Ler é mergulhar de cabeça no abismo das páginas amarelas, é se deixar para trás. E eu gosto de me perder, gosto dessas viagens solitárias em tão boa companhia. Meus olhos correm pelas letras que descrevem Lyme e eu sinto o cheiro do mar. Vocês também conseguem sentir? Todos esses personagens que ganham vida em mim, e que de certa forma se tornam meus... O autor é um simples escultor, quem dá vida de verdade as estátuas é o leitor. Somos nós. E por isso cada livro é tão meu, cada história é um pedacinho de mim. Por isso eu choro com a Liesel, porque eu sinto com ela a desolação, a solidão, eu sinto. Vocês também sentem? É essa ligação, esse ponto de intersecção. Talvez por isso que os livros estejam tão mais próximos do que as pessoas, talvez por isso que os livros pareçam valer mais do que as pessoas. Eu amo os livros, mas não sei se posso dizer o mesmo das pessoas.
Diz Antoine de Saint-Exupéry que o amor e a amizade fazem as pessoas sentirem necessidade uma da outra. Eu necessito dos livros, das palavras pretas no branco. E os livros precisam de mim, de certa forma. Um livro não lido tem tanto valor quanto um livro inexistente. Mas e das pessoas, o que dizer? Talvez também elas sejam inexistentes, ou algo igualmente sem importância. Ao menos é o que parecem, para mim.
Por que as pessoas são assim? Por que elas não são como os personagens das minhas histórias preferidas? Por que eu tenho que ser tão diferente do resto? Por que eu não consigo simplesmente gostar delas?
Mas então eu leio, e se existem pessoas que conseguem escrever histórias assim, então ainda resta esperança.
No final são os livros, são sempre os livros. Que acabam com minhas esperanças ao mesmo tempo que me enchem dela.
Como eu queria que tudo fosse diferente. Mas ao mesmo tempo tudo pode ser tão bom exatamente como é.
Feliz páscoa.
***
Feliz páscoa.