sábado, 19 de novembro de 2011

Sobre árvores e contradições

– Eu me sinto... Parada. Estagnada. Uma árvore.

– Uma árvore? Não. Árvores são verdes, cheias de vida, cheias de flores. Fazem sombra e delas conseguimos a madeira. Tem também a celulose. Uma árvore? Realmente, não.

– Nossa, obrigado. Você é um grande amigo.

– Eu sei, eu sei. Ah, e não se esqueça do oxigênio. Você só libera carbono, não é mesmo?

– Você é rude. E elas usufruem de todo o oxigênio que produzem. Ainda defende as árvores?

– Claro, elas fazem, elas usam. Muito bem, obrigado. Pior você, que precisa do oxigênio e nem é capaz de produzi-lo. Precisa das algas. Algas!

– Você fala como se não precisasse também. Talvez não precise, sempre duvidei que fôssemos da mesma espécie.

– Quem dera você tivesse razão.

– Eu com a razão?

– Devo confessar que não saberia como agir. Mas não é nada com que se preocupar. Você ter razão é o tipo de circunstância abordada apenas hipoteticamente. Como viajar na velocidade da luz.

– Chegará o dia que eu não perdoarei essas suas brincadeiras.

– Chegará?

– Não. Todos se foram, só restou você. Não é como se eu tivesse escolha.

– Sempre existem escolhas.

– Eu não escolhi perde-los.

– Mas escolheu não me deixar.

– Não havia escolha.

– Sempre há.

– Você escolhe respirar?

– Você pode escolher se matar. 

– Você escolhe ser uma árvore?

– Não, árvores são especiais. Você precisaria de um convite, talvez alguém de dentro que te indique. Muito concorrido.

– Você é especial.

– E você uma estúpida sentimental. Um dia morrerei de tanto que você me entedia.

– Eu vou ir embora. Cansei de me sentir parada, estagnada, uma árvore.

– O que você tem com as árvores? Essa obsessão é resultado de um trauma? Talvez da sua infância. Seus pais preferiam uma árvore?

– Não fale dos meus pais.

– Não, não falo. Sabia que eu fui uma árvore em um teatro da escola?

– Não, você nunca conta nada sobre quando estava na escola.

– Anos sombrios, com certeza, anos sombrios.

– Você tinha medo deles? Dos outros alunos?

– Medo? Talvez eles tivessem de mim. Não que eu tenha feito algo. Eu nunca faria.

– Realmente.

– Você não acredita.

– Vou embora.

– Não vai não. Você não me deixará.

– Você não precisa de mim.

– Mas você precisa de mim. Você não vai ir.

– Vou.

– Não vai.

– Me diga por qual motivo quer que eu fique.

– Qual seu motivo pra respirar? Você precisa. Você morre se não respira.

– Eu preciso entrar em movimento. Eu não preciso ficar aqui.

– Sua egocêntrica! Quem estava falando do que você precisa?

– Você precisa que eu fique?

– Você é tão estúpida assim ou finge?

– Você é rude.

– Você ficará.

– Você continua sendo rude. E um pouco impertinente. E quer que eu fique.

– Começo a duvidar que seja impossível viajar na velocidade da luz. 

– Você se contradiz o tempo todo.

– Claro! O que será a vida se não uma eterna contradição? 

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Um pensamento bonito:

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."