Eu tinha completado 15 anos, o que então me parecia muito - e que hoje eu sei que até poderia ser muito mesmo. Mas não era. Eu tive sorte em muitos aspectos, mesmo que talvez naquele tempo parecesse puro azar. Eu ainda tenho muita, muita sorte - o tipo de sorte que faz eu me sentir culpada, ao lembrar a noite, quão pouco merecedora eu sou do favoritismo do Universo. Mas eu tento não reclamar muito disso: um dia, eu sei, o Universo a cobrar seu preço, então, até lá, eu tenho a inteção de aproveitar bem o passeio.
De toda forma, quando eu completei 15 anos eu me apaixonei perdida e infinitamente por um garoto da minha escola. Não me lembro porquê. Por mais que depois de tudo eu tenha me perguntado tantas e tantas vezes qual foi o momento decisivo e por mais que eu venha perscrutando minha memória há anos, eu nunca soube dizer. O momento derradeiro em que meu coração foi arrancado de dentro do meu peito e colocado em praça pública, pronto para a decapitação (ou seja lá a forma que se mata um coração em praça pública) se perdeu em algum lugar da minha mente. Simplesmente aconteceu, eu imagino, como deveria acontecer.
Hoje eu me lembro de tudo com bem menos precisão do que eu já lembrei um dia. O que também é bom. Os filtros da memória sempre nos ajudam a apagar aqueles momentos que não precisam ser lembrados. Eu me lembro de me sentir agoniada e histérica e de tantas formas irracional, mas é bom que seja tudo uma memória turva. Quando algo foi difícil de viver, não gosto nem de imaginar como seria ruim não esquecer nem uma partezinha. Mas eu estou me precipitando, e muito, na história.
Porque até o momento eu estava completando quinze anos. E achava os olhos dele bonitos. E o sorriso. E a maneira como quando ele chegava todas as conversas se voltavam para ele, mas mesmo assim, não eram sobre ele. Nunca vi nada de tão atraente assim em pessoas que só sabem falar de si mesmas. Ele falava do Universo e fazia perguntas complicadas sobre física. E eu sorria de volta, tentando parecer mais esperta do que era, querendo ser mais inteligente do que era, tentando parecer madura e, dessa forma, só mostrando bem a criança que eu ainda era.
Claro que eu agi como a idiota que eu ainda sou. Claro que eu, despreocupadamente (ou nem tanto), dei um jeito de aos poucos descobrir sua agenda. E seus gostos e desgostos. Não me olhem torto: o Facebook, o Twitter e o Orkut (que ainda funcionava bem, naquela época) me ajudaram na minha empreitada. Mas claro que existiram momentos de pura loucura também, como quando li todo o blog que ele mantinha há anos, de cabo a rabo.
Eu já senti vergonha de tudo isso, mas hoje eu acho engraçado. Acho engraçado lembrar como tentei e tentei começar uma conversa com ele pelo MSN. Pedindo um livro emprestado. Falando qualquer coisa de Game of Thrones. Eventualmente deu certo. Eventualmente conversamos num finzinho de tarde de uma sexta-feira na escola. E,
quase sem querer, a conversa se estendeu pelo MSN a noite. E, de alguma forma, no dia seguinte conversamos novamente.
Eu lembro de não entender. De não fazer ideia nenhuma, nenhuma, nenhuma, do que estava acontecendo. Eu me lembro de pensar "isso é mesmo a vida real?" e era. E aquilo me fez contente de uma forma difícil de conter e difícil de não acabar. Não era só felicidade, era literalmente maluquice.
E, então, pelos próximos meses eu entrei em uma montanha russa de sentimentos que seguia um rítmo bem regular: se a gente conversava era um bom dia, se ele falava com outra pessoa na minha frente e não falava comigo era um funeral, mas se a gente fazia algo de diferente do que eu poderia esperar, então era noite de Natal adiantada.
Eu matei aula pela primeira vez pra almoçar no Subway com ele e perambular pela livraria depois. Eu comecei esse blog por causa dele, na vã e desesperada esperança de que um dia ele o lesse. Eu li livros, artigos de revistas complicadas, assisti filmes e séries, eu fiz tudo e cada uma das coisas na esperança de mostrar que eu era boa o suficiente.
Mas eu não era.
Talvez "boa o suficiente" não seja a melhor expressão pra se usar. Talvez eu fosse só uma menina cheia e sonhos e com pouca realidade, venerando alguém que ela nem conhecia direito. Talvez a ideia de conseguir fazer alguém que era, sem dúvida alguma, mais inteligente e interessante do que eu, ter algum interesse por mim me afetasse e no final nem fosse nada como amor. Ou quem sabe ele simplesmente tivesse esses olhos bonitos eu estivesse apaixonada, mas o sentimento não era recíproco.
Às vezes é simples assim: ele não gostava de mim. E eu gostava demais dele.
E é ai que a verdadeira história começa.
Se gostar dele me fez agir como a maior maluca do Universo, uma stalker viciada em migalhas de atenção, saber que ele não gostava de mim, apesar de todos os meus esforços, mudou tudo.
A ideia pegou meu mundo e o virou de cabeça pro chão e pernas para o ar.
Eu estava acostumada demais a ganhar. Eu estava cheia de mais de mim mesma. Eu me tinha neste pedestal de ouro no topo do Universo. E ele veio, roubou minha coroa e me jogou do topo direto para o limbo.
Eu eu caí.
Céus, como eu caí.
O céu fechou. A tempestade desabou. Os anjos da morte vieram anunciar o Fim do Mundo.
E o Mundo acabou.
Mas, de alguma forma, no dia seguinte eu ainda acordei. E no seguinte ao seguinte também. E o céu ainda estava azul em cima da minha cabeça e a grama ainda estava verde embaixo dos meus pés. E os livros ainda tinham folhas amareladas e a fragrância do paraíso.
E a vida continuou. Mais lentamente. Com menos presunção. Com mais livros. Comigo diferente do que tinha estado no início. Comigo mais forte e menos arrogante. Nem tão deslumbrada. Nem tão fácil de deslumbrar. Com raízes mais fundas, com ideias mais claras. Com certezas mais exatas. Comigo sabendo que não deixaria mais ninguém me moldar dessa forma.
Ele eu deixei porque foi o primeiro. O primeiro a fazer meu coração bater, literalmente, mais forte só ao vê-lo. Logo eu, que sempre achei que isso era pura invenção de autores extravagantes e pouco criativos. O primeiro a me fazer ver que eu não tanto assim a Rainha do Universo, como às vezes eu fingia ser. O primeiro a me mostrar que nem sempre querer é poder.
Por ele eu mudei como eu não mudaria por mais nada nesse mundo. Porque foi com ele que eu descobri o que era esse tal de amor. E com ele que eu descobrir que sempre é bom amar, mesmo quando o amor não passa de uma ideia dentro da gente.
Uma ideia que, mesmo que às vezes seja dolorosa, a gente gosta de cultivar.