Talvez os mais observadores de vocês tenham notado que eu não fiz um post “de verdade” por aqui há tempos. Janeiro passou em branco. Os ainda mais observadores (comparáveis ao mestre Artemis Fowl) podem ter visto que o Asteroide foi redecorado. Bem de guriazinha agora, podem dizer, mas aquele azul me dava saudade do inverno. Sim, a menina que esperou ansiosamente os dias de sol brilhante não aguenta mais viver nessa panela de pressão. Se bem que, nesses dias de férias, a vida parece estar em banho-maria. Mais coisas vão mudar, só esperem. MUHAHAHAHA.
Sem pânico, o calor ainda não afetou minha sanidade mental. Eu acho. Enfim. Foi o primeiro, só faltam onze! Janeiro. Oh, janeiro.
O ano começou bem. Muito bem, na verdade. Fiz questão de passar ele todo, todinho, trancafiada nesse sofá (no qual redigo esse texto, por coincidência). A posição é estratégica. Uma distância segura da cozinha, agradavelmente próxima ao ventilador e com uma janela pra quando eu sentir falta do mundo lá fora. Uma espiadinha de vez em quando, vocês sabem, pra ver se a terceira guerra mundial não acabou explodindo por acaso. Só na última semana do mês que eu fiquei uma semana fora para me desintoxicar dessa internet (o fato de eu estar aqui mostra como foi totalmente eficiente). Cheguei a escrever num bloco, enquanto estava por lá (lembrem que eu estava em crise de abstinência antes de julgarem):
“Passam-se as horas, os dias, as semanas. E de repente janeiro já está acabando e eu não fiz nada de realmente relevante. No momento estou longe de casa e aqui os dias parecem se estender infinitamente, são todos iguais, mas de maneiras diferentes... Comendo melancia, sentada na escada, andando de pés descalços. Sinto que a roda do tempo corre ao contrário por aqui. É um lugar perdido do resto do mundo, é um hiato...”.
Segue-se um verdadeiro devaneio sobre a previsão de chuva para o dia seguinte e as dificuldades de se limpar as paredes de uma casa pelo lado de fora. Uma parte realmente maçante sobre a técnica mais adequada para se limpar forros, e os problemas de se ter uma família hipocondríaca. Mas essa parte que eu citei acima, existe algo nela que me lembra Sylvia Plath, um poema dela que é mais ou menos assim:
“Estrelas se abrem entre lírios.
Essas sereias sem expressão não deixam você cega?
Esse é o silêncio das almas atormentadas”
(Isso é o que eu me lembro de memória, possivelmente é escrito diferente. Mas essa é a essência).
Esses versos me veem a mente, o significado deles sempre em metamorfose. Depende de mim. Ao menos é o que parece, o significado depende de mim. Coisa mais estranha que as linhas de uma poetisa suicida venham a minha mente assim. Mas eu gosto da Sylvia, ela me toca. Há algo nela que parece escapar ao resto do mundo.
Pois então, entre desafios literários, desafios com a balança e desafios contra os desequilíbrios mentais janeiro passou. Mas não foi só isso. Ao longo do ano passado eu fui juntando uma pilha de livros para ler quando eu tivesse tempo, o problema é que o tal do tempo deu uma de espertinho, passou a perna em mim e não apareceu. Agora tá ele aqui, dando sopa. O jeito é aproveitar e colocar a leitura em dia.
Como os últimos devem ser os primeiros, comecei lendo os que eu ganhei de natal. Uma sessão dupla de Jane Austen: “Mansfield Park” e “A Abadia de Northanger”.
Masfield foi a decepção do século, ao que parece até mesmo Austen teve seus dias ruins. Fanny e Edmund, os protagonistas, não convencem. Apáticos à história. Sombras na trama. E só poderiam acabar juntos. A salvação é o dito vilão, Henry Crawford, que ao menos mostra ter um pouco de sangue quente nas veias. Mau caráter, talvez, mas me pareceu apenas ser muito influenciável. Atirado, impaciente e às vezes inconveniente. Mas ao menos mostra que se importa, corre atrás, dá uma atenção a Fanny que ninguém mais teria dado. Enquanto o senhor dito bonzinho a troca por “uma qualquer” que mal conhece. Dizem que o livro trás personagens mais realísticos, mas duvido muito. Fanny Price tem um caráter reto demais, e isso só é possível na ficção. Seres humanos no mundo real são oblíquos. Mansfield Park pode até retratar melhor a realidade do que os outros livros de Austen, mas eu não quero realidade. Se a realidade é entediante que ao menos o livro seja empolgante.


Já sem aquela animação comecei a ler a Abadia de Northanger. Contudo o desânimo foi precipitado, desde a primeira página aquele mostra que é um livro diferente. O primeiro de Jane Austen, mesmo que tenha sido publicado postumamente, mostra uma principiante com atitude e uma língua afiada. Uma narradora que toma conta do livro mais de uma vez, uma crítica a romances góticos e uma crítica maior ainda a quem critica a leitura de romances. Henry Tilney rouba a cena com seu sarcasmo pungente que contrasta com sua simpatia. Ele me encantou assim que apareceu.
“O Sr. Tilney foi educado o suficiente para parecer interessado no que a Sra. Allen dizia. E ela continuou a falar sobre musselina até que as danças recomeçaram. Enquanto ouvia a conversa, Catherine passou a temer que o Sr. Tiley se divertisse um pouco demais com as tolices dos outros.
-No que a senhorita está pensando, assim tão absorta? – perguntou ele enquanto retornava ao salão. –Não em seu parceiro, espero, pois pelo movimento que fez com a cabeça eu diria que suas meditações não são positivas.
Catherine enrubesceu e disse:
-Não pensava em nada.
-Uma resposta astuta e profunda, sem dúvida. Mas prefiro que diga logo que não quer me contar.
-Muito bem, não quero.
-Muito obrigado. Agora nós logo seremos amigos, pois eu estou autorizado a atormentá-la com esse assunto sempre que nos encontrarmos, e nada faz avançar tanto a amizade.”.
A história em si não é grande coisa, uma vez que tudo que acontece é previsível. O que faz o livro ser tão bom é a maneira que é escrito. Principalmente quando você se dá conta que foi escrito a mais de duzentos anos e mesmo assim ter partes que se encaixam tão bem aos dias de hoje. Ao que parece o ser humano não evoluiu tanto assim. Um trecho me chamou muita atenção:
"Catherine ficou muito envergonhada de sua ignorância, mas se enganava ao sentir-se assim. Quando se quer conquistar alguém, deve-se sempre ser ignorante. Ter uma mente bem informada demais é não possuir habilidade em administrar a vaidade dos outros, algo que uma pessoa sensata deve sempre evitar. Uma mulher, em especial, se por acaso tiver o infortúnio de saber qualquer coisa, deve escondê-lo o melhor que puder. As vantagens da tolice natural em uma moça bonita já foram descritas pela excelente de uma outra autora-irmã - ao tratamento dela ao assunto, eu apenas acrescentarei, para fazer justiça aos homens, que, embora para a maior e mais leviana parte desse sexo, a imbecilidade nas mulheres aumente muito seu charme, existem alguns deles que são mais razoáveis e desejam que elas sejam apenas ignorantes, não estúpidas."
Uma palavra: genial.
Pra quem não conhece Jane Austen e talvez se interessou abaixo está uma reportagem que saiu num jornal lá de Recife, no meio do ano passado. Existe também o
Jane Austen Brasil, um site com bastante coisa legal a respeito da autora e suas obras.
E por enquanto é isso ai pessoal. Vamos desligar o computador e ler um livro, depois de escrever tudo isso eu fiquei morrendo de vontade de ler alguma coisa da Tia Jane. E vocês, o que acham dela? Conhecem? Odeiam? Nunca tinham ouvido falar? Se quiserem dar alguma sugestão de leitura também aceito, depois eu coloco aqui o que achei.
Bem, boa semana e boa leitura para vocês. Abraço!