No Ballet o breu é branco.
E a bailarina... Bem, a bailarina está sentada no canto da sala esperando que aquele tenha sido o último ensaio do dia. A bailarina, na sala, não tem nada da Bailarina do palco. No ensaio ela tem olhos cansados (às vezes chorosos), cabelo arrepiado e saia amassada. Mesmo assim a bailarina sorri. Sorri porque dança. E dançando ela vai. Pela sala, pelo corredor, pela cozinha, pelo quintal. Dançar é o que faz, dançar é o que quer fazer.
A bailarina não é assim, como todo mundo. A bailarina usa meia em cima do sapato. A bailarina tem bolha, tem dor, tem cansaço. E, mesmo assim, segue dançando, sempre sorridente, sempre como se todo seu esforço fosse nada, como se a dança fluísse por ela naturalmente. Como se tivesse nascido para isso. E talvez tenha.
O Ballet é ingrato. Porque a bailarina busca a perfeição, e a perfeição que ela almeja, a única que a satisfaria, é aquela inalcançável. A bailarina deve se doar em cada ensaio. Deve se esforçar em cada pliê. Superar a si mesma em cada aula. E deve entender que jamais estará sendo boa o suficiente.
A bailarina deve se despir de si mesma antes de entrar no palco. Nele ela será Giselle, Coppélia, Odette. Por seus movimentos ela traduzirá todos os sentimentos, as emoções e as histórias. Deverá no palco encantar a toda a platéia e persuadir a si mesma de que ela, as sapatilhas e a música são uma só.
No Ballet as sapatilhas são como asas. Sejam elas amareladas ou rosadas, furadas ou remendadas, novas ou não. A sapatilha faz a bailarina flutuar pelo linóleo em suas piruetas intermináveis. Porque no palco a bailarina se transforma em um ser divino, etéreo e inigualável.
As bailarinas de que falo, entendam, são as de verdade. Bailarinas não são feitas de tule e Glitter. Bailarinas de verdade são constituídas de dedicação, perseverança, esforço e, acima de tudo, bailarinas são feitas de amor pela dança. Pois só o amor pode explicar essa alegria quando a música nos preenche ao entrarmos no palco e enfrentarmos o público.
O Ballet é ingrato, autodestrutivo, cansativo, cruel, belo, maravilhoso, perfeito e proporciona uma alegria sem fim aqueles que decidem por uma vida na ponta dos pés.
E só agora eu percebo o quanto sinto falta disso tudo.