quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Das bailarinas

No Ballet o breu é branco. 

E a bailarina... Bem, a bailarina está sentada no canto da sala esperando que aquele tenha sido o último ensaio do dia. A bailarina, na sala, não tem nada da Bailarina do palco. No ensaio ela tem olhos cansados (às vezes chorosos), cabelo arrepiado e saia amassada. Mesmo assim a bailarina sorri. Sorri porque dança. E dançando ela vai. Pela sala, pelo corredor, pela cozinha, pelo quintal. Dançar é o que faz, dançar é o que quer fazer.

A bailarina não é assim, como todo mundo. A bailarina usa meia em cima do sapato. A bailarina tem bolha, tem dor, tem cansaço. E, mesmo assim, segue dançando, sempre sorridente, sempre como se todo seu esforço fosse nada, como se a dança fluísse por ela naturalmente. Como se tivesse nascido para isso. E talvez tenha.

O Ballet é ingrato. Porque a bailarina busca a perfeição, e a perfeição que ela almeja, a única que a satisfaria, é aquela inalcançável. A bailarina deve se doar em cada ensaio. Deve se esforçar em cada pliê. Superar a si mesma em cada aula. E deve entender que jamais estará sendo boa o suficiente. 

A bailarina deve se despir de si mesma antes de entrar no palco. Nele ela será Giselle, Coppélia, Odette. Por seus movimentos ela traduzirá todos os sentimentos, as emoções e as histórias. Deverá no palco encantar a toda a platéia e persuadir a si mesma de que ela, as sapatilhas e a música são uma só.

No Ballet as sapatilhas são como asas. Sejam elas amareladas ou rosadas, furadas ou remendadas, novas ou não. A sapatilha faz a bailarina flutuar pelo linóleo em suas piruetas intermináveis. Porque no palco a bailarina se transforma em um ser divino, etéreo e inigualável. 

As bailarinas de que falo, entendam, são as de verdade. Bailarinas não são feitas de tule e Glitter. Bailarinas de verdade são constituídas de dedicação, perseverança, esforço e, acima de tudo, bailarinas são feitas de amor pela dança. Pois só o amor pode explicar essa alegria quando a música nos preenche ao entrarmos no palco e enfrentarmos o público.

O Ballet é ingrato, autodestrutivo, cansativo, cruel, belo, maravilhoso, perfeito e proporciona uma alegria sem fim aqueles que decidem por uma vida na ponta dos pés. 

E só agora eu percebo o quanto sinto falta disso tudo. 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O mundo é para ser voado


"O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte a respeito de voar:
Há toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar. O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar. Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente. A primeira parte é fácil. Ela requer apenas a habilidade de se jogar para frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer. Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão. Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiver praticando da forma correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força. 

Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade. Um dos problemas é que você precisa errar o chão acidentalmente. Não adianta tentar errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. 

É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre o quanto isso tudo irá doer se você deixar de errar. 

É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular. Contudo, se você tiver a sorte de ficar completamente distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola. Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração. Balance e flutue, flutue e balance. Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe se flutuar mais alto. Não ouça nada que possam dizer nesse momento porque dificilmente seria algo de útil. Provavelmente dirão algo como: "Meu Deus, você não pode estar voando!" É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo.

Flutue cada vez mais alto. Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois se deixe levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.

NÃO ACENE PARA NINGUÉM.

Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir. Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar seu vôo, sua velocidade, como manobrar, etc. O truque está sempre em não pensar muito a fundo naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça como se fosse algo perfeitamente natural. Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, você irá se atrapalhar _ e se atrapalhar feio _ em sua primeira tentativa. Há clubes privados de vôo aos quais você pode se juntar e que irão ajudá-lo a atingir esse momento fundamental de distração. Eles contratam pessoas com um físico inacreditável _ ou com opiniões inacreditáveis _, e essas pessoas pulam de trás de arbustos para exibir seus corpos _ ou suas opiniões _ nos momentos cruciais. Poucos mochileiros de verdade terão dinheiro para se juntar a esses clubes, mas é possível conseguir um emprego temporário em um deles."

domingo, 20 de novembro de 2011

Um pouco de Simone

"Abri a janela. Paris cheirava a asfalto e a tempestade, esmagada pelo calor pesado do
estio. Segui André com os olhos. É, talvez, nesses instantes em que o vejo distanciar-se
que ele existe para mim com mais perturbadora evidência: a silhueta alta diminui,
desenhando a cada passo o caminho de sua volta; ela desaparece, a rua semelha vazia
mas, em verdade, é um campo imantado que o reconduzirá a mim como a seu lugar
natural. Essa certeza me comove ainda mais que sua presença."

sábado, 19 de novembro de 2011

Sobre árvores e contradições

– Eu me sinto... Parada. Estagnada. Uma árvore.

– Uma árvore? Não. Árvores são verdes, cheias de vida, cheias de flores. Fazem sombra e delas conseguimos a madeira. Tem também a celulose. Uma árvore? Realmente, não.

– Nossa, obrigado. Você é um grande amigo.

– Eu sei, eu sei. Ah, e não se esqueça do oxigênio. Você só libera carbono, não é mesmo?

– Você é rude. E elas usufruem de todo o oxigênio que produzem. Ainda defende as árvores?

– Claro, elas fazem, elas usam. Muito bem, obrigado. Pior você, que precisa do oxigênio e nem é capaz de produzi-lo. Precisa das algas. Algas!

– Você fala como se não precisasse também. Talvez não precise, sempre duvidei que fôssemos da mesma espécie.

– Quem dera você tivesse razão.

– Eu com a razão?

– Devo confessar que não saberia como agir. Mas não é nada com que se preocupar. Você ter razão é o tipo de circunstância abordada apenas hipoteticamente. Como viajar na velocidade da luz.

– Chegará o dia que eu não perdoarei essas suas brincadeiras.

– Chegará?

– Não. Todos se foram, só restou você. Não é como se eu tivesse escolha.

– Sempre existem escolhas.

– Eu não escolhi perde-los.

– Mas escolheu não me deixar.

– Não havia escolha.

– Sempre há.

– Você escolhe respirar?

– Você pode escolher se matar. 

– Você escolhe ser uma árvore?

– Não, árvores são especiais. Você precisaria de um convite, talvez alguém de dentro que te indique. Muito concorrido.

– Você é especial.

– E você uma estúpida sentimental. Um dia morrerei de tanto que você me entedia.

– Eu vou ir embora. Cansei de me sentir parada, estagnada, uma árvore.

– O que você tem com as árvores? Essa obsessão é resultado de um trauma? Talvez da sua infância. Seus pais preferiam uma árvore?

– Não fale dos meus pais.

– Não, não falo. Sabia que eu fui uma árvore em um teatro da escola?

– Não, você nunca conta nada sobre quando estava na escola.

– Anos sombrios, com certeza, anos sombrios.

– Você tinha medo deles? Dos outros alunos?

– Medo? Talvez eles tivessem de mim. Não que eu tenha feito algo. Eu nunca faria.

– Realmente.

– Você não acredita.

– Vou embora.

– Não vai não. Você não me deixará.

– Você não precisa de mim.

– Mas você precisa de mim. Você não vai ir.

– Vou.

– Não vai.

– Me diga por qual motivo quer que eu fique.

– Qual seu motivo pra respirar? Você precisa. Você morre se não respira.

– Eu preciso entrar em movimento. Eu não preciso ficar aqui.

– Sua egocêntrica! Quem estava falando do que você precisa?

– Você precisa que eu fique?

– Você é tão estúpida assim ou finge?

– Você é rude.

– Você ficará.

– Você continua sendo rude. E um pouco impertinente. E quer que eu fique.

– Começo a duvidar que seja impossível viajar na velocidade da luz. 

– Você se contradiz o tempo todo.

– Claro! O que será a vida se não uma eterna contradição? 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um pouco sobre tão, tão pouco

Eu gosto de chocolate, sorvete e dos dois juntos também. Adoro filmes que são bons de assistir, comédias e, por vezes, romances, mas eu prefiro aqueles que me dão algo em que pensar. Eu não gosto muito de mocinhas, tampouco de clichês. Eu escuto música de manhã cedo e antes de dormir. Talvez eu seja obcecada por livros, às vezes me arrisco a escrever. Eu gosto de matemática, física, história. Eu odeio matemática, física e história. Bolhas de sabão me hipnotizam, o céu me faz pensar. Ficar muito tempo na frente da televisão me estressa, novelas e reality shows derretem o cérebro das pessoas. Talvez eu seja hipócrita, talvez eu seja egocêntrica. Gente inteligente me fascina, gente arrogante me faz rir, gente falsa existe, gente divertida também. Eu gosto mais de umas pessoas que de outras sem motivos racionais. Espanhol me faz rir. Douglas Adams me faz ver o mundo por outros olhos. Desequilíbrio me conquista. Sorrisos me fazem sorrir. Músicas lembram pessoas, pessoas lembram músicas. Sento na primeira fila sempre que posso. Gosto de confiar nas pessoas, gosto que as pessoas confiem em mim. Às vezes sinto falta de abraços. Fico em silêncio quando estou triste. Não consigo dormir quando estou feliz. Óculos deixam as pessoas mais interessantes. Livrarias têm um cheiro bom, sebos são receptivos, bibliotecas acolhedoras. Gosto de usar os casacos do meu pai.  Conversas de madrugada. Vinícius, Drummond, Quintana. Eu gosto de palavras em latim e acho francês bonito. Castelos do sul da Itália, da Inglaterra, da Dinamarca. Castelos. Caribe. Mar. Banhos longos. Descrições sem sentido. Pontos. Que cada um tire suas conclusões.