– Eu me sinto... Parada. Estagnada. Uma árvore.
– Uma árvore? Não. Árvores são verdes, cheias de vida, cheias de flores. Fazem sombra e delas conseguimos a madeira. Tem também a celulose. Uma árvore? Realmente, não.
– Nossa, obrigado. Você é um grande amigo.
– Eu sei, eu sei. Ah, e não se esqueça do oxigênio. Você só libera carbono, não é mesmo?
– Você é rude. E elas usufruem de todo o oxigênio que produzem. Ainda defende as árvores?
– Claro, elas fazem, elas usam. Muito bem, obrigado. Pior você, que precisa do oxigênio e nem é capaz de produzi-lo. Precisa das algas. Algas!
– Você fala como se não precisasse também. Talvez não precise, sempre duvidei que fôssemos da mesma espécie.
– Quem dera você tivesse razão.
– Eu com a razão?
– Devo confessar que não saberia como agir. Mas não é nada com que se preocupar. Você ter razão é o tipo de circunstância abordada apenas hipoteticamente. Como viajar na velocidade da luz.
– Chegará o dia que eu não perdoarei essas suas brincadeiras.
– Chegará?
– Não. Todos se foram, só restou você. Não é como se eu tivesse escolha.
– Sempre existem escolhas.
– Eu não escolhi perde-los.
– Mas escolheu não me deixar.
– Não havia escolha.
– Sempre há.
– Você escolhe respirar?
– Você pode escolher se matar.
– Você escolhe ser uma árvore?
– Não, árvores são especiais. Você precisaria de um convite, talvez alguém de dentro que te indique. Muito concorrido.
– Você é especial.
– E você uma estúpida sentimental. Um dia morrerei de tanto que você me entedia.
– Eu vou ir embora. Cansei de me sentir parada, estagnada, uma árvore.
– O que você tem com as árvores? Essa obsessão é resultado de um trauma? Talvez da sua infância. Seus pais preferiam uma árvore?
– Não fale dos meus pais.
– Não, não falo. Sabia que eu fui uma árvore em um teatro da escola?
– Não, você nunca conta nada sobre quando estava na escola.
– Anos sombrios, com certeza, anos sombrios.
– Você tinha medo deles? Dos outros alunos?
– Medo? Talvez eles tivessem de mim. Não que eu tenha feito algo. Eu nunca faria.
– Realmente.
– Você não acredita.
– Vou embora.
– Não vai não. Você não me deixará.
– Você não precisa de mim.
– Mas você precisa de mim. Você não vai ir.
– Vou.
– Não vai.
– Me diga por qual motivo quer que eu fique.
– Qual seu motivo pra respirar? Você precisa. Você morre se não respira.
– Eu preciso entrar em movimento. Eu não preciso ficar aqui.
– Sua egocêntrica! Quem estava falando do que você precisa?
– Você precisa que eu fique?
– Você é tão estúpida assim ou finge?
– Você é rude.
– Você ficará.
– Você continua sendo rude. E um pouco impertinente. E quer que eu fique.
– Começo a duvidar que seja impossível viajar na velocidade da luz.
– Você se contradiz o tempo todo.
– Claro! O que será a vida se não uma eterna contradição?
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Um pensamento bonito:
"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, à noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."