos meus sentimentos. Mas eu preciso pensar que é como lembrar de quando éramos crianças. 

Nunca foi tão bom. Você nunca foi tão linda. Exceto pela parte que você era. Ou hoje é. Hoje você é  linda no meu passado. Linda correndo comigo pela rua. Brincando de ser adulta, brincando de ser só você. A menina da casa ao lado. A menina dos olhos esbugalhados. A menina, só. O problema é que nunca existiu outra como você, nem nunca existirá. O problema é que primeiro amor só tem um. E primeira menina que deita comigo no gramado de casa, também, só tem uma. E primeira menina que não me olha nos olhos e me pede por uma definição é e sempre será você e só você. 

É meio como chegar na aula e descobrir que tem prova. E você nunca sabe a matéria direito. Ou quando tua mãe pergunta se você fez o que ela pediu, mas você nunca lembra dela ter pedido algo. É difícil você chegar querendo respostas para uma pergunta que eu nem sabia que você podia fazer. Meus sentimentos? Guardo eles numa caixa e quanto menos eu mexer lá, melhor. Meus sentimentos em relação a ti? Eu nunca diria que teu sorriso é como uma noite de Natal. 

Porque isso é como dizer a tua mãe que você ama ela. Porque ela sabe disso. Deveria saber. E você sabe que ela sabe. E ela sabe que você sabe que ela sabe. Mas você não vai dizer exceto em casos de vida ou morte. Porque é simplesmente estranho. É como quando teu pai vem te explicar que a droga dos bebês não vêm da cegonha e sabe do que mais, talvez um dia você não queira ter um bebê mas possa fazer algo parecido com - EU NÃO QUERO OUVIR O RESTO PAI. É simplesmente estranho demais. Mesmo que faça parte da vida. Mesmo que seja verdade. Não é algo escutável ou dizível. 

Então eu acho que é meio como o Darth Vader chegar e dizer para o Luke "oi, sou seu pai" você simplesmente vir e querer uma resposta. Não é algo que se faça. Não é algo que se deva fazer. É errado. Deve estar num lugar da Bíblia, dos mandamentos ou de Hogwarts, Uma História um verbete que diga isso. Que diga "é totalmente errado e imoral chegar no teu vizinho e perguntar se ele te ama". E é mais errado ainda achar que sabe o que ele quis dizer, só porque não disse nada. 

Porque achar que sabe que entendeu meu silêncio é como ser uma daquelas menininhas que leem Sylvia Plath e só porque ela se matou acham que ela está sendo toda profunda e verdadeira. É como olhar pra um quadro de arte contemporânea e ter arrogância o suficiente pra achar que sacou tudo. Surpresa, surpresa, você não entendeu nada. Nadinha. Mesmo. Nem uma droga de vírgula que deve estar no lugar errado. Porque as vírgulas nos meus textos são como eu na vida. Sempre no lugar errado, na hora errada.

Mas por que perder tanto tempo com um texto quando você está lá, tão feliz com outro alguém? É meio como o epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Não tem nada de substancial. Toda a parte importante da história já foi resolvida. Mas a JK não poderia simplesmente terminar a história assim, sem mais nem menos. Então ela enche cinquenta linhas de coisas interessantes, mas que não mudam nada.

Não que você seja como Harry Potter. Deus sabe que nem eu faria uma comparação tão ruim. Porque a verdade é que eu te amo hoje, mas Harry Potter eu amarei pra sempre. 

E, desta vez, eu até deixo você ficar irritada com minha resposta.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Rafael

Quando eu era pequena demais para entender o que estava acontecendo, minha mãe se foi. Não o tipo "mamãe-foi-para-uma-viagem-especial" que os adultos falam quando alguém morre. Não o tipo "mamãe foi pro céu". Nada disso, minha mãe fez as suas malas, pegou seus discos, seus livros e se foi. Por algum bom motivo, tenho certeza, apesar de nunca ter me ocorrido nenhum motivo assim tão bom. 

Antes de partir, mamãe costumava dizer que quando eu nascera viera junto comigo um anjo da guarda. Tipo o brinquedo que vem com o McLanche Feliz. Não que eu imagine que ela tenha pensando por algum momento em mim como um McLanche Feliz. Tivesse sido o caso, acredito que ela não teria partido ou, ao menos, teria deixado alguns dos seus livros para trás. 

Nunca dei muita bola para o tal anjo da guarda. Minha mãe não era do tipo confiável. Ela era do tipo que dizia que "Tudo vai ficar bem" e não ficava. Do tipo que dizia que "Essa é a última vez que deixarei ele fazer isso" e não era. Do tipo que dizia "Eu volto logo" e que nunca mais voltava. Mesmo assim, nunca esqueci suas palavras sobre o tal anjo. 

Rafael, ela o chamava. Ele está sempre ao seu lado, ela dizia. Ele te protege, ela afirmava. Ele não deixará que nada de ruim te atinja, ela prometia. E mesmo que você não o veja, ela segredava, ele está sempre olhando por ti. E quando você se sentir sozinha, ela aconselhava, feche os olhos e o sinta lá. Porque ele estará lá. Não importa onde você esteja. Não importa o que tenham feito pra ti. Não importa o quão ruim o mundo esteja. Feche os olhos e sinta. É o Rafael, cuidando de ti. 

Nunca perguntei à minha mãe porque ela não podia ser meu anjo. Minha mãe era o tipo complicado de pessoa de quem você não espera constância. Minha mãe não era do tipo que te abraça quando você chora. Minha mãe era do tipo que manda você levantar o queixo e seguir em frente. Ela era tão errada, mas tão errada. Nada foi tão difícil como vê-la partir. Com os discos. E os livros. E o meu amor. Por ela. Pra ela. 

Mas me deixou o Rafael. Foi o que ela disse, naquela dia há tanto perdido nas marés do tempo. Eu vou, ela disse, mas ele está contigo e sempre estará. 

Eu não a culpei, nem a culpo. Existem coisas que são complicadas mesmo e eu não espero entendê-las. Assim como jamais esperei entender minha mãe. Aquela criatura infeliz, mas orgulhosa. Estranha, mas adorável. Inconstante e fascinante. No fundo do meu coração, tão errado quanto o dela, eu sei que ela me amava. Daquele seu jeito complicado, mas amava. 

Se não amasse, não teria criado o Rafael. Por mais que às vezes eu me pergunte se ela o criou pelo meu bem ou pelo bem dela.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lucas e a Chuva

Era um menino como todos os outros. Brincava, ria, chorava, brigava. Nunca necessariamente nessa ordem. Era um menino como todos os outros, exceto pela parte de que não era. Gostava de passar horas olhando para o céu, perscrutando o teto azul do mundo, sempre em busca de uma nuvem vestida de cinza que estivesse pronta para lhe trazer a chuva.

A chuva e Lucas, Lucas e a chuva.

Tudo começou muitos anos antes dele: era uma quinta-feira qualquer em meio a uma semana esquecida. Uma quinta-feira, não uma esperada sexta, nem uma odiada segunda. Uma quinta, apenas. Sem feriado, sem menção especial. Uma quinta-feira de chuva. 

Uma menina corria pela calçada, fugindo das gotas ao seu redor. Um menino saia da livraria, pensando em como fazer para não molhar os livros de seu pai. Um instante. É só o que foi necessário, um momento de distração. Um pequeno acidente numa esquina escorregadia da vida: um piscar de olhos, uma batida de coração, um sorriso tímido, uma nova paixão. Dizem que não existem inocentes no amor, apenas vítimas. Seria certo, então, dizer que aquele havia sido um acidente fatal.

Alguns anos depois, finalmente chegamos ao Lucas. Fazia sol lá fora, mas os olhos de seus pais eram manchados pela chuva mais bonita que já se viu. Riam-se e sorriam-se, a felicidade que os trasbordava era maior que o próprio universo. Mas não por muito tempo.

A chuva que um dia caiu para unir os pais de Lucas, foi a mesma que veio ao mundo para separá-los. Ruas molhadas, cidade escorregadia. Mais um acidente e dessa vez mais fatal ainda. O pai de Lucas enfrentou a maior tempestade de sua vida, a mãe de Lucas não enfrentou mais nada. 

E o tempo passou e chegou o momento em que o pai de Lucas o explicou que sua mãe apenas no céu existia. E, a partir de então, o coração de Lucas com o seu olhar viajou. E em cada arco-íris encontrou o sorriso dela. E em cada noite de vento forte, ouviu sua voz a lhe cantar. E a cada manhã de inverno se encantou com seu tom de azul mais azul que qualquer outra coisa poderia ser.

Mas nada disso se comparava à chuva. Deitado no jardim ele esperava pelas nuvens cinzentas, pelo cheiro de liberdade, pela atmosfera ansiosa do mundo antes do primeiro pingo cair. E quando ela vinha, como uma fina garoa ou como tempestade de verão, Lucas abria os braços e a deixava alcança-lo. Finalmente estava em paz consigo mesmo. 

Não há nada no mundo como carinho de mãe. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Don Sem Eme

A primeira vez em que vi Don ele estava flutuando a alguns metros do chão, deixando as borboletas estupefatas. Ao menos foi o que ele me disse delas, enquanto eu mesmo ficava mais estupefato que as próprias borboletas ao seu redor. Don não deu muito bola, nem a mim, nem às borboletas. 

Contou de seu nome. Don, apenas Don. Com N e não M, porque perdera uma perninha no caminho. Don, com N, porque não era que nem Dom João. Muito menos Dom Casmurro. Talvez um pouco Dom Quixote, mas sem a perninha da loucura. Era o que ele me dizia, mas sempre me perguntei se não era a perninha da razão que o faltava.

Mas não perguntei naquele momento porque existiam perguntas mais urgentes a serem feitas. Tais como a óbvia-mas-necessária, como você pode estar voando? Don deu seu risinho mais exato, pois me dizia exatamente em letras vermelhas garrafais e brilhantes "Ah, eu pensei que você jamais perguntaria". E, enquanto mandava um beijo para um tal de Douglas Adams, me explicou que a pergunta não tinha nada de complicado.

Você só tem precisa se jogar no chão, ele disse risonho, e errar. 

Don sempre soube o jeito certo de errar as coisas. Errava sempre as Leis da Física e por milagre jamais se perdeu em meio a um paradoxo qualquer. Sempre temi que a Polícia da Razão o levasse e que o prendesse no Presídio da Impossibilidade. Porém o menino era impossível e soube escapar de todas as racionalidades. 

Mas então veio a escola.

O problema era que Don acreditava na liberdade dos acentos, não via sentido em domesticar vírgulas. E se a mãe do Joãozinho só tinha uma laranja para dividir entre três filhos, a resposta era a de que eles ficariam famintos. Um mais um é igual a quanto? Depende. Se juntar duas maçãs, você acaba com duas. Se juntar duas ideias, você acaba com três. Se juntar dois amigos, você acaba sobrando. 

A professora suspirava, mas não desistia. Talvez um pouco de biologia? Qual a cor dos olhos de sua família?

Don sorria ao responder, era uma das suas respostas preferidas. Mamãe tem olhos cor de brabeza você-vá-arrumar-seu-quarto-menino, tingidos de afeto maior que o infinito ao quadrado. Papai tem olhos cor de tudo-vai-dar-certo, quando você acorda do pesadelo no meio da noite, olhos cor de não-fale-nada-durante-a-hora-do-jornal. Tinham olhos cor de céu quando o coelhinho da páscoa faz bagunça pintando os ovos. Olhos da cor da beleza, do amor, do tudo que você pode pensar de bom. 

A professora não sabia mais o que fazer. Tentou lhe ensinar astronomia e os planetas Don até que conhecia. 

Tem o que eu vou quando fico triste, ele dizia, e lá tem quantos pôr-do-sol eu quiser, mais de um milhão ao dia. Tem o planeta expoente negativo, onde tudo é o inverso. Eu ando pelo céu e voo pela água, ando pela noite e vou dormir só na madrugada. E perto do planeta do inverso, tem o planeta do Verso. Planeta da rima bonita, da guria entristecida, da palavra torcida. Planeta do Poeta, da Poetiza. 

Vencida, então, a professora se recolheu. É preciso curá-lo, ela reconheceu. Para o médico Don foi mandado e seu mal logo diagnosticado. Doença rara, o médico contou, há muito tempo que por aqui não aparecia um Sonhador. Para curá-lo não houve erro, uma dose de realidade bastou para fazê-lo.

Mas riam só da amarga ironia. Ao salvarem-lhe a sanidade, condenaram sua vida.  

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A menina dos cabelos de outono

É verão, o sol está lindo, o céu azul anil. Mundo perfeito. É inverno, as moças tem bochechas vermelhas, o chocolate é quente e o abraço também. Mundo mais que perfeito. É primavera, as flores se abrem em perfumes em tons de rosa. Você sabe como o mundo está. É outono e as folhas viajam ao sabor do vento e... sim, eu sei. O. Mundo. Está. Perfeito.

Não importa. 

Me importa a menina de cabelo cor de folhas de outono. 

É uma menina como tantas outras. Gosta de todas as coisas alternativas que todos gostam. É diferente da mesma forma que todos os outros. E adora assistir desenhos animados com seu gato nos sábados pela manhã. É bela, do tipo que conhece a própria beleza. É uma moça, apenas. E de moças vocês entendem. 

Parada na praça depois de comer seu sanduíche natural totalmente-livre-de-qualquer-coisa-com-gosto e de ter tomado sua água (refrigerante é saboroso demais, digo, unhealthy demais), ela se sente feliz. Seus cabelos viajam com o vento e as folhas de outono. Ela é jovem, divertida, totalmente acima do bem e do mau. Ela é linda. E sabe de tudo isso. 

Ri-se ainda mais ao notar que o menino com olhos cor de inverno está olhando pra ela.

Mas ele continua olhando. É demais pra ela. No auge de sua juventude, no auge da perfeição do mundo, no auge do amor próprio, descobre-se perdida. Perde-se no inverno daqueles olhos que a prendem ao chão. Seu espírito, contudo, flutua pelo mundo. Descobre em si sentimentos que jamais imaginou sentir. Em um milésimo se segundo vai de zero a cem. Da completa ignorância em relação a existência do outro, salta para a necessidade de sua atenção.

Sorri, de lado, convidativa, feliz. Sorri, apenas. Precisaria ela mais do que um sorriso? Não, claro que não. Ele olha pro lado, disfarça. "Oh, e ainda é tímido!" pensa ela. O encoraja. O sorriso maior do que nunca. Vem, diz o sorriso, vem, pensa ela. E assim ele faz. 

A menina sente-se enlouquecer, de uma maneira deliciosamente nova. Sente seu sangue queimar, seu cérebro congela. E lá vem ele, com os olhos de inverno. E lá vem ele, pronto para cumprir as promessas dela. Ou não? Entre o outono de seus cabelos e o inverno dos olhos dele, há uma brisa de verão impossível de ser ignorada.

Mas quem sou eu para especular nas estações da juventude?
Só cabe a Primavera decidir quando o mundo florescerá.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Desamores

Seis horas. Seis e um. Seis e dois. O despertador não cessa, a música não importa, o que eu quero mesmo é poder esquecer do mundo e voltar a dormir. Dormir mais, sempre mais, só mais cinco minutos, por favor? Mas não durmo. Não. Levanto. Tomo banho. O ritual inteiro, mais uma vez. 

Queria ter te dado um sorriso de verdade, mas ele me faltou. Saiu uma careta, meio atravessada, meio de sinto muito, meio envergonhada. Não sei se tu notou. Acho que sim, mas preferiu passar reto. Eu te entendo. Também passaria. 

Pensei mil vezes no que seria certo escrever aqui, pensei mil vezes no que seria errado. Ainda não sei. Mas se escrevo, entenda, é porque preciso. Difícil sou eu usar uma palavra como "entenda" numa hora dessas, de uma ironia pra lá do humor negro. Difícil eu pensar que estou escrevendo um texto desses. Que estamos vivendo uma coisa dessas.

É engraçado como algumas coisas vem do nada. É engraçado como alguns sentimentos nos alcançam tão rápido. Não é nem um pouco engraçado como eles nos abandonam, então, assim, sem mais nem menos. Eu não vou falar de justiça, porque eu não acredito nisso. Quando foi dito que o mundo é justo? Não foi, nunca foi, nunca será. A justiça quem criou fomos nós, só para sermos contraditos. Acontece, eu imagino, acontece.

Tanta coisa que acontece. 

Como a gente continuar cometendo os mesmos erros bobos de sempre, over and over again. Como a gente imaginar que conhece as pessoas. Que os outros nos conhecem. Dai vem o mundo e nos lembra como as coisas realmente são. Nos lembra que pessoas são mais do que pequenos amontoados de carne e ossos. Nos lembra que o que nós vemos das pessoas é um pequeno intervalo entre o que eles querem mostrar e aquilo que não podem esconder. Nos lembra que tudo isso é infinitamente mais complicado do que gostamos de imaginar.

O problema é que as vezes eu me sinto tão esperta. Tão analítica e pronta para entender o mundo ao meu redor. Eu quero ser uma escritora, é isso que escritores fazem, não? Entendem as pessoas, o mundo, as razões, os motivos. Eu supostamente deveria saber melhor. Deveria saber que comunicação é importante, que nem tudo que fica implícito é realmente entendido. Que nem todos os silêncios tem o mesmo significado. Eu deveria saber que pessoas não se encaixam em pequenas caixas perfeitas embrulhadas para presente.

Porque pessoas não são assim. Porque quando você acha que chegou fundo na empatia, que finalmente compreendeu o incompreensível, que todos os mistérios foram resolvidos - normalmente você só está olhando para um minúsculo grão de areia de um universo inteiro. E dai as pessoas vão lá e fazem o impensado, e agem de uma forma totalmente contra o que você imaginaria razoável, e você se sente no direito de reclamar. No direito de devolver a mercadoria. No direito de deitar no chão do seu quarto, colocar uma música depressiva e ficar pensando o que você fez de tão errado pro mundo pra merecer uma coisa dessas.

Nesses momentos meio desolados, depressivos e deprimentes, eu penso no velho e bom William. Oh William, às vezes eu penso que você foi o único que realmente entendeu alguma coisa. A verdadeira tragédia não é, nem nunca foi, morrer de amor.

A maior tragédia de todas é quando o amor morre. 

sábado, 18 de maio de 2013

Meio vaga, meio boba. Meio eu, meio ela. Meio assim.

Cabelo desgrenhado. Cara inchada. Vontade de acordar, não. Deve ser de manhã. Meu pijama de inverno é de moletom. Bom mesmo se tudo fosse que nem ele. Macio. Confortável. Quentinho. Que nem o abraço, que eu não pedi. Que nem o sorriso, que eu ganhei. Estranho sentir-se assim. Saber-se inteiro e, mesmo assim, querer conquistar mais uma metade. Bom é mesmo, sentir-se assim, rindo por nada, sorrindo por tudo. 

Tropeço nas palavras, ando vagarosamente pelo dia. O sol quentinho que nem o moletom. Bom mesmo se tudo fosse que nem ele, assim, que nos dá vontade de ficar com ele e nada mais. Só o moletom. E a gente. E os sorrisos. E o sol da tarde. 

Às vezes é fácil demais perceber porque alguns acham o mundo terrível. Prefiro os dias em que é difícil. Prefiro os dias em que tudo parece bom demais para ser verdade. E nem me importo que eles sejam um tanto quanto raros, isso também os torna mais especiais. Mais bonitos. Mais perfeitos em sua própria imperfeição. 

Pareço menina de oito anos depois de ganhar roupa nova. Talvez seja. Me vesti de outra, já não sou eu. Me pergunto há quanto tempo me deixei pra trás, talvez só ontem. Não parece. Talvez essa outra eu já andasse se esgueirando por mim há tempos. Talvez sorrateiramente estivesse tentando entrar pelas pontas. Não importa. Aceito ela. Gosto dela. Deixo ela entrar pela porta da frente, peço que fique.

Quem sabe seja meio idiota, essa outra menina que tem o espírito mais leve que o meu. Talvez seja idiota por ainda acreditar em tanta coisa. Acredita na gentileza, na boa educação, na bondade do ser humano. Ela pode ser sarcástica, mas não é cínica. Realmente acredita nos outros, nas palavras bonitas, rimadas, rabiscadas. Acredita nas promessas contidas em canções bobas. Acredita, ainda, naquele tal de amor.

Mas também da idiotice dela eu gosto. Tem algo de bonito essa ingenuidade disfarçada em sorrisos tímidos de quinta de manhã. É como vento novo em dia de verão. É como brisa quentinha em dia de outono. É como moletom. Confortável, macio, tão fácil de se gostar.

Faço círculos pelo texto, paro antes de começar, começo antes de terminar. Ando vagarosamente pela terra de sonhos que se esconde atrás das minhas pálpebras. Talvez seja um erro se deixar levar assim.

Mas, caso seja, tudo bem. Às vezes é especialmente bom, errar.

sábado, 27 de abril de 2013

O Fantástico Mr. M.

Vestindo sua super combinação de roupa homem-árvore, lá vem o Fantástico Mr. M. esbanjando simpatia em suas calças marrons e sua camiseta verde. Eu não vou te mentir e dizer que eu sempre gostei de ti, porque no início em nem sequer ligava muito pra tu existência - não era por mal, eu só não tinha ideia da pessoa que estava perdendo. Tu veio para a minha vida assim como o sono costuma vir, primeiro aos poucos e, então, todo de uma vez.

Mas eu vou tentar não pegar mais trechos de outras pessoas. Esse é um texto meu, uma legítima obra de Bibiana Davila, para o meu querido e fantástico Mr. M. Então aperte seu cinto, caro senhor, porque a viagem está apenas começando. 

Tudo começou quando eu ainda era uma bixete feliz que corria - literalmente - pela escola, saltitava pelo saguão e gostava de ficar no gramado. Entre um palpite bobo aqui, uma conversa sem pé nem cabeça ali, um comentário no Facebook acolá, eu comecei a te conhecer. Ou algo assim. 

Tu ainda era simplesmente um garoto que fazia perguntas complicadas sobre paradoxos em momentos em que eu não tinha aula porque não estava em recuperação em matemática. Ou um garoto que fazia comentários estranhos sobre eu vestir uma camiseta dos Beatles e brincos do Rolling Stones. E, ainda, um garoto descarado que ficava contando coisas da minha vida para a minha irmã. 

Como eu disse, não era exatamente como se eu te conhecesse.

Eventualmente, quando por algum milagre divino eu decidi ir numa festa de aniversário, ali estava você. E eu não vou dizer que foi o dia em que tudo mudou, mas definitivamente foi um começo. Um bom começo, eu acho, porque é sempre engraçado me lembrar de ti dançando Y.M.C.A.

Entre coreografias embaraçosas, encontros no saguão e uma bela gincana interna, eu dei por mim reparando em ti. Mas vamos pular toda a parte embaraçosa em que meus pensamentos se enrolam todos. Vamos pular para uma sexta-feira de agosto, é fim de tarde e eu vejo duas meninas sem futuro matando a aula de educação física. E, ei, lá está você também.

O Fantástico Mr. M. vem de mochila nas costas, andando vagarosamente pelos labirintos daquela escola. Ele encontra tempo de mudar seu caminho e sentar num banco para uma conversa meio filosófica, meio sonolenta. E não importa que ainda sejam cinco da tarde, nada os impede de divisar as estrelas no céu - ou nas árvores.

Dali por diante o caminho pode ter sido um tanto quanto tortuoso, mas eu fico feliz de ter passado por ele. Acredite, existem poucas coisas que eu prezo mais do que nossa amizade. Porque fantástico você é, Mr. M, não há discussões a esse respeito. Pode ser que de vez em quando a gente encontre gente legal. Mas é realmente, realmente difícil encontrar alguém que além de legal também é um às em matemática, um belo escritor e um baita leitor. 

Mas, mais do que qualquer coisa, eu sou extremamente grata. Grata pelos comentários que vieram desde minhas primeiras postagens e que ainda hoje veem. E tudo bem que eu ainda ache que os primeiros elogios não eram tão sinceros assim, fico feliz que você os tenha feito. Porque no final do dia eles eram o combustível que minhas palavras precisavam para que continuassem vindo. Grata porque tu não fez piada das minhas idiotices e me fez sentir OK, mesmo quando eu achava que deveria simplesmente morrer de tanta vergonha. Grata por todos os conselhos, que sempre são recheados de bom senso, e que me ajudaram a seguir em frente mesmo quando eu estava pronta para desistir de tudo e sair correndo para o outro lado. 

Eu jamais poderia te agradecer o suficiente. 

E eu sei que muito do que está escrito aqui eu devo ter falado em alguma conversa perdida, em um e-mail sentimental demais ou em algum comentário que talvez possa ter passado desapercebido. Mas acho que esse é o tipo de coisa que vale a pena repetir mil vezes. Não é sempre que coisas boas acontecem, então, me parece justo escrever o máximo que puder sobre elas. 

De qualquer forma Mr. M, você dizia hoje que o que difere os humanos dos outros animais é a nossa capacidade de ter esperança. Então deixe-me te dizer que eu tenho a esperança de que tu nunca saia da minha vida. Porque tu é a certeza de um bom ouvinte, de uma boa conversa e de grandes viagens pelo reino da maionese. Porque, roubando tuas palavras, é sempre bom conversar com gente inteligente. 

Que a sorte e o sucesso te acompanhem onde você for. Que a tua vida não seja muito complicada, só o suficiente para ser interessante. Que tu sempre tenha a capacidade de ver estrelas em árvores. Basicamente, Fantástico Mr. M., espero que tu continue a ser essa pessoa incrível e desejo coisas incríveis aconteçam pra ti. Tu merece, tudo isso e mais um infinito de coisas boas. E um infinito de bons livros. E chocolate, porque todo mundo merece chocolate. E bem doce, porque de amarga basta a vida. 

Espero que tu tenha gostado do meu presente de grego, veio do fundo da minha alma perdida de pseudo escritora. 

Um grande abraço, 

Bibiana. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Bicicletas, história e erros

Acho que uma das coisas que mais me incomodava nas aulas de história era quando eu via os mesmos erros sendo repetidos um sem número de vezes por um sem número de pessoas e sempre acabando mal. Quero dizer, custa tanto assim aprender um pouquinho com os erros passados? O quão complicado é simplesmente aceitar que se deu errado antes, vai dar errado agora? É tão difícil assim entender que invadir a Rússia durante o inverno é uma péssima ideia? Hein, Napoleão? Hein, Hittler?

Mas então eu comecei a viver um pouco mais no mundo real e um pouco menos no meu próprio mundo à parte. E um dos pontos mais importantes sobre o mundo real é que as coisas nem sempre fazem sentido. E por mais estúpido que pareça, às vezes nós precisamos ter nossa cota de erros. Não basta ver alguém se queimando, não basta ver alguém caindo, não basta alguém dizer que coca-cola e sorvete não combinam. Nós precisamos tentar. Precisamos colocar a porcaria da mão em cima do fogão. Precisamos sentir a dor. Precisamos ficar com uma cicatriz pelos próximos cinco anos. 

Não apenas porque essa é uma das melhores maneiras de aprender. Mas também por que às vezes é a única. 

Entretanto, tem mais. Claro que tem mais. E claro que faz ainda menos sentido. Porque é assim que as coisas são e pronto. 

Porque, às vezes, simplesmente tem aquela rua onde tu sabe que não deve andar de bicicleta. Porque todo mundo cai lá. Porque tu já caiu lá. Porque tu sabe que não é certo andar lá. Que andar de bicicleta por lá com certeza vai acabar mal. Mas mesmo assim você vai. Vai porque naqueles segundos que tu consegue andar de bicicleta por aquela rua, naqueles míseros segundos antes que tudo desmorone e tu se machuque, naqueles instantes que tu está andando tão, mas tão rápido, que nada mais importa, naqueles instantes você se sente invencível. 

E às vezes apenas isso importa. Esses segundos antes que o mundo desmorone. 

Porque errar é humano. E, às vezes, errar de novo é mais humano ainda. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Culpa é do John Green

(postagem hiper mega power atrasada, mas eu estava com preguiça demais pra digitar tudo isso)

De uma forma geral eu não me considero uma pessoa preconceituosa. Ao menos, não o tipo de pessoa preconceituosa que me vem à mente quando penso em pessoas preconceituosas, o que pode ser um pensamento especialmente preconceituoso. De qualquer forma, eu sei que tenho meus preconceitos.

Por exemplo, eu não como peixe. De jeito nenhum. Não importa se é assado, frito ou se foi jogado três vezes no ar numa noite de lua cheia. Eu não como. Eu não lembro como é o gosto e me sinto muito feliz com isso. Além disso, eu não chego nem perto de qualquer livro do Paulo Coelho ou da Martha Medeiros. Nunca li nada deles e com sorte vou morrer sem ter lido. E eu decididamente odeio qualquer pessoa que odeie livro, mesmo as que eu não conheço. 

E eu estou ok quanto a esses preconceitos. Quero dizer, não é como se eu me sinta feliz por ter uma predileção a odiar noventa por cento do mundo – mas eu estou ok com isso. Mas querem saber uma coisa sobre ter preconceitos? É uma droga. 

Verdadeiramente, é realmente uma droga. Acreditem em mim.

***

Eu não lembro a primeira vez que eu ouvi falar de “A Culpa é das Estrelas” do ilustríssimo Sr. John Green.  Mas eu me lembro bem de que o título nunca me incentivou muito a saber mais sobre a história – tanto pelo contrário. “A Culpa é das Estrelas” soa muito como aqueles pseudo-livros “Bianca” e “Sabrina” que minha mãe faz questão de ler. 

Além do mais, a história garota-com-câncer-encontra-garoto-bonito-se-apaixonam-blá-blá-blá parece demais com as histórias do Sparks, e Deus sabe que a vida é curta demais para ser desperdiçada com literatura ruim, como a dos livros desse senhor.
Mas, contudo, entretanto e todavia.

“A Culpa é das Estrelas” começou a me perseguir. Primeiro apareceu em um web show que eu olho, o Lydia Bennet!! (spin off de The Lizzie Bennet Diaries), onde a Mary estava lendo. Depois a Mary Kate Wiles(aka Lydia Bennet) disse em seu Tumblr que esse era o livro preferido dela (e eu realmente, realmente gosto da MK). Então o golpe final veio, numa quinta-feira a noite, e eu soube que não tinha mais volta. Lá estava, no feed de notícias do meu Facebook, um post sobre o quão genial esse livro era. 

Confesso que ainda não levava muito fé no livro. Mas resolvi dar uma chance pra história. Nem que fosse só para poder falar mal depois. Quão estúpida eu era. Quão estúpida eu sou...

Acabei de ler o livro um pouco depois das três da manhã, com lágrimas escorrendo pelos olhos e o coração quebrado em um milhão de pedaços. Por que o John Green é um bastardo sem misericórdia -  e eu posso dizer isso sobre ele, uma vez que estou totalmente apaixonada por esse cara e seu irmão (mas isso é assunto pra outro post). 

TFiOS como é chamado (The Fault in Our Stars – título original) é mais do que genial. Vai muito além da genialidade. Como o Marcus Zusak diz na capa, eu ri, eu chorei e eu, definitivamente, quis mais. 

Eu tenho um problema com resenhas, porque eu odeio qualquer tipo de spoiler (por mais idiota que seja) sobre um livro antes de lê-lo. Mas eu preciso escrever sobre esse livro. Preciso. Então, se vocês são como eu e não gostam de conhecer a história antes de lerem o livro, aconselho que pulem para o parágrafo final. 

Eu acho extremamente complicado traduzir o porque alguns livros são tão magnificamente bons e outros tão especialmente ruins. Na minha humilde opinião, existem dois caminhos para se criar um bom livro. Você pode ter essa história super fantástica, como Harry Potter ou Eragon, e simplesmente ir contando ela. Ou você pode criar uma história "normal" e contá-la de maneira fantástica, como "A Libélula dos Seus Oito Anos" ou "O Assassinato de Roger Acroyd". 

Eu diria que o livro do John Green pende mais para o lado do escrito magnificamente do que para o lado de história totalmente empolgante. Quero dizer, livros de garotas com câncer tem aos montes por ai. Romances juvenis então nem se fala. Mas ele pegou esses elementos meio "batidos" e fez algo totalmente novo e maravilhoso.

O que eu realmente, realmente gostei no livro é que apesar da Hazel (personagem principal) ser uma vítima (do câncer) ela não é uma vítima (da vida). Ela não passa o livro inteiro chorando por que oh! como é triste viver assim, nem o câncer é uma desculpa para fazer a história parecer mais "profunda" do que realmente é. Ela é como uma pessoa real realmente é. Às vezes ela fica totalmente de cara com o universo por fazer o que faz com ela, às vezes ela simplesmente aceita as coisas como são e segue em frente do jeito que é. 

É bom ler um livro que finalmente quebra esse monte de ditados horrorosos como "Sem dor, como conheceríamos a alegria?", ao que a Hazel brilhantemente responde que o sabor do brócolis não afeta em nada o do sorvete. 

É bom ler um livro que não romantize uma doença tão horrível quanto o câncer. Porque é horrível. Porque é decididamente uma das piores doenças que jamais existiu. Porque é teu corpo se virando contra ele mesmo. Porque requer um tratamento que é tão horrível quanto a doença em si. E isso NÃO devia ser romantizado. 

É bom ler um livro que tenha uma personagem principal que, antes de mais nada, é inteligente. Que não é só mais uma garota estúpida com sonhos mais estúpidos ainda. Que sabe fazer piada mesmo quando tudo está caindo aos pedaços. Que é tão verdadeiramente feita de awesome.

É bom ler um livro que é cheio de referências a Shakespeare. E que a cada página trás um quote mais inesquecível do que outro. 

E é terrivelmente bom ler um livro onde apareça um Augustus Waters. Convenhamos, ele é o garoto mais incrível do universo. E eu subiria com ele nessa montanha russa, que só vai para cima, até o fim. 

Uma pena que ele não exista. Mas bem, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos. 
Para concluir, basta dizer que eu leria até a lista de compra do John Green. 
E seria muito feliz fazendo isso. 

P.S.: O nome "A Culpa é das Estrelas" que me irritou tanto no início, é uma referência a uma passagem de Júlio César:
“A culpa, querido Brutus, não é de nossas estrelas, mas de nós mesmos.”
(Sorry Shakespeare, mas às vezes a culpa é sim das estrelas. John Green provou isso).