quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

(interjeição) Dramática

Ah, paradoxos da existência. Oh, vida cruel. Ah, interjeições dramáticas.

Nesses dias do mais puro ócio minha mente resolveu se prender a esses animais indomesticáveis e causas de dores de cabeça realmente trágicas conhecidos como paradoxos. Talvez o uso do plural seja dispensável, mas deixemo-nos ser levados pelo exagero e que cada um tire suas conclusões após a leitura de acordo com seu próprio bom senso.

Mas, se neste instante, o bom senso esteja lhes dizendo que este texto é totalmente dispensável, o exilem de sua mente e deixem a reconciliação para mais tarde. Afinal, o que senão a perspectiva de que outra pessoa venha a ler, faz alguém queimar suas células cinzentas construindo uma série de frases que, espera-se, sejam coerentes e no mínimo digam algo?

Vamos deixar de lado esses discursos repletos de falsa modéstia e considerações do gênero “escrevo apenas pra mim”. Se viesse a ser esse o caso eu não escreveria num blog ou o deixaria aberto ao público. Não que não exista prazer em escrever, mas, ao publicá-lo, o mínimo que se espera é que alguém venha a ler.

Publicar um texto e dizer depois que não é sua intenção que alguém leia é como um comerciante que abre uma loja e não espera vender seus produtos. É irracional e, convenhamos, é estúpido. Sendo assim, ao publicar um texto aqui espero realmente que alguém venha a ler, e quando isso realmente acontece vocês nem imaginam como me deixa feliz.

O que estou querendo dizer é que melhor do que escrever um texto e gostar do resultado final é descobrir que outras pessoas concordam. O que eu realmente estou querendo dizer é obrigado, a todos vocês que vem aqui. (Como complicar as coisas, aulas comigo, entrem em contato pela zona de comentários cujo link se encontra ao fim desse post).

Dita minha cota de pieguices (essa palavra sempre me lembra pinguim, que me lembra marcha dos pinguins, que me lembra que o mundo é cruel, que me lembra que minha vida é cruel, que me lembra a edição linda de Os Miseráveis que é praticamente um roubo, que me lembra Os Miseráveis, que me lembra que o mundo é cruel, que me prende num círculo viciado - tadinho! - que me prende até eu ficar com fome e esquecer o que estava pensando... que estranho, não?) está na hora de mergulhar de vez na excentricidade - ou seria "esquizofrenicidade"? - e apresentar para vocês o último paradoxo que eu encontrei.

Existem muitas histórias sobre pessoas que ao tentarem compreender algum paradoxo comprometeram sua sanidade mental, e tantas outras que a simples menção da palavra com "p" já se sentem intimidadas (e você achando que era complexo...). Mas não entrem em pânico, o paradoxo do qual quero falar é de um dos ramos mais inofensivos da família, nada comparável ao realmente maldoso: "A seguinte afirmação é falsa. A afirmação anterior é verdadeira". O paradoxo com quem me deparei é talvez assustador de outra forma, talvez um pouco mais triste.

Quantas vezes em nossas vidas não encontramos pessoas que julgamos não apenas fabulosas e incríveis, mas também que consideramos infinitamente superiores a nós. O último ponto é extremamente mais comum se você também compartilha um complexo de inferioridade só comparável ao de Franz Kafka.

Seja como for, me parece quase impossível que alguém passe a vida toda sem nunca ter encontrado alguém que o supere em alguma coisa. E aqui eu paro de generalizar tanto e falo mais sobre eu mesma, que sempre que me vejo nessa situação vejo apenas duas saídas: a primeira é me aprimorar o suficiente para estar no mesmo nível que a pessoa, a segunda é o homicídio.

Sim, talvez existisse uma terceira saída, talvez até uma quarta. Se resignar com a própria ignorância/incapacidade; ignorar a pessoa; amnésia; suicídio. Mas essas são atitudes muito drásticas, até pra mim. E estou falando de casos em que você realmente se importa com a pessoa dita superior e realmente quer que a pessoa tenha uma boa opinião sobre você mesmo. A parte triste da história (não, não é quando acaba em homicídio) é perceber que às vezes você se esforça tanto e luta tanto para melhorar, para se fazer merecedor da admiração do(s) outro(s), que quando enfim consegue já não importa.

É como se ao se tornar a pessoa certa para o outro, ele já não é o certo para você.

Não sei se isso é realmente um paradoxo, mas realmente aumenta minha crença de que o mundo é cruel. Acho que é o momento para mais interjeições dramáticas, suspiros desolados, e até mesmo para um ponto final.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”

William Shakespeare, por ser Shakespeare, já é alguma coisa. Confesso que  quando me vi de frente a um livro dele tão conhecido e prestigiado como Hamlet já comecei a suar frio. Foram horas na folha de rosto criando coragem para começar a ler, afinal, não é um livro qualquer! É uma obra de mais de quatrocentos anos e que durante todo esse tempo é tida como uma grande obra. Em um certo momento quase me senti indigna de ler esse livro, quero dizer, não seria necessário anos a fio antes de se ter um intelecto capaz de compreender Shakespeare?
E então comecei a ler e entendi porque afinal Shakespeare é Shakespeare. Não foi com uma trama complicada e complexa que o Bardo de Avon se imortalizou. A complexidade é deixada toda aos personagens. Eles transitariam pelo mundo real sem problema algum, ou melhor, com todos os problemas com que o resto da humanidade também convive.  No fim Hamlet não deixa de ser um retrato do ser humano, com suas dúvidas, tristezas, angústias e até mesmo loucuras, como nós mesmos somos. 
Hamlet acredita que seu tio e atual rei, Claudio, assassinou seu pai e antigo rei para obter o trono. Claudio, irmão do antigo rei, se casou com a mãe de Hamlet antes mesmo que se completassem dois meses da morte do rei Hamlet. Contudo quem denunciou o atual rei da Dinamarca a Hamlet foi um suposto fantasma do antigo rei. Seria realmente uma aparição ou apenas um delírio da mente perturbada de Hamlet? Esse é um ponto importante da trama, Hamlet está ou não louco? Seja como for, se é verdade o que o fantasma denunciou a ele esse crime deve ser vingado. Será Hamlet capaz disso? 
Capaz ou não, são dele os créditos de algumas das passagens mais marcantes (e conhecidas) do livro. Sua língua afiada não falha em ambiguidades e até mesmo certo veneno ao tratar aqueles que julga culpado. Seus diálogos com a mãe são sempre cheios de controvérsias, afinal, ele a ama e ao mesmo tempo a considera culpada. Mas será ela inocente, ou culpada? Ele está louco, ou finge? O pai foi assassinado, ou não? Afinal, ser ou não ser?
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre

Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação. "

Essa passagem, por si, já valeria o livro, mas no fim se perde em meio a esse oceano de reflexões, monólogos e diálogos que  nos é oferecido por meio de Hamlet. Um livro para ser lido e, mais do que qualquer outro, para se pensar sobre o que se leu. Um livro para ler, reler e ler mais uma vez para ter certeza do que se está sendo dito. Para absorver cada palavra, cada reflexão. 
O livro em si me deixou meio perturbada. A tragédia, a traição em si, a loucura na qual o personagem se encontra (acredito sim que ele estava louco, em parte), a maneira com que Ofélia acaba é tão... horripilante. Me pergunto como Shakespeare conseguiu entender o ser humano até esse ponto. Mas afinal, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia... 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dose dupla Jane Austen e outras considerações sobre janeiro

Talvez os mais observadores de vocês tenham notado que eu não fiz um post “de verdade” por aqui há tempos. Janeiro passou em branco. Os ainda mais observadores (comparáveis ao mestre Artemis Fowl) podem ter visto que o Asteroide foi redecorado. Bem de guriazinha agora, podem dizer, mas aquele azul me dava saudade do inverno. Sim, a menina que esperou ansiosamente os dias de sol brilhante não aguenta mais viver nessa panela de pressão. Se bem que, nesses dias de férias, a vida parece estar em banho-maria. Mais coisas vão mudar, só esperem. MUHAHAHAHA. 
Sem pânico, o calor ainda não afetou minha sanidade mental. Eu acho. Enfim. Foi o primeiro, só faltam onze! Janeiro. Oh, janeiro. 
O ano começou bem. Muito bem, na verdade. Fiz questão de passar ele todo, todinho, trancafiada nesse sofá (no qual redigo esse texto, por coincidência).  A posição é estratégica. Uma distância segura da cozinha, agradavelmente próxima ao ventilador e com uma janela pra quando eu sentir falta do mundo lá fora. Uma espiadinha de vez em quando, vocês sabem, pra ver se a terceira guerra mundial não acabou explodindo por acaso. Só na última semana do mês que eu fiquei uma semana fora para me desintoxicar dessa internet (o fato de eu estar aqui mostra como foi totalmente eficiente). Cheguei a escrever num bloco, enquanto estava por lá (lembrem que eu estava em crise de abstinência antes de julgarem): 

“Passam-se as horas, os dias, as semanas. E de repente janeiro já está acabando e eu não fiz nada de realmente relevante. No momento estou longe de casa e aqui os dias parecem se estender infinitamente, são todos iguais, mas de maneiras diferentes... Comendo melancia, sentada na escada, andando de pés descalços. Sinto que a roda do tempo corre ao contrário por aqui. É um lugar perdido do resto do mundo, é um hiato...”.

Segue-se um verdadeiro devaneio sobre a previsão de chuva para o dia seguinte e as dificuldades de se limpar as paredes de uma casa pelo lado de fora. Uma parte realmente maçante sobre a técnica mais adequada para se limpar forros, e os problemas de se ter uma família hipocondríaca. Mas essa parte que eu citei acima, existe algo nela que me lembra Sylvia Plath, um poema dela que é mais ou menos assim:

“Estrelas se abrem entre lírios.
 Essas sereias sem expressão não deixam você cega? 
Esse é o silêncio das almas atormentadas”

(Isso é o que eu me lembro de memória, possivelmente é escrito diferente. Mas essa é a essência).
Esses versos me veem a mente, o significado deles sempre em metamorfose. Depende de mim. Ao menos é o que parece, o significado depende de mim. Coisa mais estranha que as linhas de uma poetisa suicida venham a minha mente assim. Mas eu gosto da Sylvia, ela me toca. Há algo nela que parece escapar ao resto do mundo. 
Pois então, entre desafios literários, desafios com a balança e desafios contra os desequilíbrios mentais janeiro passou. Mas não foi só isso. Ao longo do ano passado eu fui juntando uma pilha de livros para ler quando eu tivesse tempo, o problema é que o tal do tempo deu uma de espertinho, passou a perna em mim e não apareceu. Agora tá ele aqui, dando sopa. O jeito é aproveitar e colocar a leitura em dia. 

Como os últimos devem ser os primeiros, comecei lendo os que eu ganhei de natal. Uma sessão dupla de Jane Austen: “Mansfield Park” e “A Abadia de Northanger”. 



Masfield foi a decepção do século, ao que parece até mesmo Austen teve seus dias ruins. Fanny e Edmund, os protagonistas, não convencem. Apáticos à história. Sombras na trama. E só poderiam acabar juntos. A salvação é o dito vilão, Henry Crawford, que ao menos mostra ter um pouco de sangue quente nas veias. Mau caráter, talvez, mas me pareceu apenas ser muito influenciável. Atirado, impaciente e às vezes inconveniente. Mas ao menos mostra que se importa, corre atrás, dá uma atenção a Fanny que ninguém mais teria dado. Enquanto o senhor dito bonzinho a troca por “uma qualquer” que mal conhece. Dizem que o livro trás personagens mais realísticos, mas duvido muito. Fanny Price tem um caráter reto demais, e isso só é possível na ficção. Seres humanos no mundo real são oblíquos.  Mansfield Park pode até retratar melhor a realidade do que os outros livros de Austen, mas eu não quero realidade. Se a realidade é entediante que ao menos o livro seja empolgante.


        

Já sem aquela animação comecei a ler a Abadia de Northanger. Contudo o desânimo foi precipitado, desde a primeira página aquele mostra que é um livro diferente. O primeiro de Jane Austen, mesmo que tenha sido publicado postumamente, mostra uma principiante com atitude e uma língua afiada. Uma narradora que toma conta do livro mais de uma vez, uma crítica a romances góticos e uma crítica maior ainda a quem critica a leitura de romances. Henry Tilney rouba a cena com seu sarcasmo pungente que contrasta com sua simpatia. Ele me encantou assim que apareceu. 

“O Sr. Tilney foi educado o suficiente para parecer interessado no que a Sra. Allen dizia. E ela continuou a falar sobre musselina até que as danças recomeçaram. Enquanto ouvia a conversa, Catherine passou a temer que o Sr. Tiley se divertisse um pouco demais com as tolices dos outros.
-No que a senhorita está pensando, assim tão absorta? – perguntou ele enquanto retornava ao salão. –Não em seu parceiro, espero, pois pelo movimento que fez com a cabeça eu diria que suas meditações não são positivas.
Catherine enrubesceu e disse:
-Não pensava em nada.
-Uma resposta astuta e profunda, sem dúvida. Mas prefiro que diga logo que não quer me contar.
-Muito bem, não quero.
-Muito obrigado. Agora nós logo seremos amigos, pois eu estou autorizado a atormentá-la com esse assunto sempre que nos encontrarmos, e nada faz avançar tanto a amizade.”.

A história em si não é grande coisa, uma vez que tudo que acontece é previsível. O que faz o livro ser tão bom é a maneira que é escrito. Principalmente quando você se dá conta que foi escrito a mais de duzentos anos e mesmo assim ter partes que se encaixam tão bem aos dias de hoje. Ao que parece o ser humano não evoluiu tanto assim. Um trecho me chamou muita atenção:

"Catherine ficou muito envergonhada de sua ignorância, mas se enganava ao sentir-se assim. Quando se quer conquistar alguém, deve-se sempre ser ignorante. Ter uma mente bem informada demais é não possuir habilidade em administrar a vaidade dos outros, algo que uma pessoa sensata deve sempre evitar. Uma mulher, em especial, se por acaso tiver o infortúnio de saber qualquer coisa, deve escondê-lo o melhor que puder. As vantagens da tolice natural em uma moça bonita já foram descritas pela excelente de uma outra autora-irmã - ao tratamento dela ao assunto, eu apenas acrescentarei, para fazer justiça aos homens, que, embora para a maior e mais leviana parte desse sexo, a imbecilidade nas mulheres aumente muito seu charme, existem alguns deles que são mais razoáveis e desejam que elas sejam apenas ignorantes, não estúpidas." 

Uma palavra: genial.  

Pra quem não conhece Jane Austen e talvez se interessou abaixo está  uma reportagem que saiu num jornal lá de Recife, no meio do ano passado. Existe também o Jane Austen Brasil, um site com bastante coisa legal a respeito da autora e suas obras.



E por enquanto é isso ai pessoal. Vamos desligar o computador e ler um livro, depois de escrever tudo isso eu fiquei morrendo de vontade de ler alguma coisa da Tia Jane. E vocês, o que acham dela? Conhecem? Odeiam? Nunca tinham ouvido falar? Se quiserem dar alguma sugestão de leitura também aceito, depois eu coloco aqui o que achei.
Bem, boa semana e boa leitura para vocês. Abraço!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Mesa Voadora - Luís Fernando Verissimo


Sou fã assumida e de carteirinha do Luís Fernando, na verdade sou de toda a família Verissimo. Uma herança de minha mãe, que gosta tanto da obra deles que chegou ao ponto de batizar a filha dela como Bibiana. (Nome bonito, né?).  Das tirinhas na ZH da “Família Brasil” as crônicas de “Comédias da Vida Privada”, das histórias de “Para Gostar de Ler” até “As Mentiras que os Homens Contam”, ainda não consegui desgostar de seus escritos. 

Luís Fernando Verissimo tem essa maneira de dizer o que quer de uma maneira que ninguém mais conseguiria. Ele transforma o evento mais banal – um Buffet, por exemplo – em uma bela sátira. Uma sátira em relação às pessoas, ao país, ao próprio mundo. Ele faz de suas crônicas uma experiência única, elas têm essa leveza, essa superficialidade aparente que não deixa de ser apenas isso: aparente. Uma pequena alfinetada aqui em relação ao preço exorbitante de contas de restaurante, outra ali sobre a falta de educação das pessoas. 

Sabendo disso tudo, conhecendo a obra do Verissimo não consegui ler o livro dele sem certa expectativa, ainda folheando as páginas um sorriso já sombreava meu rosto. Sim, a predisposição para entrar no mundo de ironias e sarcasmos já estava ali, eu estava só esperando o momento para começar a gargalhar. E eu não me decepcionei. 

Se existe uma coisa que eu gosto é de livros. Se existe uma segunda coisa que eu gosto é de comer. Imaginem minha felicidade ao devorar um livro. E que livro delicioso este! A Mesa Voadora dá água na boca, e me fez ir da primeira a última página na mesma tarde. Uma tarde de muitas – muitas – risadas, de paradas para retomar um fôlego, para digerir aquela crônica um pouco mais pesada... 

Já comecei chorando de rir, com “Buffet”. Mais adiante “Com champignon” me deixou sentimental com seus dois finais, “De ressaca” foi uma das que mais gostei, e “Terra de Monstros”... bem, acho que todos deveriam ler essa. 

A Mesa Voadora é um livro que mostra porque o Luís Fernando está na lista dos maiores (e mais queridos) escritores brasileiros atuais. Acho que todos deveriam abrir esse livro numa dessas tardes de verão e mergulhar de cabeça nessas histórias mais do que deliciosas. Garanto que vocês não se arrependerão.  

domingo, 8 de janeiro de 2012

Desafio Literário

Tenho andado distraída, impaciente e um pouco indecisa. Mas não é que em meio a este clima tão reticente das férias (gloriosas férias) encontrei algo que reúne duas das minhas maiores paixões em um desafio que será, no mínimo, interessante. O Desafio Literário é uma espécie de gincana que tem como objetivo fazer os participantes lerem e resenharem um livro, escolhido a partir de algum tema pré definido, por mês.

Se eu gostei da ideia? Bem, segue-se a seguir a minha lista de livros para o desafio.

Janeiro: Para começar o ano apurando o paladar livros com a temática da comida. Escolhi dois livros do Luís Fernando que são leves e propícios a serem devorados. E por causa desse bairrismo que eu preciso confessar.
  • O Clube dos Anjos - Coleção Plenos Pecados: Gula, de Luis Fernando Veríssimo 
  • A Mesa Voadora, de Luis Fernando Veríssimo 
  • O Clube das Chocólatras, de Carole Matthews (reserva)

Fevereiro: São de longe memoráveis, mas trazem muita contradição. Para alguns merecem pedestais outros acreditam que deveriam ser crucificados. Seja como for, é indiscutível que são indispensáveis para toda a trama da história. Para fevereiro os livros devem trazer no título apenas o nome do protagonista. Fiquei um pouco triste por já ter lido Emma e Dom Casmurro que sem dúvida abrilhantariam minha lista. C'est la vie. Enfim, acho que encontrei substitutos tão bom quanto os que citei.
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Hamlet, de William Shakespeare
  • Fausto, de Goethe (reserva)
  • Caim, de José Saramago (reserva)

Março: As água de março vem machadas de sangue. Os romances polícias entram em cena e os detetives vão ter que encontrar um assassino em série. Não sei se a Agatha tem outros sobre assassinos em série além de Crimes ABC, então passarei sem ela e o pequeno belga.
  • O Perfume, de Patrick Süskind
  • O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris
  • Calafrios, de Lisa Jackson (reserva)

Abril: As aulas já a mil, provas, trabalhos, apresentações... Nada melhor de que um pouco da calma asiática para animar os ânimos. Neste mês o único requisito é que o escritor seja oriental. Por um belo acaso do destino já tinha "Eu sou o gato" do japonês Natsume Soseki aqui em casa, esperando para ser lido. É bom esse destino, não?!
  • Eu sou um gato, de Natsume Soseki
  • Sonhos de Dez Noites, de Natsume Soseki
  • Teatro dos Lírios, de Lulu Wang (reserva)

Maio: O outono, as folhas caindo, aquele ar de nostalgia do ar... Que tal relembrar um pouco do passado? Neste mês basta que os livros contenham fatos históricos no seu contexto. Quando eu vi o primeiro livro das sugestões não tive dúvidas: Hemingway. A tempos que anseio por seus escritos, foi como juntar a fome com a vontade de comer.
  • Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway
  • As meninas, de Lygia Fagundes Telles
  • Reflexos do Baile, de Antônio Callado (reserva)

Junho: Mês do meu aniversário, tinha que ser de arrasar mesmo. Quer assunto melhor do que viagem no tempo? Aproveitei nessa rodada para colocar dois livros que há tempos ocupam a estante dos "vou ler".
  • O fim da eternidade, de Isaac Asimov
  • A Mulher do Viajante no Tempo, de Audrey Niffenegger
  • Os Correios do Tempo, de Robert Silverberg  (reserva)

Julho: Julho chega sem pressa, com passos de tartaruga... ou seria de jabuti? A literatura, contudo, voa. Neste mês campeões e indicados ao prêmio Jabuti de Literatura. 
  • A Casa do Poeta Trágico, de Carlos Heitor Cony
  • Budapeste, de Chico Buarque de Holanda
  • Manual da Paixão Solitária - Moacyr Scliar (reserva)

Agosto: O dito mês do desgosto. Acabam-se as férias e a cada dia o tempo parece correr mais rápido. É o fim do ano se aproximando. E o que isso causa? Terror. Terror, então? Terror. 
  • Contos do Terror, de Edgar Allan Poe
  • Os Estranhos, de Stephen King
  • A Zona Morta, Stephen King (reserva)

Setembro: Um mês empolgante. Mito ou verdade? Mito, ao pé da letra.
  • Os Trabalhos de Hércules, de Agatha Christie 
  • O Anel dos Nibelungos, de A.S. Franchini e Carmen Seganfredo
  • A Divina Comédia, de Dante Alighieri (reserva)

Outubro: Esse mês será uma novidade para mim. GN a sigla super fashion, que substituiu HQ, vêm do termo super sexy Graphic Novel.  Tive que recorrer as sugestões, confesso.
  • V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd
  • Watchmen, de Alan Moore
  • Persépolis, de Marjane Satrapi (reserva)

Novembro: Toda a animação possível. Nesse mês os africanos entram em cena. Um continente onde nasceu o Mestre Tolkien. Preciso dizer mais?
  • Geração da Utopia, de Pepetela
  • O Vendedor de passados, de José Eduardo Agualusa
  • A arma da casa, de Nadine Gordimer (reserva)

Dezembro: para acabar o ano com chave de ouro um pouco de poesia. E, bem... a poesia me deixa sem palavras.
  • O Eu profundo e os outros Eus, de Fernando Pessoa
  • A Rua dos Cataventos, de Mário Quintana
  • Caprichos e Relaxos, de Paulo Leminski (reserva)

E é isso ai pessoal. Gritem se acharam que eu esqueci de algum ponto elementar, ou de que eu coloquei na lista algum desastre natural. Estou especialmente aberta a opiniões.

E se vocês tiverem vontade de participar também é só ir aqui http://desafioliterariobyrg.blogspot.com/p/tudo-sobre-o-dl-2012.html, tem o regulamento bem explicadinho e tal. Espero ver vocês nesse barco também, no mínimo fará bem para nossas pequeninas células cinzentas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Hello 2012

-E você está como?
-Como ontem, como amanhã. Constante em minha inconstância.
-O tempo parece propício para inconstância novas.
-Dizer que mudará no início do ano é tão clichê.
-Só não tão clichê quanto afirmar que isso é clichê.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Das bailarinas

No Ballet o breu é branco. 

E a bailarina... Bem, a bailarina está sentada no canto da sala esperando que aquele tenha sido o último ensaio do dia. A bailarina, na sala, não tem nada da Bailarina do palco. No ensaio ela tem olhos cansados (às vezes chorosos), cabelo arrepiado e saia amassada. Mesmo assim a bailarina sorri. Sorri porque dança. E dançando ela vai. Pela sala, pelo corredor, pela cozinha, pelo quintal. Dançar é o que faz, dançar é o que quer fazer.

A bailarina não é assim, como todo mundo. A bailarina usa meia em cima do sapato. A bailarina tem bolha, tem dor, tem cansaço. E, mesmo assim, segue dançando, sempre sorridente, sempre como se todo seu esforço fosse nada, como se a dança fluísse por ela naturalmente. Como se tivesse nascido para isso. E talvez tenha.

O Ballet é ingrato. Porque a bailarina busca a perfeição, e a perfeição que ela almeja, a única que a satisfaria, é aquela inalcançável. A bailarina deve se doar em cada ensaio. Deve se esforçar em cada pliê. Superar a si mesma em cada aula. E deve entender que jamais estará sendo boa o suficiente. 

A bailarina deve se despir de si mesma antes de entrar no palco. Nele ela será Giselle, Coppélia, Odette. Por seus movimentos ela traduzirá todos os sentimentos, as emoções e as histórias. Deverá no palco encantar a toda a platéia e persuadir a si mesma de que ela, as sapatilhas e a música são uma só.

No Ballet as sapatilhas são como asas. Sejam elas amareladas ou rosadas, furadas ou remendadas, novas ou não. A sapatilha faz a bailarina flutuar pelo linóleo em suas piruetas intermináveis. Porque no palco a bailarina se transforma em um ser divino, etéreo e inigualável. 

As bailarinas de que falo, entendam, são as de verdade. Bailarinas não são feitas de tule e Glitter. Bailarinas de verdade são constituídas de dedicação, perseverança, esforço e, acima de tudo, bailarinas são feitas de amor pela dança. Pois só o amor pode explicar essa alegria quando a música nos preenche ao entrarmos no palco e enfrentarmos o público.

O Ballet é ingrato, autodestrutivo, cansativo, cruel, belo, maravilhoso, perfeito e proporciona uma alegria sem fim aqueles que decidem por uma vida na ponta dos pés. 

E só agora eu percebo o quanto sinto falta disso tudo. 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O mundo é para ser voado


"O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte a respeito de voar:
Há toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar. O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar. Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente. A primeira parte é fácil. Ela requer apenas a habilidade de se jogar para frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer. Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão. Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiver praticando da forma correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força. 

Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade. Um dos problemas é que você precisa errar o chão acidentalmente. Não adianta tentar errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. 

É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre o quanto isso tudo irá doer se você deixar de errar. 

É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular. Contudo, se você tiver a sorte de ficar completamente distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola. Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração. Balance e flutue, flutue e balance. Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe se flutuar mais alto. Não ouça nada que possam dizer nesse momento porque dificilmente seria algo de útil. Provavelmente dirão algo como: "Meu Deus, você não pode estar voando!" É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo.

Flutue cada vez mais alto. Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois se deixe levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.

NÃO ACENE PARA NINGUÉM.

Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir. Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar seu vôo, sua velocidade, como manobrar, etc. O truque está sempre em não pensar muito a fundo naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça como se fosse algo perfeitamente natural. Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, você irá se atrapalhar _ e se atrapalhar feio _ em sua primeira tentativa. Há clubes privados de vôo aos quais você pode se juntar e que irão ajudá-lo a atingir esse momento fundamental de distração. Eles contratam pessoas com um físico inacreditável _ ou com opiniões inacreditáveis _, e essas pessoas pulam de trás de arbustos para exibir seus corpos _ ou suas opiniões _ nos momentos cruciais. Poucos mochileiros de verdade terão dinheiro para se juntar a esses clubes, mas é possível conseguir um emprego temporário em um deles."

domingo, 20 de novembro de 2011

Um pouco de Simone

"Abri a janela. Paris cheirava a asfalto e a tempestade, esmagada pelo calor pesado do
estio. Segui André com os olhos. É, talvez, nesses instantes em que o vejo distanciar-se
que ele existe para mim com mais perturbadora evidência: a silhueta alta diminui,
desenhando a cada passo o caminho de sua volta; ela desaparece, a rua semelha vazia
mas, em verdade, é um campo imantado que o reconduzirá a mim como a seu lugar
natural. Essa certeza me comove ainda mais que sua presença."

sábado, 19 de novembro de 2011

Sobre árvores e contradições

– Eu me sinto... Parada. Estagnada. Uma árvore.

– Uma árvore? Não. Árvores são verdes, cheias de vida, cheias de flores. Fazem sombra e delas conseguimos a madeira. Tem também a celulose. Uma árvore? Realmente, não.

– Nossa, obrigado. Você é um grande amigo.

– Eu sei, eu sei. Ah, e não se esqueça do oxigênio. Você só libera carbono, não é mesmo?

– Você é rude. E elas usufruem de todo o oxigênio que produzem. Ainda defende as árvores?

– Claro, elas fazem, elas usam. Muito bem, obrigado. Pior você, que precisa do oxigênio e nem é capaz de produzi-lo. Precisa das algas. Algas!

– Você fala como se não precisasse também. Talvez não precise, sempre duvidei que fôssemos da mesma espécie.

– Quem dera você tivesse razão.

– Eu com a razão?

– Devo confessar que não saberia como agir. Mas não é nada com que se preocupar. Você ter razão é o tipo de circunstância abordada apenas hipoteticamente. Como viajar na velocidade da luz.

– Chegará o dia que eu não perdoarei essas suas brincadeiras.

– Chegará?

– Não. Todos se foram, só restou você. Não é como se eu tivesse escolha.

– Sempre existem escolhas.

– Eu não escolhi perde-los.

– Mas escolheu não me deixar.

– Não havia escolha.

– Sempre há.

– Você escolhe respirar?

– Você pode escolher se matar. 

– Você escolhe ser uma árvore?

– Não, árvores são especiais. Você precisaria de um convite, talvez alguém de dentro que te indique. Muito concorrido.

– Você é especial.

– E você uma estúpida sentimental. Um dia morrerei de tanto que você me entedia.

– Eu vou ir embora. Cansei de me sentir parada, estagnada, uma árvore.

– O que você tem com as árvores? Essa obsessão é resultado de um trauma? Talvez da sua infância. Seus pais preferiam uma árvore?

– Não fale dos meus pais.

– Não, não falo. Sabia que eu fui uma árvore em um teatro da escola?

– Não, você nunca conta nada sobre quando estava na escola.

– Anos sombrios, com certeza, anos sombrios.

– Você tinha medo deles? Dos outros alunos?

– Medo? Talvez eles tivessem de mim. Não que eu tenha feito algo. Eu nunca faria.

– Realmente.

– Você não acredita.

– Vou embora.

– Não vai não. Você não me deixará.

– Você não precisa de mim.

– Mas você precisa de mim. Você não vai ir.

– Vou.

– Não vai.

– Me diga por qual motivo quer que eu fique.

– Qual seu motivo pra respirar? Você precisa. Você morre se não respira.

– Eu preciso entrar em movimento. Eu não preciso ficar aqui.

– Sua egocêntrica! Quem estava falando do que você precisa?

– Você precisa que eu fique?

– Você é tão estúpida assim ou finge?

– Você é rude.

– Você ficará.

– Você continua sendo rude. E um pouco impertinente. E quer que eu fique.

– Começo a duvidar que seja impossível viajar na velocidade da luz. 

– Você se contradiz o tempo todo.

– Claro! O que será a vida se não uma eterna contradição?